segunda-feira, 14 de outubro de 2019

14/10/2019 - Dia 3

Hoje não acordei muito bem, acho que é efeito da dosagem mais alta de um dos remédios. Ainda bem que só preciso tomá-lo por mais sete dias...

No hospital, pela manhã, foi um pouco pesado. Tivemos que contar em grupo como havia sido o fim de semana, e para algumas pessoas não foi nada agradável. Uma não conseguiu ir visitar a família porque o cônjuge não quis sair; outra, bem solitária, foi para a cama às oito da noite; outra brigou com os pais, que a chamaram de mentirosa por ter faltado ao hospital na sexta por motivo de gripe. Essa briga resultou em severa autopunição: a pessoa em questão fez vários cortes no pulso, pois se sentia culpada por ter brigado com os pais. Após compartilhar o fato conosco, uma outra pessoa, que nunca se coloca, falou; ela tinha muitas experiências de corte e automutilação, havia encontrado uma forma de contornar isso e recomendou-a à colega: ao sentir vontade de se cortar, faça isso no cabelo. De acordo com essa pessoa, ver mechas de cabelo caindo traziam a mesma sensação de êxtase que a de ver o sangue escorrendo. Isso tudo é muito triste...  Uma outra pessoa disse que tinha um determinado pensamento repetitivo que a dominava; solidarizei-me com ela e disse que eu sentia a mesma coisa. Essa mesma pessoa iniciou recentemente um novo tratamento, que é uma opção à eletroconvulsoterapia - ECT - o famoso "choque". Trata-se da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) - um tipo de capacete que emite impulsos eletromagnéticos por meia hora (15 minutos nas primeiras sessões, para adaptação); é menos agressivo que a ECT, mas causa dores de cabeça.

É doído ver, nesses grupos, quantas pessoas infelizes há por aí... Quantos adultos, alguns bem maduros, vivem com os pais, não conseguiram desenvolver uma vida independente. Quantos problemas, terapias, tratamentos, remédios... Quanto sofrimento...

Após o almoço, descansamos conversando debaixo da jabuticabeira (que está carregadinha, frutos um pouco verdes, mas até quarta acho que estarão no ponto); em seguida, TO. Foi dia de atelier, e escolhi pintar um pano de prato e, enquanto trabalhava, fiquei ouvindo as histórias dos outros pacientes. Em especial, uma me chamou a atenção: apesar de não ter dado nome à sua doença e de não parecer muito satisfeita em estar na clínica, estava claro que era TOC. A pessoa fazia faxina o dia todo, colocava inclusive os espelhos de molho, andava na rua de máscara e luva com medo de germes. Existe um termo, misofobia, usado para definir o medo de sujeira e contaminação. É muito difícil a vida de um portador de transtorno obsessivo-compulsivos mas, assim como no caso das demais doenças mentais, somente quem sofre na pele é que sabe dessa dificuldade.

Espero que o dia seja mais leve amanhã, apesar de eu ter a consciência de que não estou em uma colônia de férias.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

11/10/2019 - Dia 2


A parte da manhã foi muito interessante hoje. Às sextas é realizada a atividade "Fechamento da Semana", em que os pacientes escrevem o que ocorreu, como se sentiram, etc. durante os sete dias anteriores; em seguida, cada um lê o que escreveu e os outros fazem observações e comentários. O trabalho é normalmente acompanhado por uma psicóloga, mas como ela está afastada por alguns dias, foi conduzido pelo assistente social.

Foi um momento em que pudemos saber mais da doença, do tratamento, das medicações e da vida de cada um. É incrível como todos se tornam especialistas em medicamentos psicotrópicos e trocam experiências sobre seus efeitos. Por exemplo, um moço muito deprimido não está se adaptando à fluoxetina, tem sintomas horríveis como palpitação, falta de ar, entre outros e, além de tudo, a depressão piorou. Ele está persistindo, mas sem muita esperança. Nós o aconselhamos a conversar com a psiquiatra, colocar tudo o que havia dito no grupo, para que ela talvez alterasse o remédio.

Aliás, eu ainda não disse: toda semana passamos em consulta com o(a) psiquiatra. A cada paciente é atribuído um médico, então eu sempre vou passar com o mesmo, para haver uma sequência no acompanhamento. Esse profissional vai verificar se a medicação está funcionando e fazer os devidos ajustes; acho que agora meus remédios estão bem sincronizados, e espero não precisar mudar. Entretanto, se eu realmente não estiver apenas deprimida, mas sim com transtorno bipolar, dependendo da fase da doença (depressão ou mania) é que vou comprovar se os medicamentos estão realmente ajustados.

Hoje o almoço foi muito gostoso: arroz, feijão, bife à milanesa, purê, salsicha com molho, batata palha, salada, brigadeiro e pirulito. Acho que às sextas eles devem fazer essas concessões de guloseimas, porque ontem a sobremesa foi radicamente diferente: maçã.

A atividade da tarde não contribuiu muito. Fizemos um "happy hour" (entre aspas porque foi às duas da tarde) em uma padaria. Eu preferia ter ficado na clínica e feito TO (pintura, artesanato...)  tranquila, mas os pacientes mais antigos se sentem muito presos. Então, uma vez por mês, há essa saída para a padaria. Foi bom para conversar, mas nosso assunto sempre gira em torno de nossas doenças. Porém, é sempre importante saber mais sobre os problemas dos colegas pois há muita coisa em comum entre nós.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

10/10/2019 - Dia 1

Somente hoje iniciei o tratamento, devido à burocracia do convênio.

