quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

26/12/2019 - Dia 40

Hoje foi um dia estranho, hospital quase vazio... Peguei um filme começado, cujo nome nem fiquei sabendo. Depois cada um falou sobre como havia sido seu Natal. Vários tiveram um dia triste, com lágrimas e angústia; outros disseram que havia sido ok, ou melhor do que haviam esperado. Mesmo que achemos que estamos prontos para encarar a data, o Natal é um dia que traz muitas emoções e nos surpreendemos quando essas vem à tona, com força total.

Não tive apetite para almoçar muito bem. No intervalo fiquei conversando com um amigo, a maior parte do tempo sobre amenidades, e a hora passou bem rápido. As enfermeiras, após o intervalo, me entregaram a carta de alta.

As TOs se juntaram com o professor de música. A atividade era continuar cantando a letra após o volume da canção ser diminuído. Eu ia continuar meu cachecol, mas acabei ganhando uma sessão de terapia particular, ao ficar mais de uma hora na sala do atelier conversando com minha TO. Foi bom, desabafei muitas coisas, ela me ajudou bastante.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

20/12/2019 - Dia 39

No Fechamento, aquela colega que abandonou um emprego estável e passa necessidade com três filhos nos contou que o mais velho, usuário de maconha, tivera um surto havia pouco menos de uma semana e havia sido internado. Na última visita, porém, ele pediu desculpas para a mãe, disse que seguiria o tratamento, que queria trabalhar... Fiquei muito feliz com isso, e achamos que a colega estava com um semblante mais aliviado.

Conversamos um pouco sobre a maconha e a falsa impressão que os jovens têm de que essa droga é inofensiva. Eu não acho que seja, pois se ela faz você ter algum tipo de alucinação, não é algo natural. Além disso, para quem já tem doenças psicológicas, essas alucinações podem ser extremamente prejudiciais, e mexerem com problemas com os quais o usuário talvez não esteja em condições de lidar. O assistente social mencionou para nós uma pesquisa feita em hospitais públicos em Portugal, país no qual a maconha não é criminalizada. No estudo, foi verificado que as internações por surto psicótico ligado à Cannabis cresceu 30 vezes em 15 anos. Não há nada de inofensivo naquela plantinha simpática. O link para a pesquisa, publicada na Folha, é A Maconha em Portugal .

À tarde foi um pouco estranho... As TOs haviam programado uma atividade, "Qual é a Música", mas os pacientes não quiseram, pediram um filme. No entanto, a internet não funcionava e não conseguiam acessar a Netflix para buscar algum. Até o técnico chegar e corrigir o problema, faltava menos de uma hora para irmos embora, e então só assistimos a uma parte do primeiro episódio de uma série.

Como vou ter alta semana que vem e muitos colegas saem para o Natal e só voltam depois do Ano Novo, despedi-me de alguns. O mais difícil, para mim, foi dizer "até breve" para um de meus amigos, que é técnico em conserto de elevadores. Foi muito emocionante. Ele é uma pessoa maravilhosa, sensível, com um coração de ouro. Está internado há anos. Merece muito, muito mesmo, sair de lá e voltar à vida real. Torço muito por todas as pessoas, mas por ele em especial, pois eu percebo que ele ama a vida, tem planos e um potencial muito grande.

19/12/2019 - Dia 38

Tive terapia logo cedinho e encontrei uma amiga querida, que se trata com a mesma psicóloga. Ah, o que seria de mim se não fosse minha família, meus amigos e minhas psicólogas...

Não quis ir caminhar hoje, pois estava um pouco mais arrumada para o almoço de Natal. Fiquei para o filme, que foi "Minha Mãe É Uma Peça":


É sempre bom rever esse filme. Demos boas risadas (alguns choraram em certas partes).

O almoço não foi exatamente o que esperávamos. Estava melhor do que no dia a dia, sim, mas acho que todos tinham outras expectativas. Porém, o que vale é a companhia, estarmos lá juntos, comendo, conversando, comemorando.

À tarde, tivemos bingo com as sobras de lembrancinhas de Natal e da festa junina (não, o boneco de neve não deu certo. Mas tudo bem, não fiquei chateada não. Eu tentei!). Eu bati várias vezes, o que é bem incomum! Depois, fui inesperadamente convidada para um churrasco na casa de um dos colegas. Eu estava de carro e um pouco apreensiva; iria dar carona para alguns colegas, e fico muito insegura quando tenho que dirigir levando pessoas com as quais não tenho muita intimidade. Tenho medo de errar o caminho, fazer barbeiragens, bater o carro... Fico muito tensa mesmo. E, hoje, meus passageiros seriam dois homens... Ai... Porém, respirei fundo e fiquei calma. Pensei: preciso quebrar essa barreira, transpor esse obstáculo que me atrapalha há anos... E consegui. Dirigi por locais que não conheço, tive que estacionar duas vezes (um no mercado e outra ao chegar ao prédio do meu colega) e ao retornar já era tarde, bem escuro, e levei um dos amigos novamente. Acho que meu bloqueio em dar carona são águas passadas.

18/12/2019 - Dia 37

Hoje de manhã, me atrasei. O carro ficou sem gasolina, precisei desviar do caminho para passar no posto e depois peguei muito trânsito. Quando cheguei ao hospital, estava acontecendo um amigo secreto ladrão; os membros do grupo de teatro haviam combinado de trocar presentes (chocolates), mas aí o grupo da terapia se juntou a ele e as pessoas improvisaram presentes. Virou um amigo secreto de chocolates/amigo da onça/amigo ladrão. Como cheguei tarde, não participei. E a atividade foi acontecendo, até que alguém ganhou de presente um carregador portátil de celular; ele prontamente foi "roubado" por uma moça muito nova, que havia tentado o suicídio no dia anterior e passado a noite toda na UTI. Além disso, era aniversário dela. Entretanto, o professor de teatro, ao chegar sua vez, "roubou" o carregador dela. Eu achei muita falta de sensibilidade, mas não podia fazer nada, pois não estava participando. Porém, quando iam encerrar a brincadeira, vimos que havia sobrado um pacote na mesa; então, sugeriram que eu ficasse com ele, e entrasse no amigo ladrão. Quando abri o embrulho, era um botão; fui então até o professor e disse a ele que queria roubar-lhe o carregador portátil, mas ele disse "não, de jeito nenhum. Você tem chance zero de tirar isso de mim. Você não está participando, nem tem sequer um número." Insisti, mas não teve como. Foi um pouco humilhante, e foi a primeira vez nesses meses que passei por uma situação constrangedora no HD.

