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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

19/12/2019 - Dia 38

Tive terapia logo cedinho e encontrei uma amiga querida, que se trata com a mesma psicóloga. Ah, o que seria de mim se não fosse minha família, meus amigos e minhas psicólogas...

Não quis ir caminhar hoje, pois estava um pouco mais arrumada para o almoço de Natal. Fiquei para o filme, que foi "Minha Mãe É Uma Peça":


É sempre bom rever esse filme. Demos boas risadas (alguns choraram em certas partes).

O almoço não foi exatamente o que esperávamos. Estava melhor do que no dia a dia, sim, mas acho que todos tinham outras expectativas. Porém, o que vale é a companhia, estarmos lá juntos, comendo, conversando, comemorando.

À tarde, tivemos bingo com as sobras de lembrancinhas de Natal e da festa junina (não, o boneco de neve não deu certo. Mas tudo bem, não fiquei chateada não. Eu tentei!). Eu bati várias vezes, o que é bem incomum! Depois, fui inesperadamente convidada para um churrasco na casa de um dos colegas. Eu estava de carro e um pouco apreensiva; iria dar carona para alguns colegas, e fico muito insegura quando tenho que dirigir levando pessoas com as quais não tenho muita intimidade. Tenho medo de errar o caminho, fazer barbeiragens, bater o carro... Fico muito tensa mesmo. E, hoje, meus passageiros seriam dois homens... Ai... Porém, respirei fundo e fiquei calma. Pensei: preciso quebrar essa barreira, transpor esse obstáculo que me atrapalha há anos... E consegui. Dirigi por locais que não conheço, tive que estacionar duas vezes (um no mercado e outra ao chegar ao prédio do meu colega) e ao retornar já era tarde, bem escuro, e levei um dos amigos novamente. Acho que meu bloqueio em dar carona são águas passadas.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

10/12/2019 - Dia 32

Na Oficina de Comunicação de hoje fizemos uma atividade diferente. A psicóloga nos apresentou cinco desenhos com situações distintas envolvendo o Papai Noel; tínhamos que escolher uma das imagens e escrever uma história utilizando seus elementos e os aplicando à nossa vida, e à forma como vemos o Natal. Foi interessante ver como cada pessoa encara as festas: alguns gostariam de fechar os olhos e acordar só em 3 de janeiro. Uns estão pesarosos pois não poderão se reunir com a família toda por doença ou algum problema pessoal; outros estão felizes justamente porque não têm quase ninguém com quem se reunir e assim ficarão mais sossegados. Uns estão mais animados neste ano do que nos anteriores; outros não se animaram nem para enfeitar a casa. É... pessoas diferentes, visões diferentes.

A tarde transcorreu sem novidades. Continuei a fazer uma lembrancinha de amigo secreto que já havia começado semana passada; ficou bonitinha, era uma estrela azul. Logo terminei e dei continuidade ao cachecol no tear. Espero conseguir terminá-lo logo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

05/12/2019 - Dia 31

Hoje resolvi ir caminhar no parque em vez de ficar vendo o filme, que é a outra opção de atividade das quintas. Depois da caminhada, lá no parque mesmo, fizemos duas atividades de socialização. Na primeira, uma pessoa ia conduzindo uma bola com os pés até o cone de marcação, e depois voltava, dava a mão para o companheiro de equipe e os dois iam conduzindo a bola; e assim continuava até que todos os componentes do grupo estivessem de mãos dadas em uma grande corrente. Vencia quem chegasse primeiro à linha de largada.

A segunda atividade era em trios, em que os componentes tinham que ser dar as mãos e formar um círculo, se locomovendo e tocando a bola um para o outro. Estava indo tudo bem, até que precisamos renovar os trios e um dos membros precisava sair. O moço que estava em nosso grupo se ofereceu para sair, mas o professor não deixou, disse que ele precisava ficar, pois seria o homem daquela equipe, assim como ele, o professor, seria o homem da outra. Sendo assim, eu saí do grupo; entretanto, achei a atitude do profissional machista. A equipe poderia perfeitamente ter sido formada só com mulheres, pois a atividade não requeria força ou brutalidade, mas apenas noções de lateralidade e coordenação motora.