Cheguei ao hospital um pouco antes das 10h00 e fui super bem recebida. Não sei se é cedo para dizer, mas creio que o sofrimento psíquico de quem possui uma doença mental é tamanho que as pessoas então acabam se unindo e se solidarizando. Encontrei muito carinho e gentileza.

Havia duas opções de atividade pela manhã: assistir a um documentário, e participar de uma discussão sobre o tema em seguida, ou fazer uma caminhada. Optei por caminhar, mas na quinta-feira que vem vou ficar para o filme. Quero experimentar o máximo de atividades e ver qual delas irá trazer maior benefício.

Depois da caminhada, aguardamos o almoço, que é servido das 12h15 às 13h00. As refeições são trazidas por um restaurante terceirizado, não são preparadas no local. Ficamos todos em uma fila e somos servidos pelas funcionárias. Enquanto aguardava, fiquei escutando a conversa de um grupo de moças, duas delas recém chegadas, como eu; a veterana, portadora de TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo, perguntava a elas qual doença as havia levado à internação. Uma delas tinha síndrome do pânico e ansiedade; a outra, borderline. Ao indagarem a esta última o que era borderline, ela respondeu, simplesmente "Basicamente, sou uma pessoa insuportável.". É que esse transtorno é caracterizado pela instabilidade emotiva e nos relacionamentos.

Após ser servida, procurei um lugar para me sentar e escolhi uma mesa em que já havia várias pessoas; assim, teria a oportunidade de conhecê-las. Foi muito interessante, ouvi várias histórias, uma muito triste, que contarei em outra ocasião, mas outras engraçadas. Quando contei que estava internada por depressão, eles me disseram "Fique tranquila. Aqui, todo mundo se acolhe. E você vai rir muito com a gente, você vai ver."

Das 13h00 às 14h00 é o horário de descanso; aproveitei para ler um pouco. Em seguida, as atividades terapêuticas: musicoterapia ou TO - Terapia Ocupacional (tema de hoje: confeccionar a decoração para a festa de Halloween). Em dúvida, pedi permissão para fazer um pouco de cada. Gostei muito da TO porque manteve minha mente concentrada, e também porque a terapeuta veio conversar comigo, saber mais de minha história. Foi um momento para desabafar, chorar e ouvir bons conselhos. A profissional demonstrava amar o que fazia, e me tratou de uma forma super solidária e carinhosa.

Às 16h00, todos já ficam prontos para sair, e precisamente às 16h15 a técnica de enfermagem abre o portão. Todos se despedem e cada um vai para o seu lado.

OBSERVAÇÕES: Notei que alguns pacientes não participam de nada... Ficam fumando, ou sentados simplesmente, sem tomar parte em qualquer das atividades. Fiquei me perguntando se não caberia ao hospital estimulá-los a participar, mas não tenho conhecimento suficiente para entender cada um... Talvez estejam em uma situação em que não possa haver qualquer tipo de pressão. Não sei...

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

01/10/2019 - Primeira visita

Antes de iniciar o tratamento, o protocolo do hospital requer que o paciente e um membro de sua família marquem um dia para conversar com a psicóloga e conhecer o local.
Fizemos isso hoje, eu e meus pais. Fiquei bastante tempo conversando a sós com a psicóloga (meus pais me ofereceram privacidade para isso), e depois fomos visitar as instalações. Primeiramente vimos o refeitório, bem claro e agradável - a alimentação é fornecida por um restaurante externo - e a sala da medicação, onde fica uma enfermeira e duas técnicas em enfermagem.
Em seguida, fomos a um pátio, arborizado, no qual havia um salão onde estava acontecendo uma aula de dança, da qual poucos participavam. Notei que a maioria dos pacientes estava sentada nos bancos que se espalhavam pelo pátio, alguns com aparência mais doentia, outros verificando o celular, um fumando, um dormindo (isso me impressionou. Se é um hospital dia, cheio de atividades, por quê ele estaria dormindo?).
Continuando a ronda, no piso superior há duas salas, com mesas grandes, forradas com toalhas plásticas, que é onde acontecem as atividades de terapia ocupacional (artesanato, pintura, etc.) e as relacionadas a psicoterapia. Também havia um homem dormindo sobre um colchonete em uma dessas salas, e mais uma vez tive uma impressão ruim.
De qualquer forma, quero tentar esse tratamento. Meu convênio ainda não autorizou, e por isso preciso aguardar alguns dias.
Até breve!

Introdução ao Diário

Há muitos anos, tive uma depressão profunda. Fiz terapia, tomei muitos remédios e, quase sete anos depois, senti-me curada.
Porém, há alguns meses, estou novamente enfrentando esse problema, ainda que com características e intensidade diferente. Mais uma vez, terapia, medicamentos, meditação... Entretanto, continuo muito triste e por isso conversei com meu médico e pedi para ser semi internada em um hospital dia. É um hospital em que o paciente chega de manhã, realiza diversas atividades (terapia em grupo, artesanato, dança, teatro, caminhadas, conversas) e vai para casa no final da tarde.
Este diário falará sobre minha rotina no hospital, com o intuito de compartilhar as experiências e talvez ajudar quem está vivendo um problema semelhante ao meu.
Até breve!