Um pouco depois, encontrei o professor no pátio, e ele me deu um sorrisinho. Fui falar com ele, e o diálogo foi assim:

- Olha só, você me fez passar a maior vergonha na frente de todo mundo. 

- Mas por quê??

-  Porque eu já tenho um carregador, melhor do que esse aí, mas queria roubá-lo para devolvê-lo à menina de que você o tirou. A moça está mal, toda cortada, e ainda por cima é aniversário dela hoje, e mesmo assim você teve coragem de roubar o presente dela??

- Mas você não estava participando! Não estava no jogo.

- Sim, eu estava. Eu fui colocada no jogo quando viram que havia sobrado um pacote. Por isso, eu passei a participar sim.

E, em seguida, saí. Achei a atitude desse profissional extremamente mesquinha e imatura, e eu não podia deixar de falar o que falei.

Durante a TO, tentei mais uma forma de fazer o boneco de barbante. Não deu certo. Tentei de papel machê, e só amanhã vou ver se vai dar certo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

17/12/2019 - Dia 36

De manhã, adiantamos a revista HD Mix; geralmente essa atividade é feita na última terça do mês, mas como o Natal e o Ano Novo cairão nesse dia da semana, a realizamos hoje. Escolhi o tema "Viagens", encontrei rapidamente algumas figuras e escrevi "Wanderlust" no rodapé de minha folha, abaixo das colagens. Essa é uma palavra alemã (que se escreve com a inicial maiúscula mesmo, como ocorre com todos os substantivos desse idioma) que não tem tradução direta para o português (como a nossa "saudade" também não tem. Ela tem que ser explicada em duas ou mais palavras.), e que significa "desejo de viajar".

Após o almoço, tive a consulta semanal com meu médico mesmo, que voltou de férias. Foi uma ótima consulta, pois ele me perguntou sobre tudo o que havia feito e sentido em sua ausência, e ficou feliz ao ver minha evolução. Por isso, combinamos minha alta; ele voltou a dizer que não é bom que eu continue por mais tempo no HD agora. Como eu volto a trabalhar na segunda metade de janeiro, precisaria ser liberada mesmo do hospital, e o doutor adiantou um pouco isso, para que eu possa tirar umas férias, ir para a praia, antes de retornar à rotina normal.

Na TO, achei que fosse finalizar o boneco de neve de barbante, mas... as bexigas onde colei os fios murcharam durante o fim de semana, e o barbante murchou também... Bom, comecei de novo. Vamos ver se vai dar tempo de ficar pronto até quinta-feira, dias do almoço de Natal. Aliás, estou pensando também em meu cachecol de tear... Não terminei ainda, porque interrompi o trabalho várias vezes. Vou pedir às terapeutas para tecê-lo em outros dias da semana, de forma que eu consiga concluí-lo!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

13/12/2019 - Dia 35

O Fechamento trouxe momentos de emoção, como sempre; um das pacientes estava se sentindo rejeitada pela própria psicóloga, pois esta não soube lidar com uma determinada situação que minha colega havia lhe apresentado. A rejeição é algo muito forte entre nós, e é fundamental trabalharmos isso.
Outra colega está em um momento de desespero. Ela não é casada, tem três filhos e mora com a mãe, que sustenta a todos; quatorze anos atrás, ela resolveu pedir demissão de um emprego em que ganhava bem, era concursada e tinha estabilidade. Naquele tempo, ela tinha um projeto pessoal em mente, e também desejava ficar mais tempo com os filhos; entretanto, hoje ela lamenta profundamente sua decisão, pois adoeceu, ficou muito tempo sem trabalhar e por isso não se julga qualificada e não consegue arrumar empregos, mesmo os mais simples e com menor salário. Ela teme a morte da mãe e com isso a cessão de sua fonte de sustento, e acredita que destruiu a vida dos filhos. Tentamos ajudá-la, dizendo que os filhos vão ter sua vida e encontrar seu caminho, que a vida deles não está destruída, e que ela precisa se perdoar pela decisão que tomou no passado. Com base nos elementos, pensamentos e ferramentas que ela possuía na época, era aquilo que ela achava que deveria fazer. Talvez, na hora, não tenha adiantado termos falado isso; mas, quem sabe plantamos uma semente? Por isso eu gosto muito da terapia em grupo: os colegas sempre têm algo a nos ensinar, um colo e uma palavra amorosa a oferecer.

De mim, falei hoje que esta semana foi especial, pois voltei a dirigir (fui de carro até a clínica) e a cozinhar. Fazia meses que não assumia essas tarefas (porque não dava para assumir mesmo... A depressão é muitas vezes incapacitante.), fiquei um pouco apreensiva de sair com o carro (eu não sabia o caminho, o Waze enlouqueceu, estava quase sem combustível e temia não achar vaga na rua), mas deu tudo certo e hoje saí de novo, com muito mais segurança.

À tarde, fomos divididos em equipe e brincamos de "Jogo do Milhão". O grupo tinha que responder a perguntas cujo nível de dificuldade ia aumentando à medida que as rodadas iam progredindo. Bom, eu adoro jogar, foi super divertido (e polêmico, pois não concordamos com algumas respostas) e nossa equipe ainda foi a vencedora.

12/12/2019 - Dia 34

Hoje assistimos a um documentário muito diferente sobre autoestima. Tratava-se da visão de um filósofo do século XVI sobre o assunto:




É muito interessante o filme, porque mesmo para os tempos de hoje, o assunto é moderno e um pouco polêmico; imagine em 1550 e alguma coisa! Acho que ninguém pensava nisso naquela época.

À tarde, iniciamos os trabalhos para a decoração de Natal. Alguns começaram uma lareira e uma chaminé de caixas de papelão, em tamanho quase natural; a mim coube fazer um boneco de neve utilizando bexigas, cola com farinha e barbante:


A colega que sugeriu (e queria muito) que ele fosse feito foi uma pessoa que sofreu demais na vida. Perdeu um filho em um acidente de avião (ele era o copiloto) e ficou sabendo da notícia pela TV; o fato fez com que adoecesse de forma drástica. Ela também foi a pessoa que eu tirei de Amigo Secreto. Quando ela viu que eu havia me empenhado em fazer o boneco, ela me agradeceu muito! Confesso que prefiro fazer outros tipos de trabalhos manuais, como tear, bordado e costura, mas foi muito, muito gratificante ver a gratidão nos olhos dela.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

11/12/2019 - Dia 33

De manhã, lemos fragmentos de textos sobre liberdade e autoconhecimento, escrevemos nossas impressões aplicando-as à nossa própria história de vida e conversamos. Creio que o aspecto mais forte da discussão foi a opinião de várias pessoas sobre autoconhecimento: elas disseram que não se conhecem tão bem assim, pois adoeceram de uma forma que jamais imaginavam, têm crises que não conseguem controlar e não possuem autonomia para tomarem suas próprias decisões. Perderam sua liberdade, não se reconhecem mais.