Ao final, enquanto descansávamos um pouco, a psicóloga pediu para que falássemos um pouco da atividade, e nós fomos sinceras e dissemos ao professor que havíamos entendido a atitude dele como machista. Ele disse que não havia sido sua intenção mas aceitou a crítica.

À tarde continuamos a fazer nossas lembrancinhas de Natal durante a TO. Eu terminei uma (a vela) e comecei a fazer outra (uma estrela). Mas as terapeutas nós dispensaram mais cedo, porque ameaçava chover forte ( e realmente choveu).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

04/12/2019 - Dia 30


Nossa primeira atividade foi assistir a uma animação que falava sobre a diferença entre empatia e simpatia:


Depois, discutimos sobre o tema, e como sempre houve opiniões e visões bem diferentes, mas que sempre enriquecem a conversa.

Após, uma colega nos chamou para falarmos sobre os desdobramentos dos fatos de ontem. Uma paciente acha que talvez a intenção da colega que teve a crise não havia sido ruim, pelo contrário. Talvez ela, a seu modo, quisesse ajudar pessoas que, na visão dela, estivessem muito doentes, a ponto de se matarem. Eu também tenho esse pensamento, pode ser que o propósito tenha sido bom, ela merece o benefício da dúvida. A questão é que tudo foi feito à revelia dos envolvidos; talvez ela devesse ter conversado com eles antes.

Após o intervalo, na TO, voltamos a fazer lembrancinhas de Natal. Enquanto isso, a psicóloga fez algumas atividades com outro grupo. Eu preferia estar na terapia hoje, mas precisava terminar minha lembrança. Consegui concluir a tarefa: uma pequena vela de feltro verde, fechada com manta acrílica e costurada com linha vermelha aparente.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

19/11/2019 - Dia 21

  Hoje, minha primeira atividade foi a consulta ao psiquiatra. Gosto tanto desse médico! Relatei como havia sido meu período de ausência, e que eu tinha ficado um pouco triste após a cirurgia, mas depois havia conseguido me reerguer, ele, ao final da consulta, me deu um abraço e me disse que tinha ficado muito feliz com meu progresso.

   Depois, na Oficina de Comunicação, lemos o seguinte artigo da Folha de São Paulo:


   
Tortura Psicológica - Mirian Goldenberg
Tenho entrevistado homens e mulheres com mais de 60 anos.
Eles casaram, tiveram filhos e até netos. Montaram suas casas, compraram seus carros, superaram crises pessoais, familiares e profissionais. Mas será que se tornaram pessoas mais sábias e maduras com o passar do tempo?
Observo que muitos continuam sofrendo pelos mesmos motivos pelos quais sofriam na infância. Ainda hoje choram porque tiveram um pai violento, crítico ou ausente. Também sofrem porque não foram suficientemente reconhecidos, elogiados e amados pelos pais.
Uma professora de 63 anos contou: “Apanhei muito do meu pai e, até ele morrer, nunca recebi um só gesto de carinho, uma palavra de amor, um presente especial. Sofro muito ao ver a relação do meu marido com a filha do primeiro casamento dele. Ele é um pai muito amoroso, o pai que eu sempre quis ter e nunca tive”.
Ela se considera uma “mendiga emocional”. “Testemunho o amor incondicional que meu marido sente pela filha. Tudo é para ela: carinho, atenção, cuidado, tempo, dinheiro. Eu me sinto uma mendiga: só fico com as migalhas. É uma verdadeira tortura psicológica”.
É muito frequente casais se separarem quando o filho nasce porque o marido não consegue suportar a atenção que a esposa dedica ao recém-nascido. É o que aconteceu com um músico de 61 anos: “Eu me separei do grande amor da minha vida depois que o nosso filho nasceu. Eu me senti excluído da vida dela, abandonado, rejeitado. É impossível competir com este tipo de amor”.
Ao ouvir tantas histórias tristes, percebi que é importante aprender a cuidar com amor, atenção e carinho da criança que um dia fomos e que, de certa forma, continuaremos a ser até o fim de nossas vidas.
Quem sabe assim conseguimos minimizar o sofrimento e ainda economizar muitos anos de análise?

