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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

17/12/2019 - Dia 36

De manhã, adiantamos a revista HD Mix; geralmente essa atividade é feita na última terça do mês, mas como o Natal e o Ano Novo cairão nesse dia da semana, a realizamos hoje. Escolhi o tema "Viagens", encontrei rapidamente algumas figuras e escrevi "Wanderlust" no rodapé de minha folha, abaixo das colagens. Essa é uma palavra alemã (que se escreve com a inicial maiúscula mesmo, como ocorre com todos os substantivos desse idioma) que não tem tradução direta para o português (como a nossa "saudade" também não tem. Ela tem que ser explicada em duas ou mais palavras.), e que significa "desejo de viajar".

Após o almoço, tive a consulta semanal com meu médico mesmo, que voltou de férias. Foi uma ótima consulta, pois ele me perguntou sobre tudo o que havia feito e sentido em sua ausência, e ficou feliz ao ver minha evolução. Por isso, combinamos minha alta; ele voltou a dizer que não é bom que eu continue por mais tempo no HD agora. Como eu volto a trabalhar na segunda metade de janeiro, precisaria ser liberada mesmo do hospital, e o doutor adiantou um pouco isso, para que eu possa tirar umas férias, ir para a praia, antes de retornar à rotina normal.

Na TO, achei que fosse finalizar o boneco de neve de barbante, mas... as bexigas onde colei os fios murcharam durante o fim de semana, e o barbante murchou também... Bom, comecei de novo. Vamos ver se vai dar tempo de ficar pronto até quinta-feira, dias do almoço de Natal. Aliás, estou pensando também em meu cachecol de tear... Não terminei ainda, porque interrompi o trabalho várias vezes. Vou pedir às terapeutas para tecê-lo em outros dias da semana, de forma que eu consiga concluí-lo!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

26/11/2019 - Dia 25

Hoje tivemos a "Oficina de Comunicação" e confeccionamos a nova edição da HD Mix. Porém, tive que sair no meio da atividade porque era dia de consulta com o psiquiatra.

Foi uma boa consulta. Falei do problema digestivo e do meu fim de semana, disse que havia participado de um evento de meditação no sábado que tinha sido ótimo (ele dá muito apoio a terapias alternativas, diz que cada coisa tem seu papel e que precisamos de tudo para sermos completos), mas que eu não havia aproveitado 100% porque estava um pouquinho triste. Mesmo assim, ele viu que estou tendo progressos e estou mais estável e então ele me concedeu... Redução!! Agora, não precisarei mais ir à clínica às segundas-feiras (eu escolhi o dia)! Fiquei feliz, não porque não preciso mais ir nesse dia, mas pelo reconhecimento da melhora.

No intervalo do almoço, nos reunimos no pátio para conversar, várias pessoas. Uma colega começou a nos contar sobre o estopim para sua doença: como muitos de nós, havia sido o trabalho. Ela trabalhava em uma empresa onde era obrigada a fazer diversas tarefas que não tinham na a ver com a função para a qual fora contratada, algumas até de certo risco, como levar ou trazer grandes quantias de dinheiro do banco pela rua. Um dia, seu chefe foi comer um pão francês, mas todos haviam se acabado, e por isso ele se levantou contra ela (obviamente a responsável por comprar o pão também) que sofreu uma grande humilhação e injustiça de uma pessoa autoritária, que se impunha de forma ostensiva e tirava proveito de sua condição de pobreza.

Infelizmente, relatos como esse não são incomuns. Não importa o tipo de trabalho, o salário ou o local, pessoas são humilhadas, maltratadas, agredidas verbalmente. E, muitas vezes, isso acarreta enfermidades físicas e, o que é pior em minha opinião, doenças emocionais/psicológicas/psiquiátricas. Digo "pior", porque esses problemas não são diagnosticáveis via exames de laboratórios, em geral são muito mais difíceis de serem tratados e curados do que os físicos e seu portador ainda carrega um estigma que provavelmente irá prejudicar sua carreira e vida profissional para sempre.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

19/11/2019 - Dia 21

  Hoje, minha primeira atividade foi a consulta ao psiquiatra. Gosto tanto desse médico! Relatei como havia sido meu período de ausência, e que eu tinha ficado um pouco triste após a cirurgia, mas depois havia conseguido me reerguer, ele, ao final da consulta, me deu um abraço e me disse que tinha ficado muito feliz com meu progresso.