Uma moça recém chegada participou do grupo. Ela nos contou um pouco de sua história: esteve de hospital em hospital este ano inteiro, e passou sete meses em regime fechado. Está desiludida, disse que perdeu a autonomia sobre sua vida, que a família toma todas as decisões por ela; também está revoltada, pois tomou eletrochoques nesse período. Não acredita em nada, "largou mão" de si mesma; o problema é que ela tem apenas 25 anos.
Quando a gente se depara com uma história assim, tem muita vontade de conversar com a pessoa, mostrar que ainda há esperança, há caminhos. Que a internação, principalmente em um hospital dia, não é um instrumento de punição, mas sim de auxílio, de cuidado. No entanto, às vezes, pessoas muito jovens não acreditam em nada disso... Têm muita firmeza em suas opiniões e são resistentes a pensar de outra forma; por isso, não adianta dizer muita coisa... O que podemos fazer é ser solidários, acolher à medida em que sentimos necessidade e abertura do colega; é o que há de melhor a ser feito.

À tarde, fizemos nosso Amigo Secreto. Sorteamos os nomes na hora, e cada um presentearia seu amigo com a lembrancinha feita nas sessões de TO. Nossa, foi muito legal. Eu sempre me preocupo com Amigos Secretos, porque a pessoa que nos tira precisa nos descrever para que os outros adivinhem quem é, e fico com medo de usarem meu pior atributo físico como descrição de mim. No entanto, isso não aconteceu em absoluto! Todos usaram palavras carinhosas e de estímulo para descreverem seus Amigos. Por exemplo, um paciente disse sobre uma colega: "Minha Amiga Secreta é uma pessoa muito expansiva, está sempre conversando e ajudando os outros. Ela tem uma preocupação muito específica que está lhe prejudicando no momento, mas eu tenho certeza de que logo vai sair dessa, porque a vida tem muito a oferecer a ela." Foi tão lindo, a gente chorou até. E a maioria das descrições foi por essa linha; o clima foi de muita paz, acho que foi o melhor Amigo Secreto do qual já participei. Isso nos faz constatar o quanto o que se vai ganhar não é importante; ouvir as palavras de carinho que foram usadas para nos descrever foi o melhor presente.

10/12/2019 - Dia 32

Na Oficina de Comunicação de hoje fizemos uma atividade diferente. A psicóloga nos apresentou cinco desenhos com situações distintas envolvendo o Papai Noel; tínhamos que escolher uma das imagens e escrever uma história utilizando seus elementos e os aplicando à nossa vida, e à forma como vemos o Natal. Foi interessante ver como cada pessoa encara as festas: alguns gostariam de fechar os olhos e acordar só em 3 de janeiro. Uns estão pesarosos pois não poderão se reunir com a família toda por doença ou algum problema pessoal; outros estão felizes justamente porque não têm quase ninguém com quem se reunir e assim ficarão mais sossegados. Uns estão mais animados neste ano do que nos anteriores; outros não se animaram nem para enfeitar a casa. É... pessoas diferentes, visões diferentes.

A tarde transcorreu sem novidades. Continuei a fazer uma lembrancinha de amigo secreto que já havia começado semana passada; ficou bonitinha, era uma estrela azul. Logo terminei e dei continuidade ao cachecol no tear. Espero conseguir terminá-lo logo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

05/12/2019 - Dia 31

Hoje resolvi ir caminhar no parque em vez de ficar vendo o filme, que é a outra opção de atividade das quintas. Depois da caminhada, lá no parque mesmo, fizemos duas atividades de socialização. Na primeira, uma pessoa ia conduzindo uma bola com os pés até o cone de marcação, e depois voltava, dava a mão para o companheiro de equipe e os dois iam conduzindo a bola; e assim continuava até que todos os componentes do grupo estivessem de mãos dadas em uma grande corrente. Vencia quem chegasse primeiro à linha de largada.

A segunda atividade era em trios, em que os componentes tinham que ser dar as mãos e formar um círculo, se locomovendo e tocando a bola um para o outro. Estava indo tudo bem, até que precisamos renovar os trios e um dos membros precisava sair. O moço que estava em nosso grupo se ofereceu para sair, mas o professor não deixou, disse que ele precisava ficar, pois seria o homem daquela equipe, assim como ele, o professor, seria o homem da outra. Sendo assim, eu saí do grupo; entretanto, achei a atitude do profissional machista. A equipe poderia perfeitamente ter sido formada só com mulheres, pois a atividade não requeria força ou brutalidade, mas apenas noções de lateralidade e coordenação motora.

Ao final, enquanto descansávamos um pouco, a psicóloga pediu para que falássemos um pouco da atividade, e nós fomos sinceras e dissemos ao professor que havíamos entendido a atitude dele como machista. Ele disse que não havia sido sua intenção mas aceitou a crítica.

À tarde continuamos a fazer nossas lembrancinhas de Natal durante a TO. Eu terminei uma (a vela) e comecei a fazer outra (uma estrela). Mas as terapeutas nós dispensaram mais cedo, porque ameaçava chover forte ( e realmente choveu).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

04/12/2019 - Dia 30


Nossa primeira atividade foi assistir a uma animação que falava sobre a diferença entre empatia e simpatia:


Depois, discutimos sobre o tema, e como sempre houve opiniões e visões bem diferentes, mas que sempre enriquecem a conversa.

Após, uma colega nos chamou para falarmos sobre os desdobramentos dos fatos de ontem. Uma paciente acha que talvez a intenção da colega que teve a crise não havia sido ruim, pelo contrário. Talvez ela, a seu modo, quisesse ajudar pessoas que, na visão dela, estivessem muito doentes, a ponto de se matarem. Eu também tenho esse pensamento, pode ser que o propósito tenha sido bom, ela merece o benefício da dúvida. A questão é que tudo foi feito à revelia dos envolvidos; talvez ela devesse ter conversado com eles antes.

Após o intervalo, na TO, voltamos a fazer lembrancinhas de Natal. Enquanto isso, a psicóloga fez algumas atividades com outro grupo. Eu preferia estar na terapia hoje, mas precisava terminar minha lembrança. Consegui concluir a tarefa: uma pequena vela de feltro verde, fechada com manta acrílica e costurada com linha vermelha aparente.


03/12/2019 - Dia 29

Ontem foi meu primeiro dia de redução; foi bom também não precisar ir à clinica, ter o dia livre. O médico falou que eu preciso ir desmamando do HD, e a redução de um dia é o primeiro passo.