O texto mexeu muito com algumas pessoas, a ponto de algumas nem conseguirem falar. A carência é uma característica muito comum entre os pacientes, bem como a baixa autoestima. E não importa a idade. 
Porém, nem tudo é triste. Foi muito bacana ouvir um moço jovem dizer que todos os dias abraçava seus pais e seus irmãos e que sabia que isso era cafona (afirmação que refutamos imediatamente), mas que ele não conhecia o dia de amanhã, e queria deixar tudo resolvido, todos os dias, para nunca haver tristeza e arrependimento. Uma lição para os mais velhos, para todos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

01/11/2019 - Dia 17

Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.

Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.

À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

30/10/2019 - Dia 15

De manhã, assistimos a um videozinho bem curto, chamado "Reach - Liberdade Além da Janela":




É a história de um robozinho movido a bateria, que está conectado ao carregador, mas deseja sair pela janela, e ser livre como o pássaro que ele observa pelo lado de dentro do edifício onde se encontra. Trata-se de uma metáfora sobre a busca pela liberdade e os percalços que encontramos na vida para conquistá-la.

Foi interessante observar como cada pessoa interpreta o vídeo de um jeito diferente. Para mim, a falta de liberdade é a depressão; para outro, ficar preso é ser dependente de medicamentos; e um outro acredita que não ser livre é se sentir obrigado a estar conectado o tempo todo a dispositivos tecnológicos e redes sociais. Foi uma conversa bem produtiva, bem conduzida pela psicóloga.

Enquanto isso, outro grupo foi para a atividade de teatro, coordenada por um professor da área. Muitos pacientes preferem o teatro, acho que deve ser bem divertido; eu sempre opto pelas terapias em grupo, creio que surtam um efeito mais rápido, mais direto. Mas isso é uma escolha totalmente individual, pois vejo que pacientes que são quietos e um pouco isolados gostam do teatro, e com certeza isso faz bem a eles, e lhes dá a chance de se expressarem de um modo ao qual talvez não tivessem acesso se não estivessem no HD.

À tarde, para encerrarmos a campanha de conscientização "Outubro Rosa", tivemos uma tarde de beleza (só as mulheres. Os homens ficaram jogando dominó.). Levamos argila para tratar a pele do rosto, maquiagens, cremes e esmaltes. Foi engraçado, ficamos todas com cara de fantasma, mas foi muito bom! A argila branca de fato trata a pele, ativa a circulação, elimina parte da oleosidade e tira manchas (isso com o uso mais prolongado). Também conversamos bastante, contamos histórias e comemos pipoca.

Nossa psicóloga que recentemente voltou de licença (conforme contei em 28/10/2019), foi afastada novamente, por 14 dias; não sabemos o motivo, mas acreditamos que seja pelos fatos que ocorreram no "Dia 13". Fiquei chateada, pois ela é uma ótima profissional, super lúcida, fala com muita clareza e me parece realmente preocupada com os pacientes. Espero que ela volte forte e restabelecida.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

28/10/2019 - Dia 13

Pela manhã, tivemos terapia em grupo com uma psicóloga que havia estado em licença devido à morte de uma pessoa muito importante havia duas semanas; todos no HD sabiam sobre sua perda. Casualmente, ela foi trabalhar de preto hoje e um paciente, querendo fazer uma brincadeira, disse a ela "Ei, você está toda de preto! Está de luto por acaso??". Ah... às vezes as pessoas só vão pensar no que dizem após as palavras terem saído da boca... Tenho certeza de que não foi por mal, e também alguns colegas não tem certos filtros sociais... Mas a psicóloga deve ter sofrido com o que ouviu. Além disso, nossa terapia em grupo foi um pouco pesada; colegas falando sobre síndrome do pânico e seu medo de morrer e outros falando do mesmo transtorno, mas sobre seus planos (alguns postos em prática) de suicídio; alguns ouvem vozes de outras pessoas em suas mentes, outras escutam a própria voz, todas ordenando ou profetizando coisas ruins. Colegas falando sobre depressão, angústia, tristeza profunda, falta de esperança, ausência de alegria, vontade de morrer e ao mesmo tempo de lutar para sair desse estado... Acredito que todo esse conteúdo deva ter sobrecarregado nossa terapeuta, que precisou ir ao médico no intervalo e não retornou mais para o resto do dia.

Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.

O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.

Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.