   Depois, na Oficina de Comunicação, lemos o seguinte artigo da Folha de São Paulo:


   
Tortura Psicológica - Mirian Goldenberg
Tenho entrevistado homens e mulheres com mais de 60 anos.
Eles casaram, tiveram filhos e até netos. Montaram suas casas, compraram seus carros, superaram crises pessoais, familiares e profissionais. Mas será que se tornaram pessoas mais sábias e maduras com o passar do tempo?
Observo que muitos continuam sofrendo pelos mesmos motivos pelos quais sofriam na infância. Ainda hoje choram porque tiveram um pai violento, crítico ou ausente. Também sofrem porque não foram suficientemente reconhecidos, elogiados e amados pelos pais.
Uma professora de 63 anos contou: “Apanhei muito do meu pai e, até ele morrer, nunca recebi um só gesto de carinho, uma palavra de amor, um presente especial. Sofro muito ao ver a relação do meu marido com a filha do primeiro casamento dele. Ele é um pai muito amoroso, o pai que eu sempre quis ter e nunca tive”.
Ela se considera uma “mendiga emocional”. “Testemunho o amor incondicional que meu marido sente pela filha. Tudo é para ela: carinho, atenção, cuidado, tempo, dinheiro. Eu me sinto uma mendiga: só fico com as migalhas. É uma verdadeira tortura psicológica”.
É muito frequente casais se separarem quando o filho nasce porque o marido não consegue suportar a atenção que a esposa dedica ao recém-nascido. É o que aconteceu com um músico de 61 anos: “Eu me separei do grande amor da minha vida depois que o nosso filho nasceu. Eu me senti excluído da vida dela, abandonado, rejeitado. É impossível competir com este tipo de amor”.
Ao ouvir tantas histórias tristes, percebi que é importante aprender a cuidar com amor, atenção e carinho da criança que um dia fomos e que, de certa forma, continuaremos a ser até o fim de nossas vidas.
Quem sabe assim conseguimos minimizar o sofrimento e ainda economizar muitos anos de análise?

O texto mexeu muito com algumas pessoas, a ponto de algumas nem conseguirem falar. A carência é uma característica muito comum entre os pacientes, bem como a baixa autoestima. E não importa a idade. 
Porém, nem tudo é triste. Foi muito bacana ouvir um moço jovem dizer que todos os dias abraçava seus pais e seus irmãos e que sabia que isso era cafona (afirmação que refutamos imediatamente), mas que ele não conhecia o dia de amanhã, e queria deixar tudo resolvido, todos os dias, para nunca haver tristeza e arrependimento. Uma lição para os mais velhos, para todos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

01/11/2019 - Dia 17

Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.

Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.

À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

29/10/2019 - Dia 14

Pela manhã, tivemos uma atividade diferente (para mim): a confecção da HD Mix, a revista do hospital. É assim: cada um escolhe o tema que quiser e folheia as revista em busca de imagens correspondentes; em seguida, recorta e cola as fotos em folhas de A3, de A4 ou de flip chart (aquele cavalete de madeira que tem um suporte para fixação de papel na parte superior, muito utilizado em cursos e apresentações), escreve e decora como desejar e depois fala sobre sua ideia. Foi interessante, percebem-se muitos dotes artísticos nessas oficinas.