Tivemos uma atividade bem interessante na oficina de comunicação: escrever uma carta para nós mesmos daqui a um ano. Então, contamos a nós mesmos como estamos hoje e como esperamos estar na mesma data ano que vem. Lemos nossa carta um para os outros e depois a psicóloga sugeriu que a levássemos para casa e a guardássemos, para ser lida daqui a um ano. Eu quis levar e já marquei em minha agenda o dia em que tenho que ler.

Durante a atividade, aconteceu uma coisa muito chata. Estávamos concentrados quando de repente começou um barulho, de mesas e cadeiras sendo derrubadas; depois, começaram os gritos, que foram ficando cada vez mais altos e transtornados - "Ninguém vai falar mal de mim!! NINGUÉM VAI FALAR MAL DE MIM!!!!. Era uma colega em crise; foram necessárias três pessoas para segurá-la, tamanha sua força naquele momento, enquanto a enfermeira lhe aplicava um calmante. Depois, vim a saber o que havia acontecido.

Ontem, essa paciente, ao sair da consulta com o psiquiatra, foi falar com o pessoal e disse que havia tirado "prints" das telas de conversa de nosso grupo do WhatsApp e mostrado ao médico. Quem estava presente na segunda-feira contou que seu objetivo era mostrar a ele como determinadas pessoas estavam desequilibradas (de acordo com as coisas que postavam, as vezes falando em suicídio) e lhe sugerir que recomendasse a internação dessas no regime fechado (em outro hospital, pois o nosso só funciona durante o dia). Os colegas ficaram super abalados com isso, muitos precisaram de disse extra de medicamento, sentiram que havia sido uma traição da parte dela. Por isso criaram outro grupo no Whatsapp, sem incluí-la.

Porém, hoje, alguém contou a ela sobre o novo grupo e até lhe mostrou as conversas. Então, ela ficou imaginando que o grupo havia sido criado para que ali se falasse mal dela. Isso a fez ficar extremamente nervosa, de tal forma que entrou em crise. Não sabemos (ou pelo menos eu não sei), quem revelou a ela sobre o grupo novo.

Pois é. Hoje vi que o HD também é uma reprodução da sociedade lá fora; nem tudo é amizade e solidariedade, e precisamos ficar atentos, deixar a ingenuidade de lado.

domingo, 1 de dezembro de 2019

29/11/2019 - Dia 28

No "Fechamento" de hoje, tivemos, como sempre, momentos de emoção. Temos uma nova colega, que está bem mal; ela tem quatro filhos, entre ele um bebezinho, e não está conseguindo fazer as coisas em casa, assim como muitos outros pacientes. E as filhas mais velhas, já adolescentes, é quem estão fazendo as tarefas, cozinhando, arrumando, cuidando dos irmãos menores; nossa colega está se sentindo muito mal com isso, ela não quer essa vida para as filhas. Além de tudo, uma das meninas disse para ela algo como "Por quê você está aqui em casa, se não faz nada??" Nossa, eu imagino como isso deve ter doído... Ninguém fica doente porque quer... Tentamos consolar nossas colega, dizendo que os filhos são assim, não cuidam dos pais como os pais cuidam deles, e que adolescentes são cruéis no jeito de falar, mas que no fundo as filhas devem estar sofrendo muito com a doença dela. Mas é muito difícil... A doença não é só do paciente, atinge também sua família e isso deixa quem está doente pior ainda, por se ver um fardo para todos, se achar inútil.

O intervalo foi animado, colegas contando suas histórias de antes da internação, seus trabalhos, sua vida. E depois as internações em regime fechado e o progresso para o HD. Disseram que nossa clínica era diferente antes, ficava em outro local, mais espaçoso, onde era possível até jogar vôlei; havia também mais professores de educação física e psicólogos, e as pessoas que hoje ficam em um canto, sem tomar parte de nada, participavam de tudo naquela época. Era tudo mais bonito e organizado, e até a comida era melhor. É... Contenção de despesas, crise. Afetou a todos.

A atividade da tarde foi um jogo de adivinhar charadas, e depois brincamos de "Stop". Uma coisa legal foi ver as TOs ajudarem os que têm mais dificuldade a escrever durante o Stop; dessa forma, puderam realmente participar, não ficaram à margem. Muito bom.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

28/11/2019 - Dia 27

De manhã, assistimos ao documentário "Tarja Branca":


O filme fala sobre o brincar, sobre o quanto os adultos se esqueceram de sua criança interior e se levam a sério demais, sobre como é importante permanecer com o espírito da brincadeira até mesmo no trabalho. A tal "Tarja Branca" se refere ao brincar, e seria uma alusão à cor da faixa que define um medicamento e, sendo branca (não vermelha e muito menos preta), não apresenta contraindicações; pelo contrário, faz bem à saúde.

Percebi que muitas pessoas não gostaram do documentário. Creio que seja porque havia muitos depoimentos e reflexões entremeados por músicas regionais. Ao final, fizemos uma dinâmica em que tínhamos que definir, em uma palavra, nosso sentimento com relação ao filme e duas palavras que saíram foram "chato" e "incompreensível". Eu achei um pouco arrastado em algumas partes, mas me identifiquei demais em outras, principalmente quando disseram que você tem que fazer o que gosta em sua profissão; é necessário, pois assim você trabalha "brincando" e é mais feliz.

No intervalo, claro, conversamos sobre INSS, perícia e remédios. Aí fomos ler a bula de um medicamento que só um dos colegas usa, aparentemente, pois ninguém mais conhecia; um remédio contra a narcolepsia ou sonolência excessiva. Havia tantos, mas tantos possíveis efeitos colaterais que o pessoal começou a brincar dizendo que a medicação tirava o sono porque o paciente ficava com medo do que lia na bula e não conseguia dormir.

À tarde foi dia de celebração dos aniversariantes do mês, e teve videokê novamente. Aí, chamei meu colega escritor, que tem a voz grave, para cantar "Não Se Vá", da Jane e Herondy comigo, em um dueto. Ah, ele mergulhou fundo na música, foi muito divertido.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

27/11/2019 - Dia 26

De manhã, ouvimos a música "Paciência", de Lenine. Segue um vídeo legendado:


A letra fala sobre paciência, tempo, vida corrida. Engraçado como cada um interpretou de um jeito; uns dizendo que a idade e maturidade trazem mais paciência, outros que acreditam que ao envelhecer, perde-se completamente a paciência, pois se deixa de filtrar as palavras. Alguns falaram sobre paciência consigo próprios e seu longo processo de cura; outros sobre a paciência para ver o tempo passar tão lentamente.