Durante a atividade, fui chamada pela técnica em enfermagem para ir à minha consulta semanal. O psiquiatra ficou feliz em ver que estou melhor e me deu parabéns pela visível evolução. Disse que, mais para frente, vai verificar a possibilidade de me conceder uma redução (que é a retirada de um dia de tratamento na semana. Por exemplo: algumas pessoas têm redução às segundas-feiras, e então não precisam ir ao HD nesse dia). Só espero, muito, que o médico não resolva me deixar no hospital até janeiro, que é quando se encerra meu benefício no INSS; quero ter alta antes, para poder fazer outras coisas antes de voltar a trabalhar. Mas... o mais importante é eu estar bem, não importa quanto tempo isso vai levar. Não é bom ter pressa, em se tratando de saúde.

Hoje entrou uma nova colega na clínica; entretanto, alguns pacientes comentaram que ela havia dito que não ficaria internada lá de jeito nenhum, que tinha obrigações e precisava voltar a elas. E, de fato, após o almoço ela foi conversar com o psiquiatra, faltou de seu desejo e não teve como convencê-la do contrário; o médico lhe deu alta e ela nem iniciou um projeto de artesanato na terapia ocupacional. É engraçado como ficamos chateados com essas coisas... Sabemos que o HD poderia ajudá-la a melhorar, seja qual for seu transtorno e, ao virmos sua desistência, ficamos tristes por ela não ter dado uma chance a si mesma.

Na hora do almoço, colegas presenciaram uma discussão entre dois outros pacientes; o desentendimento foi devido ao lugar na fila para ser servido. Cada um clamava pela dianteira, até que um deles deu um basta e assumiu a posição que julgava ser sua, e foi o primeiro a almoçar. Nota-se que é comum no HD alguns internos brigarem por posse de coisas simples, como o controle da televisão, determinada poltrona, etc. Acredito que faça parte das características de certos transtornos (TOC, por exemplo), mas sendo doença ou não, essas histórias já geraram até suspensões de pacientes.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

25/10/2019 - Dia 12

Como de costume, às sextas, ocorre o "Fechamento". Todos contam como foi sua semana, mas também acabam desabafando muitas coisas, problemas invariavelmente vinculados, direta ou indiretamente, à doença. Emoções à flor da pele são muito frequentes nesses momentos, mas o bom é que ninguém julga quem chora; pelo contrário: alguém sempre se levanta para pegar alguns lenços de papel e entregar a quem está falando. A psicóloga nos disse hoje que é importantíssimo, durante a terapia em grupo, falar bastante e colocar tudo para fora; essa atitude não vai resolver o problema, mas vai amenizar a intensidade com a qual ele está sendo vivenciado, vai deixar a pessoa mais leve.

Em um dos depoimentos, o INSS foi citado novamente. Uma das colegas está com depressão, teve um membro da família assassinado e está com questões familiares, mas, mesmo assim, teve o benefício negado. Na verdade, o médico perito nem deu chance para que ela colocasse seus problemas; ele perguntou apenas "Sua medicação não está fazendo efeito??", permaneceu digitando algo no computador e a dispensou, com menos de um minuto de consulta. O jeito como alguns médicos tratam pessoas com problemas mentais é absurdo, deveriam ter o diploma cassado por perjúrio às palavras de Hipócrates. Hoje em dia, na formatura, os médicos não utilizam mais o texto original do pai da medicina, pois o texto foi atualizado para o vocabulário e realidade atual. Em Portugal, foi adotado o seguinte (destaquei algumas palavras que guardam relação com a situação da colega):

"Compromisso do Médico
Como membro da profissão médica:
– PROMETO SOLENEMENTE consagrar a minha vida ao serviço da humanidade;
– A SAÚDE E O BEM-ESTAR DO MEU DOENTE serão as minhas primeiras preocupações;
– RESPEITAREI a autonomia e a dignidade do meu doente;
– GUARDAREI o máximo respeito pela vida humana;
– NÃO PERMITIREI que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente;
– RESPEITAREI os segredos que me forem confiados, mesmo após a morte do doente;
– EXERCEREI a minha profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;
– FOMENTAREI a honra e as nobres tradições da profissão médica;
– GUARDAREI respeito e gratidão aos meus mestres, colegas e alunos pelo que lhes é devido;
– PARTILHAREI os meus conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de saúde;
– CUIDAREI da minha saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade;
– NÃO USAREI os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e sob palavra de honra"

Eu fico me perguntando se os peritos do INSS se lembram, mesmo que vagamente, do conteúdo daquilo que prometeram ao receberem seus diplomas. Mesmo que não se lembrem, respeito é algo que todo mundo deve mostrar por qualquer pessoa...

À tarde assistimos a um filme já antigo: "Querida, Encolhi as Crianças!!" de 1989. Às sextas é dia de atividade lúdica, mas eu, sinceramente, prefiro jogar como na semana passada. A interação é muito maior...

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

24/10/2019 - Dia 11


Hoje assistimos ao filme Vida de Menina:


(Aqui é só uma imagem, não é o filme)

É sobre uma mineira de ascendência inglesa, Helena Morley, filha de um minerador de diamantes na época em que as lavras (córregos em que as pedras eram procuradas) estavam escassas. A moça desafiava os costumes da sociedade à época, não era "bem comportada", "recatada", etc. Gostei muito do filme, mas infelizmente houve um atraso no início e não tivemos tempo para realizar a discussão.

No horário do almoço, fiquei na frente de uma colega que nos contou que havia sofrido um acidente de trabalho, cortado um dedo de forma muito profunda, e que sua empresa lhe negara socorro. Ela foi ao hospital com a enfermeira de uma outra empresa, sofrendo de dor. Perdeu muito sangue, precisou de pontos e antibiótico; como a faca havia atingido os nervos, ela perdeu a sensibilidade na ponta do indicador. Precisou ficar bastante tempo afastada, utilizando o INSS e então caiu em depressão; a partir daí, o INSS passou a negar-lhe o benefício, alegando que "depressão não era doença, era frescura". Ela entrou com uma ação contra a instituição e está aguardando o desenrolar. Infelizmente é muito comum o órgão conceder o benefício por um tempo, mas não renová-lo depois, em casos de depressão e outras doenças mentais. Só quem tem problemas assim, ou está próximo de quem os tenha, pode dizer o quanto é sofrido o transtorno em si, o estigma e o fato de que não existem exames de laboratório ou de imagem que possam comprová-lo. Se você quebra o pé, o raio-X vai se encarregar de provar a todos que sim, você tem uma enfermidade que lhe impede de trabalhar; entretanto, se tiver síndrome do pânico, somente o exame clínico (uma conversa com o psiquiatra) não vai ser suficiente para aplacar a desconfiança daqueles que sofrem de uma outra doença: o preconceito.

Depois do intervalo, finalizamos rapidamente a confecção da decoração de Halloween e já fomos em seguida pendurar nossos fantasminhas, morceguinhos, abóboras e correntes de papel crepom pelo pátio. Ficou muito bonito. O vento estava batendo e os morcegos começaram a balançar, parecia que estavam voando mesmo. O Dia das Bruxas pode ser uma celebração importada, mas festa é festa, e um ambiente decorado fica sempre mais alegre e até divertido.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

22/10/2019 - Dia 9

Pela manhã, discutimos o curta-metragem "Engano":


O filme fala sobre encontros e desencontros, e gerou uma conversa emocionante. A que mais me marcou foi a de uma moça que, todos os dias, ao ir para a escola, passava por um traficante. Ele se achava o tal, e ela não podia nem vê-lo na frente. Um dia, encontrou-o em uma balada e ele lhe ofereceu uma garrafa de vinho, que ela, obviamente, recusou. Um tempo depois, foi a outra balada, e ele estava com outra pessoa; ela então sentiu ciúmes dele. Passaram a namorar, mas ela impôs uma condição a ele: se quiser ficar comigo e constituir uma família, vai ter de largar o tráfico. Ele pediu a ela uma semana, para acertar tudo e, cinco dias depois, largou a vida de bandido, arrumou um emprego e nunca mais traficou. Mudou por ela, por amor a ela. Foi uma história linda de se ouvir e eu, para variar, chorei.