Conversamos bastante no horário do almoço e no intervalo, sobre música, filmes, remédios e, é claro, perícias e INSS. Colegas assustados com a perícia que está por vir e medo de ter seu benefício negado; outros que já estão na justiça contra a instituição, tentando requerer seus direito por meio de ações judiciais. Alguns estão há anos sem receber nada.

À tarde, tivemos uma palestra da enfermeira sobre prevenção ao câncer de próstata, em consonância com a campanha "Novembro Azul". Foi boa, a profissional é muito consciente, assertiva e interessada pelos pacientes. Ela até pediu sugestões de temas para as próximas palestras e eu sugeri que falassem sobre transtornos mentais, para que pudéssemos entender melhor nossas doenças e a de nossos colegas, e assim podermos compreendê-los e ajudá-los dentro de nossas capacidades.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

26/11/2019 - Dia 25

Hoje tivemos a "Oficina de Comunicação" e confeccionamos a nova edição da HD Mix. Porém, tive que sair no meio da atividade porque era dia de consulta com o psiquiatra.

Foi uma boa consulta. Falei do problema digestivo e do meu fim de semana, disse que havia participado de um evento de meditação no sábado que tinha sido ótimo (ele dá muito apoio a terapias alternativas, diz que cada coisa tem seu papel e que precisamos de tudo para sermos completos), mas que eu não havia aproveitado 100% porque estava um pouquinho triste. Mesmo assim, ele viu que estou tendo progressos e estou mais estável e então ele me concedeu... Redução!! Agora, não precisarei mais ir à clínica às segundas-feiras (eu escolhi o dia)! Fiquei feliz, não porque não preciso mais ir nesse dia, mas pelo reconhecimento da melhora.

No intervalo do almoço, nos reunimos no pátio para conversar, várias pessoas. Uma colega começou a nos contar sobre o estopim para sua doença: como muitos de nós, havia sido o trabalho. Ela trabalhava em uma empresa onde era obrigada a fazer diversas tarefas que não tinham na a ver com a função para a qual fora contratada, algumas até de certo risco, como levar ou trazer grandes quantias de dinheiro do banco pela rua. Um dia, seu chefe foi comer um pão francês, mas todos haviam se acabado, e por isso ele se levantou contra ela (obviamente a responsável por comprar o pão também) que sofreu uma grande humilhação e injustiça de uma pessoa autoritária, que se impunha de forma ostensiva e tirava proveito de sua condição de pobreza.

Infelizmente, relatos como esse não são incomuns. Não importa o tipo de trabalho, o salário ou o local, pessoas são humilhadas, maltratadas, agredidas verbalmente. E, muitas vezes, isso acarreta enfermidades físicas e, o que é pior em minha opinião, doenças emocionais/psicológicas/psiquiátricas. Digo "pior", porque esses problemas não são diagnosticáveis via exames de laboratórios, em geral são muito mais difíceis de serem tratados e curados do que os físicos e seu portador ainda carrega um estigma que provavelmente irá prejudicar sua carreira e vida profissional para sempre.

25/11/2019 - Dia 24

Segunda-feira, dia de contar como foi o fim de semana. Cheguei atrasada, pois fui fazer alguns exames de sangue, e por isso não consegui falar; entretanto, ouvi muitas coisas, e muito tristes.
Uma nova colega, muito jovem, que engravidou cedo do namorado e apanhou a gravidez inteira; deixou o namorado após o nascimento da filha, mas as marcas do relacionamento nunca a deixaram. Ele telefona diariamente a ela, ameaçando tirar-lhe a menina - não por amor à filha, como ele mesmo deixa claro, mas apenas para atormentar a ex-namorada, que caiu em depressão e tem pânico. As doenças não são compreendidas pela mãe, que não foi quem criou nossa colega e por quem não desenvolveu o típico amor incondicional. O irmão também não entende seus problemas de saúde, os quais julga serem "frescura". Toda essa carga emocional fez nossa colega tentar o suicídio sete vezes.
O lado bom desse depoimento foi ela dizer, ao final, que estava se sentindo melhor e mais leve por ter compartilhado sua história conosco, e nós lhe dissemos que lá era um lugar em que todos se compreendiam e se ajudavam, todos estávamos no mesmo barco.

Uma outra colega, que semana passada havia ido a um retiro espiritual e estava super bem, voltou a ficar depressiva por conta de ter sido humilhada pela sogra. A falta de compreensão de doenças mentais pelos próprios familiares leva a situações como essa; no caso, a sogra a havia acusado de estar prejudicando o filho dela (marido de nossa colega) com a doença, que não era mulher de verdade, que não tinha nível. Nossa colega, que é uma baita mulher de fibra, ficou arrasada e, nós, muito chateados, pois todos nos envolvemos uns com os outros.

O intervalo do almoço foi muito divertido. Estávamos ao redor da mesa conversando, e alguém reclamou de nosso barulho; aí, fomos lá para cima, para a sala da terapia ocupacional. Uma das colegas subiu com duas grandes sacolas, com os produtos que vendia (ela não está recebendo o benefício do INSS e então se vira com as vendas): brinquedos eróticos, acessórios, cremes, lingeries, etc. Lá na clínica não é permitido o comércio, então pode-se imaginar como foi nossa tarde: além de estarmos apoiando o "comércio ilegal", os produtos eram de sex shop (rsrsrsrsrsrsrs) - imagine se entra uma enfermeira ou um médico na sala!! E nossa colega é uma ótima vendedora, conhece todos os artigos e fala deles com a maior segurança e desenvoltura. Na sala, havia umas oito mulheres e dois homens - que estavam se divertindo à beça e não queriam sair de lá por nada neste mundo, descobrindo os segredos do universo feminino. Depois de uma manhã de depoimentos tão sofridos, esse momento foi um oásis.

22/11/2019 - Dia 23

No "Fechamento da Semana" havia poucas pessoas hoje. Às sextas, em geral, o número de pacientes que vão à clínica diminui bastante, por causa da "Redução". Escrevo em letra maiúscula isso é objeto de desejo de vários colegas; funciona assim: se o psiquiatra percebe um progresso considerável, a ponto de acreditar que o paciente não precisa ir ao HD todos os dias, ele lhe concede a tal "Redução". O colega então escolhe o melhor dia para ficar em casa. Alguns tem duas reduções, e só vão à clínica três vezes por semana.

Já falei anteriormente que não tenho me sentido bem, e então hoje resolvi mencionar isso no "Fechamento", ao assistente social. Não sei se fiz o correto, mas como não sou só eu que tenho tido esses problemas digestivos, talvez o assistente possa ao menos verificar com a empresa de alimentação se está tudo de acordo.