Após o almoço, tive minha consulta semanal. Foi muito boa, recebi os parabéns por estar participando de tudo, estar melhorando meu estado. Fiquei feliz. Ele manteve a medicação, mas suspendeu o desmame do Latuda; quando eu disse que o medicamento me deixava muito ansiosa e agitada ele falou para eu parar de toma-lo imediatamente. 

À tarde continuei meu cachecol no tear; ou melhor, comecei de novo. Estava cheio de defeitos que me incomodavam, e como ainda estava no começo, tinha apenas uns 7cm, resolvi desmanchar tudo e recomeçar. Meus colegas disseram que eu corajosa de fazer isso, mas que era como na vida, em que você às vezes precisar dar um passo para trás para poder continuar caminhando para a frente. Eu concordei: ultimamente minha vida tem sido dar muitos passos para trás para poder então melhorar e evoluir. Há muito sofrimento nisso, mas creio que sofrer é sinônimo de se fortalecer; só que o sofrimento demora a passar, e o fortalecimentos anda a passos de tartaruga. Mas tenho fé e creio que vou sair dessa; só não sei quando.



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

18/10/2019 - Dia 7

Sexta-feira, dia de "Fechamento". É sempre bom ouvir o que os colegas fizeram e sentiram durante a semana; às vezes é triste também: uma pessoa que anda atormentada com acontecimentos do passado; outra que se se sente um fardo para os pais em casa; outra que sofre abuso emocional da mãe. Mas vários pacientes estão se sentindo melhor, pelo tempo que já passaram na clínica, pela troca de medicamentos, pela terapia...

Após o grupo, tive um momento singular, muito bacana. Um dos colegas é escritor infanto-juvenil e quando ele nos disse o título do livro, comprei-o pela internet. Chegou esses dias, e hoje levei-o para o autor autografar; ele ficou feliz, disse que meu gesto tinha sido muito delicado e fez uma bonita dedicatória para mim. Nossa, eu, que amo tanto ler, me senti privilegiada por conviver com um escritor e poder conversar sobre a obra dele! Muito bom.

Alguns dias atrás, mencionei sobre uma paciente portadora de TOC, que fazia faxina o dia todo, colocava os espelhos de molho e tinha muito medo de germes. Pois bem, hoje soube mais sobre essa pessoa: o motivo que a havia levado aos extremos do transtorno foi uma infecção generalizada que ela adquirira por contato com fungos, e que a levou a muitos dias de internação com risco de vida. Essa mesma pessoa tem uma filha diagnosticada com borderline, que tentou se matar e ficou internada por bastante tempo, em regime fechado.

A parte da tarde foi muito legal: às sextas, para fechar a semana com mais leveza, as TOs levam jogos, para serem jogados em grupo. Hoje foi o "Perfil", que adoro, e em que precisamos adivinhar o nome de uma pessoa, coisa, lugar ou um determinado ano, com base em dicas lidas para cada grupo. Quanto menos dicas se usa para acertar, mais casas se avança no tabuleiro. Foi super divertido; meu grupo ganhou a primeira rodada, perdeu a segunda e não houve tempo de terminar a terceira. Mas não importa; o que vale é que foi um momento feliz para mim e, pelo que pude sentir, para a maioria dos meus colegas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

17/10/2019 - Dia 6

Hoje de manhã havia duas opções de atividade: caminhada ou filme (com posterior discussão). Fiquei para o filme que, curiosamente, era "Angry Birds". Eu digo "curiosamente" porque não imaginava que um desenho animado baseado em um joguinho de celular pudesse ter conteúdo para gerar uma conversa entre os pacientes. Mas teve! O filme apresentou diversos elementos com os quais vários de nós se identificaram: a jornada do herói, a superação, a persistência, o preconceito, a luta. Foi bem rica a discussão.

Após o almoço, no intervalo, conversamos bastante e jogamos pingue-pongue. Foi divertido e cansativo (correr atrás da bolinha, abaixar...). Depois, como é quinta, continuamos a fazer a decoração para o Halloween; havia também a alternativa da musicoterapia, mas o artesanato me deixa mais focada, me relaxa mais. Só havia mulher no atelier hoje, então pudemos conversar à vontade sobre assuntos femininos, especialmente sobre corpo, peso e autoestima.

Estou gostando muito de trocar experiências com os colegas do HD. Todas as discussões são enriquecedoras, ensinam muito e nos fazem ver que estamos todos no mesmo barco, não importa qual seja o diagnóstico de cada um.

Uma das coisas tristes de hoje foi ter visto os cortes que uma paciente fez intencionamente no corpo. Não somente nos pulsos, mas também nos braços e, segundo eu soube, na barriga também. Sinto vontade de fazer algo por ela, mas percebo ser impotente ante o desespero e a falta de perspectiva da pessoa. No máximo, podemos conversar, acolher... Mas creio que isso já seja alguma coisa.

Noto que vários colegas continuam não participando de nenhuma atividade. Ficam sentados no pátio, fumando ou no refeitório, lendo... Pergunto-me se terão condições de sair do hospital algum dia, pois na verdade não estão tomando parte no tratamento - estão lá, apenas, comparecendo diariamente à clínica, mas sem se envolver em nada. Sinto pesar por eles, quero que todo mundo possa ter uma vida normal um dia. Por melhor que seja o HD, não podemos deixar de lutar pela meta de ter alta.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

16/10/2019 - Dia 5

Hoje tivemos uma "overdose" de terapia em grupo. Mas foi bom, é ótimo trocar experiências e ver o quanto não estamos sozinhos nessa jornada de sofrimento e cura.

Pela manhã, assistimos o vídeo abaixo, bem bonitinho por sinal, sobre ansiedade:


Depois, discutimos sobre o tema. Fiquei feliz ao ver que um dos colegas, que nunca participa das atividades, entrou na sala e compartilhou sua visão sobre ansiedade. A parte triste é que, para que seu depoimento fizesse sentido, ele nos contou que fora viciado em drogas por 20 anos, da adolescência à quase meia idade e que a adicção o fizera perder tudo o que tinha: casa, carro, dinheiro e, obviamente, saúde.

Observei que há muitos fumantes no hospital dia (na verdade, ninguém se refere à clínica por esse nome. Todos dizem "HD".), alguns muito novos e que fumam o dia inteiro. Hoje mesmo, testemunhei um desses colegas acendendo um cigarro no outro; foram três ou quatro em sequência, em um intervalo de menos de meia hora. Talvez a própria doença leve ao vício, para suprir algo ou aplacar a ansiedade.

À tarde, alguns de nós iriam para a TO, confeccionar suportes para panos de prato, mas a psicóloga nos chamou para um grupo de conversa. A dinâmica foi assim: cada um escreveu uma palavra/frase curta relacionada a algum sentimento (por exemplo, aceitação, amor, insegurança, sede de viver) em um pedaço de papel. Então, alguém sorteou um dos papéis e conversamos sobre o tema nele escrito (aceitação, no caso). Foi uma boa discussão, eu falei bastante e aprendi mais sobre um dos transtornos que eu julgo menos conhecidos: o borderline. A doença se caracteriza "por um padrão generalizado de instabilidade em relacionamentos, autoimagem, humor e comportamento, bem como hipersensibilidade à possibilidade de rejeição e abandono (...) A pessoa com transtorno de personalidade limítrofe não tolera ficar sozinha e pode recorrer a ações autodestrutivas para conseguir lidar com o fato de que está sozinha ou para evitar que isso ocorra. Ela realiza esforços frenéticos para evitar o abandono, incluindo criar crises. Por exemplo, a pessoa pode cometer uma tentativa de suicídio para conseguir comunicar sua angústia e fazer com que outras pessoas a resgatem e cuidem dela.(...)" (Manual MSD - Transtorno de Personalidade Borderline).

Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto o quanto tenho que aprender com meus colegas e com os profissionais do HD.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

15/10/2019 - Dia 4

Hoje de manhã, quando estávamos prestes a iniciar uma atividade com a psicóloga, fui chamada para a primeira consulta com o psiquiatra. Falei sobre todo o meu tratamento, desde o início, passando pelas interrupções e retomadas, e também sobre a saúde física, cirurgias e medicamentos; ele alterou um pouco minha medicação e horários. Gostei muito dele, achei-o bastante atencioso e cuidadoso com os remédios.

Ao terminar a consulta, voltei à atividade com a psicóloga, que se tratava de ler e comentar o seguinte texto, chamado "Vende-se um sítio"

Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade, de fato, um sítio que lhe dava muito trabalho e despesa. Reclamava que era um homem sem sorte, pois as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio, pois acreditava que, se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la.
E assim Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:
"Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda."
Meses depois, o poeta encontrou o seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.
"Nem pensei mais nisso", respondeu ele. "Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía."
Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.


As opiniões foram diversas. Desde "sim, temos que valorizar o que temos e não querer mais nada" até "sim, temos que valorizar o que temos, mas temos o direito de fazer outras escolhas". O texto é simples, mas o tema é complexo de certa forma. Eu vejo assim.

Na sala onde fizemos essa atividade havia um banquinho azul, pintado com motivos do mar: peixes, algas, bolhas, etc. Achei muito bonito e comentei em voz alta; um colega veterano então contou que ele havia ajudado a pintar, mas que a maior parte havia sido feita por uma antiga paciente, falecida. Fiquei me perguntando qual teria sido a causa da morte, mas não perguntei nada. À tarde, durante a TO, uma pessoa indagou sobre aquela paciente e um outro colega disse que ela havia morrido; com alguma resistência, contou que ela havia cometido suicídio por overdose de medicamentos. Inclusive, uma semana antes, o havia avisado de que estava esperando tais remédios chegarem em sua casa; o infelizmente, os conselhos do colega para ela foram em vão.

Essas histórias me entristecem muito, sugam minha energia. Espero que amanhã o dia traga mais alegria.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

14/10/2019 - Dia 3

Hoje não acordei muito bem, acho que é efeito da dosagem mais alta de um dos remédios. Ainda bem que só preciso tomá-lo por mais sete dias...

No hospital, pela manhã, foi um pouco pesado. Tivemos que contar em grupo como havia sido o fim de semana, e para algumas pessoas não foi nada agradável. Uma não conseguiu ir visitar a família porque o cônjuge não quis sair; outra, bem solitária, foi para a cama às oito da noite; outra brigou com os pais, que a chamaram de mentirosa por ter faltado ao hospital na sexta por motivo de gripe. Essa briga resultou em severa autopunição: a pessoa em questão fez vários cortes no pulso, pois se sentia culpada por ter brigado com os pais. Após compartilhar o fato conosco, uma outra pessoa, que nunca se coloca, falou; ela tinha muitas experiências de corte e automutilação, havia encontrado uma forma de contornar isso e recomendou-a à colega: ao sentir vontade de se cortar, faça isso no cabelo. De acordo com essa pessoa, ver mechas de cabelo caindo traziam a mesma sensação de êxtase que a de ver o sangue escorrendo. Isso tudo é muito triste...  Uma outra pessoa disse que tinha um determinado pensamento repetitivo que a dominava; solidarizei-me com ela e disse que eu sentia a mesma coisa. Essa mesma pessoa iniciou recentemente um novo tratamento, que é uma opção à eletroconvulsoterapia - ECT - o famoso "choque". Trata-se da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) - um tipo de capacete que emite impulsos eletromagnéticos por meia hora (15 minutos nas primeiras sessões, para adaptação); é menos agressivo que a ECT, mas causa dores de cabeça.