À tarde, na TO, brincamos de "Piu-Piu". A proposta é bem divertida: uma pessoa sai da sala e os demais combinam qual objeto deverá ser adivinhado por quem saiu. Por exemplo: todos combinam que será "brinco"; então, a pessoa que saiu volta para a sala e deve fazer perguntas ao grupo, substituindo a palavra que definiria o objeto (que ela ainda não sabe qual é) por "Piu-Piu". Essa parte, a de perguntar, é engraçada, pois fica assim "Fulano tem Piu-Piu?" e o grupo responde sim ou não. Outra:  "O Piu-Piu do Fulano é vermelho?", e assim por diante. Obviamente, o duplo sentido que pode haver nas perguntas devido à senha "Piu-Piu" muitas vezes nos fazia cair na risada. O único problema é que, como havia pouca gente por ser sexta, o objeto era logo adivinhado e a graça acabava logo. Mas, mesmo assim, foi muito bom - como em todas as sextas. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

21/11/2019 - Dia 22


De manhã assistimos ao filme "Miracle Run - Uma Viagem Inesperada":


É sobre uma mãe solteira de gêmeos fraternos autistas, e sua luta para que tivessem uma vida a mais normal possível. Ela tem muita paciência e sobretudo muito amor, e exerce papel fundamental na rotina dos filhos. Ao término, discutimos o assunto; a conversa foi boa, eu me identifiquei por ter autistas na família.

Senti-me mal hoje. Creio que a comida do hospital não está me fazendo bem, pois desde que entrei no HD tenho problemas de digestão semana sim, semana não. A comida é bem preparada, mas tenho a impressão de que os ingredientes não são de primeira. Não sou a única; uma colega que entrou junto comigo também já ficou doente várias vezes. Acho que vou falar com a equipe de enfermagem, para que investiguem junto à empresa terceirizada que fornece a alimentação.

À tarde, na TO, fizemos lembrancinhas de feltro com motivos natalinos, para serem distribuídas durante a festa de Natal, na brincadeira de Amigo Secreto. Dá um pouquinho de trabalho, mas é gostoso e fica bem bonitinho, especialmente se o feltro é costurado com um tipo de ponto que fica à mostra, que a terapeuta me ensinou a fazer.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

19/11/2019 - Dia 21

  Hoje, minha primeira atividade foi a consulta ao psiquiatra. Gosto tanto desse médico! Relatei como havia sido meu período de ausência, e que eu tinha ficado um pouco triste após a cirurgia, mas depois havia conseguido me reerguer, ele, ao final da consulta, me deu um abraço e me disse que tinha ficado muito feliz com meu progresso.

   Depois, na Oficina de Comunicação, lemos o seguinte artigo da Folha de São Paulo:


   
Tortura Psicológica - Mirian Goldenberg
Tenho entrevistado homens e mulheres com mais de 60 anos.
Eles casaram, tiveram filhos e até netos. Montaram suas casas, compraram seus carros, superaram crises pessoais, familiares e profissionais. Mas será que se tornaram pessoas mais sábias e maduras com o passar do tempo?
Observo que muitos continuam sofrendo pelos mesmos motivos pelos quais sofriam na infância. Ainda hoje choram porque tiveram um pai violento, crítico ou ausente. Também sofrem porque não foram suficientemente reconhecidos, elogiados e amados pelos pais.
Uma professora de 63 anos contou: “Apanhei muito do meu pai e, até ele morrer, nunca recebi um só gesto de carinho, uma palavra de amor, um presente especial. Sofro muito ao ver a relação do meu marido com a filha do primeiro casamento dele. Ele é um pai muito amoroso, o pai que eu sempre quis ter e nunca tive”.
Ela se considera uma “mendiga emocional”. “Testemunho o amor incondicional que meu marido sente pela filha. Tudo é para ela: carinho, atenção, cuidado, tempo, dinheiro. Eu me sinto uma mendiga: só fico com as migalhas. É uma verdadeira tortura psicológica”.
É muito frequente casais se separarem quando o filho nasce porque o marido não consegue suportar a atenção que a esposa dedica ao recém-nascido. É o que aconteceu com um músico de 61 anos: “Eu me separei do grande amor da minha vida depois que o nosso filho nasceu. Eu me senti excluído da vida dela, abandonado, rejeitado. É impossível competir com este tipo de amor”.
Ao ouvir tantas histórias tristes, percebi que é importante aprender a cuidar com amor, atenção e carinho da criança que um dia fomos e que, de certa forma, continuaremos a ser até o fim de nossas vidas.
Quem sabe assim conseguimos minimizar o sofrimento e ainda economizar muitos anos de análise?

O texto mexeu muito com algumas pessoas, a ponto de algumas nem conseguirem falar. A carência é uma característica muito comum entre os pacientes, bem como a baixa autoestima. E não importa a idade. 
Porém, nem tudo é triste. Foi muito bacana ouvir um moço jovem dizer que todos os dias abraçava seus pais e seus irmãos e que sabia que isso era cafona (afirmação que refutamos imediatamente), mas que ele não conhecia o dia de amanhã, e queria deixar tudo resolvido, todos os dias, para nunca haver tristeza e arrependimento. Uma lição para os mais velhos, para todos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

18/11/2019 - Dia 20

Depois de quase duas semanas de ausência, voltei ao HD. Dia 5, fui ao oftalmo investigar uma mancha que estava prejudicando minha visão do olho direito, e ele descobriu que era descolamento de retina. Precisei operar com urgência e ficar em repouso, e por isso só retornei à clínica hoje.

Dia normal, histórias sempre comoventes. Uma colega foi convidada pela irmã para irem fazer compras no fim de semana, e ela foi. Entretanto, as ruas estavam muito cheias, ela começou a ter uma crise de pânico, muito medo das pessoas na rua, e pediu à irmã que fossem embora. O pedido foi atendido, mas de má vontade; a irmã não compreendeu que se tratava de um momento em que a razão deixa de existir, é a doença se manifestando, nada do que se diga pode abrandar o sofrimento. Nossa colega sofreu com essa falta de empatia, ficou muito triste, e nem as desculpas recebidas no final do dia a fizeram sentir-se melhor.

Uma outra colega nos contou uma coisa boa: havia participado de um retiro espiritual durante o fim de semana, e os dias de reflexão lhe trouxeram revelações importantes e emocionantes. Ela saiu de lá uma nova mulher e disse que se sente muito, muito bem. E todos nós também ficamos felizes por ela, primeiro pela amizade, e depois porque a vitória de cada um é a vitória de todos lá no HD; traz esperança, traz alento.