É doído ver, nesses grupos, quantas pessoas infelizes há por aí... Quantos adultos, alguns bem maduros, vivem com os pais, não conseguiram desenvolver uma vida independente. Quantos problemas, terapias, tratamentos, remédios... Quanto sofrimento...

Após o almoço, descansamos conversando debaixo da jabuticabeira (que está carregadinha, frutos um pouco verdes, mas até quarta acho que estarão no ponto); em seguida, TO. Foi dia de atelier, e escolhi pintar um pano de prato e, enquanto trabalhava, fiquei ouvindo as histórias dos outros pacientes. Em especial, uma me chamou a atenção: apesar de não ter dado nome à sua doença e de não parecer muito satisfeita em estar na clínica, estava claro que era TOC. A pessoa fazia faxina o dia todo, colocava inclusive os espelhos de molho, andava na rua de máscara e luva com medo de germes. Existe um termo, misofobia, usado para definir o medo de sujeira e contaminação. É muito difícil a vida de um portador de transtorno obsessivo-compulsivos mas, assim como no caso das demais doenças mentais, somente quem sofre na pele é que sabe dessa dificuldade.

Espero que o dia seja mais leve amanhã, apesar de eu ter a consciência de que não estou em uma colônia de férias.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

11/10/2019 - Dia 2


A parte da manhã foi muito interessante hoje. Às sextas é realizada a atividade "Fechamento da Semana", em que os pacientes escrevem o que ocorreu, como se sentiram, etc. durante os sete dias anteriores; em seguida, cada um lê o que escreveu e os outros fazem observações e comentários. O trabalho é normalmente acompanhado por uma psicóloga, mas como ela está afastada por alguns dias, foi conduzido pelo assistente social.

Foi um momento em que pudemos saber mais da doença, do tratamento, das medicações e da vida de cada um. É incrível como todos se tornam especialistas em medicamentos psicotrópicos e trocam experiências sobre seus efeitos. Por exemplo, um moço muito deprimido não está se adaptando à fluoxetina, tem sintomas horríveis como palpitação, falta de ar, entre outros e, além de tudo, a depressão piorou. Ele está persistindo, mas sem muita esperança. Nós o aconselhamos a conversar com a psiquiatra, colocar tudo o que havia dito no grupo, para que ela talvez alterasse o remédio.

Aliás, eu ainda não disse: toda semana passamos em consulta com o(a) psiquiatra. A cada paciente é atribuído um médico, então eu sempre vou passar com o mesmo, para haver uma sequência no acompanhamento. Esse profissional vai verificar se a medicação está funcionando e fazer os devidos ajustes; acho que agora meus remédios estão bem sincronizados, e espero não precisar mudar. Entretanto, se eu realmente não estiver apenas deprimida, mas sim com transtorno bipolar, dependendo da fase da doença (depressão ou mania) é que vou comprovar se os medicamentos estão realmente ajustados.

Hoje o almoço foi muito gostoso: arroz, feijão, bife à milanesa, purê, salsicha com molho, batata palha, salada, brigadeiro e pirulito. Acho que às sextas eles devem fazer essas concessões de guloseimas, porque ontem a sobremesa foi radicamente diferente: maçã.

A atividade da tarde não contribuiu muito. Fizemos um "happy hour" (entre aspas porque foi às duas da tarde) em uma padaria. Eu preferia ter ficado na clínica e feito TO (pintura, artesanato...)  tranquila, mas os pacientes mais antigos se sentem muito presos. Então, uma vez por mês, há essa saída para a padaria. Foi bom para conversar, mas nosso assunto sempre gira em torno de nossas doenças. Porém, é sempre importante saber mais sobre os problemas dos colegas pois há muita coisa em comum entre nós.