Havia três novos colegas, que entraram semana passada e hoje. É estranho, pois quando alguém novo chega, a gente observa a pessoa e fica se perguntando qual será o problema, a doença dela. A gente sempre acha que parece que o paciente em questão não tem nada. Claro, sempre nos enganamos; ninguém fica internado à toa. Mas também, cada dia mais, constatamos a imprecisão do ditado "as aparências enganam"... Não, elas não enganam! Elas simplesmente não dizem nada sobre ninguém. Absolutamente nada. E vamos aprendendo aos poucos a não julgar ninguém.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

05/11/2019 - Dia 19

Às terças de manhã acontece a "Oficina de Comunicação". É o momento em que lemos um texto, ouvimos uma música, assistimos a um vídeo curto ou confeccionamos matérias para a HD Mix, a revista do hospital e depois discutimos o tema. Hoje foi dia de ler um poema sobre mudança:


(Infelizmente, a poesia é creditada a Clarice Lispector, quando na verdade o autor é Edson Marques - que está na justiça para reaver direitos autorais.)

A conversa foi produtiva. A maioria falou sobre mudanças que devem, precisam ocorrer; eu escrevi um outro poema, falando que mudar é fácil quando não dói, quando não é obrigatório e nem toca em feridas profundas. É fácil quando a mudança é voluntária, uma nova experimentação; senão, dói demais.

Foi doloroso constatar o quanto a doença, especialmente nas mulheres, maioria no grupo de hoje, afeta a família. Maridos que começaram a beber, a se desequilibrar, a tomar medicamentos depois que suas esposas adoeceram. E essas esposas fazendo seus depoimentos em desespero, chorando, cheias de culpa... Culpa deveria ser uma palavra grafada sempre com letra maiúscula, tamanho o peso que ela impõe, tamanha a infelicidade que ela carrega consigo. E como é difícil se livrar dela... Quanto trabalho, quanto esforço. Você se despoja da culpa quando desenvolve autoestima, quando amadurece; recentemente, uma pessoa sábia me disse: substitua a palavra "culpa" por "responsabilidade". Por exemplo: você quebrou um vaso na casa de alguém; não diga "Aiiiii, foi tudo culpa minha!!!!". Diga "Olha, foi responsabilidade minha. Fique tranquila que foi substituí-lo." Para quem ouve, pode não haver diferença alguma; para quem fala, a conquista é imensa.




segunda-feira, 4 de novembro de 2019

04/11/2019 - Dia 18

Como em todas as segundas, iniciamos o dia com os relatos de nosso fim de semana. Algumas pessoas dizem que está tudo bem, que foi tranquilo; uma outra contou que se superou ao conseguir ligar para uma companhia telefônica e resolver um problema... Eu aprendo muito ao ver o quanto pequenas conquistas significam para alguns pacientes. Outro dia, dois deles relataram estarem muito felizes pois haviam conseguido ir à feira; um deles, com o filho, adulto, com o qual dividiu o clássico pastel com caldo de cana.

Eu não estava muito bem, chorei... Mas recebi a solidariedade e carinho de colegas que normalmente são fechados, que sofrem de problemas sérios, e que dividiram um pouco de sua história comigo para me ajudar a encontrar o meu caminho. Foi muito importante e significou muito para mim.

Durante meu relato, um paciente fez perguntas íntimas, inconvenientes. Nossa... vários colegas e o assistente social vieram em meu socorro, pedindo que o colega não falasse coisas que me constrangessem. Eu fiquei com pena dele até, mas ele realmente foi muito invasivo.

No intervalo, uma das colegas que me ajudou na terapia em grupo cuidou do meu cabelo, penteou, passou óleos hidratantes. Depois me deu um dos óleos! Essa pessoa é muito sofrida, isso não a impediu de desenvolver vários talentos em diversas áreas; ela é extremamente inteligente.

No atelier de hoje, teci só um pouquinho de meu cachecol, pois queria fazer um turbante que outras meninas estavam fazendo. São tiras de tecido que temos que costurar; eu adoro dar pontos, me relaxa. Acho que amanhã mesmo eu consigo terminar e usar.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

01/11/2019 - Dia 17

Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.

Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.

À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

31/10/2019 - Dia 16

Pela manhã, uma turma saiu para caminhar, e a nossa ficou assistindo "Pequena Miss Sunshine":


O filme é muito rico em termos psicológicos. Há o pai controlador, o avô desajustado, o tio suicida, o filho adolescente caladão... E também a mãe, que faz o contraponto e é a pessoa mais sensata da família, e a filha, criança adorável, amada por todos e com ótima autoestima. Daria uma discussão e tanto, mas infelizmente não tivemos muito tempo para conversar, pois o longa acabou perto do horário do almoço.

O intervalo hoje foi bem agitado; várias pessoas se arrumando para a festa de Halloween. Foi engraçado, pois alguém levou uma tinta especial vermelha que imitava sangue e que incrementou bastante a maquiagem. Até eu entrei na brincadeira: me vesti com uma capa cheia de desenhos de teia de aranha, uma peruca preta com franja e uma tiara com um chapeuzinho na ponta e tranças laranja nas laterais. Pedi a uma colega que me maquiasse e ela colocou o "sangue" em meu rosto, e também pintou meus olhos de preto; quando saí para o pátio, algumas pessoas não me reconheceram! Foi muito divertido.

A festa começou com o grupo de dança, que apresentou a coreografia do "Thriller". Depois teve videokê!! Aproveitei para cantar... Nossa, há quanto tempo não fazia isso... Adorei. E o mais legal foi ver pessoas que são muito quietas, que não participam de nada, se inscrevendo e cantando! E não é fácil se expor em um karaokê; fiquei super feliz de ver esses colegas tomando parte nessa atividade tão especial.

Mais tarde comemos - a mesa estava repleta de guloseimas, doces e salgadas. E, logo, já estava na hora da saída. Foi um dia muito bacana.




quarta-feira, 30 de outubro de 2019

30/10/2019 - Dia 15

De manhã, assistimos a um videozinho bem curto, chamado "Reach - Liberdade Além da Janela":




É a história de um robozinho movido a bateria, que está conectado ao carregador, mas deseja sair pela janela, e ser livre como o pássaro que ele observa pelo lado de dentro do edifício onde se encontra. Trata-se de uma metáfora sobre a busca pela liberdade e os percalços que encontramos na vida para conquistá-la.

Foi interessante observar como cada pessoa interpreta o vídeo de um jeito diferente. Para mim, a falta de liberdade é a depressão; para outro, ficar preso é ser dependente de medicamentos; e um outro acredita que não ser livre é se sentir obrigado a estar conectado o tempo todo a dispositivos tecnológicos e redes sociais. Foi uma conversa bem produtiva, bem conduzida pela psicóloga.

Enquanto isso, outro grupo foi para a atividade de teatro, coordenada por um professor da área. Muitos pacientes preferem o teatro, acho que deve ser bem divertido; eu sempre opto pelas terapias em grupo, creio que surtam um efeito mais rápido, mais direto. Mas isso é uma escolha totalmente individual, pois vejo que pacientes que são quietos e um pouco isolados gostam do teatro, e com certeza isso faz bem a eles, e lhes dá a chance de se expressarem de um modo ao qual talvez não tivessem acesso se não estivessem no HD.

À tarde, para encerrarmos a campanha de conscientização "Outubro Rosa", tivemos uma tarde de beleza (só as mulheres. Os homens ficaram jogando dominó.). Levamos argila para tratar a pele do rosto, maquiagens, cremes e esmaltes. Foi engraçado, ficamos todas com cara de fantasma, mas foi muito bom! A argila branca de fato trata a pele, ativa a circulação, elimina parte da oleosidade e tira manchas (isso com o uso mais prolongado). Também conversamos bastante, contamos histórias e comemos pipoca.

Nossa psicóloga que recentemente voltou de licença (conforme contei em 28/10/2019), foi afastada novamente, por 14 dias; não sabemos o motivo, mas acreditamos que seja pelos fatos que ocorreram no "Dia 13". Fiquei chateada, pois ela é uma ótima profissional, super lúcida, fala com muita clareza e me parece realmente preocupada com os pacientes. Espero que ela volte forte e restabelecida.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

29/10/2019 - Dia 14

Pela manhã, tivemos uma atividade diferente (para mim): a confecção da HD Mix, a revista do hospital. É assim: cada um escolhe o tema que quiser e folheia as revista em busca de imagens correspondentes; em seguida, recorta e cola as fotos em folhas de A3, de A4 ou de flip chart (aquele cavalete de madeira que tem um suporte para fixação de papel na parte superior, muito utilizado em cursos e apresentações), escreve e decora como desejar e depois fala sobre sua ideia. Foi interessante, percebem-se muitos dotes artísticos nessas oficinas.

Durante a atividade, fui chamada pela técnica em enfermagem para ir à minha consulta semanal. O psiquiatra ficou feliz em ver que estou melhor e me deu parabéns pela visível evolução. Disse que, mais para frente, vai verificar a possibilidade de me conceder uma redução (que é a retirada de um dia de tratamento na semana. Por exemplo: algumas pessoas têm redução às segundas-feiras, e então não precisam ir ao HD nesse dia). Só espero, muito, que o médico não resolva me deixar no hospital até janeiro, que é quando se encerra meu benefício no INSS; quero ter alta antes, para poder fazer outras coisas antes de voltar a trabalhar. Mas... o mais importante é eu estar bem, não importa quanto tempo isso vai levar. Não é bom ter pressa, em se tratando de saúde.

Hoje entrou uma nova colega na clínica; entretanto, alguns pacientes comentaram que ela havia dito que não ficaria internada lá de jeito nenhum, que tinha obrigações e precisava voltar a elas. E, de fato, após o almoço ela foi conversar com o psiquiatra, faltou de seu desejo e não teve como convencê-la do contrário; o médico lhe deu alta e ela nem iniciou um projeto de artesanato na terapia ocupacional. É engraçado como ficamos chateados com essas coisas... Sabemos que o HD poderia ajudá-la a melhorar, seja qual for seu transtorno e, ao virmos sua desistência, ficamos tristes por ela não ter dado uma chance a si mesma.

Na hora do almoço, colegas presenciaram uma discussão entre dois outros pacientes; o desentendimento foi devido ao lugar na fila para ser servido. Cada um clamava pela dianteira, até que um deles deu um basta e assumiu a posição que julgava ser sua, e foi o primeiro a almoçar. Nota-se que é comum no HD alguns internos brigarem por posse de coisas simples, como o controle da televisão, determinada poltrona, etc. Acredito que faça parte das características de certos transtornos (TOC, por exemplo), mas sendo doença ou não, essas histórias já geraram até suspensões de pacientes.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

28/10/2019 - Dia 13

Pela manhã, tivemos terapia em grupo com uma psicóloga que havia estado em licença devido à morte de uma pessoa muito importante havia duas semanas; todos no HD sabiam sobre sua perda. Casualmente, ela foi trabalhar de preto hoje e um paciente, querendo fazer uma brincadeira, disse a ela "Ei, você está toda de preto! Está de luto por acaso??". Ah... às vezes as pessoas só vão pensar no que dizem após as palavras terem saído da boca... Tenho certeza de que não foi por mal, e também alguns colegas não tem certos filtros sociais... Mas a psicóloga deve ter sofrido com o que ouviu. Além disso, nossa terapia em grupo foi um pouco pesada; colegas falando sobre síndrome do pânico e seu medo de morrer e outros falando do mesmo transtorno, mas sobre seus planos (alguns postos em prática) de suicídio; alguns ouvem vozes de outras pessoas em suas mentes, outras escutam a própria voz, todas ordenando ou profetizando coisas ruins. Colegas falando sobre depressão, angústia, tristeza profunda, falta de esperança, ausência de alegria, vontade de morrer e ao mesmo tempo de lutar para sair desse estado... Acredito que todo esse conteúdo deva ter sobrecarregado nossa terapeuta, que precisou ir ao médico no intervalo e não retornou mais para o resto do dia.

Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.

O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.

Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

25/10/2019 - Dia 12

Como de costume, às sextas, ocorre o "Fechamento". Todos contam como foi sua semana, mas também acabam desabafando muitas coisas, problemas invariavelmente vinculados, direta ou indiretamente, à doença. Emoções à flor da pele são muito frequentes nesses momentos, mas o bom é que ninguém julga quem chora; pelo contrário: alguém sempre se levanta para pegar alguns lenços de papel e entregar a quem está falando. A psicóloga nos disse hoje que é importantíssimo, durante a terapia em grupo, falar bastante e colocar tudo para fora; essa atitude não vai resolver o problema, mas vai amenizar a intensidade com a qual ele está sendo vivenciado, vai deixar a pessoa mais leve.

Em um dos depoimentos, o INSS foi citado novamente. Uma das colegas está com depressão, teve um membro da família assassinado e está com questões familiares, mas, mesmo assim, teve o benefício negado. Na verdade, o médico perito nem deu chance para que ela colocasse seus problemas; ele perguntou apenas "Sua medicação não está fazendo efeito??", permaneceu digitando algo no computador e a dispensou, com menos de um minuto de consulta. O jeito como alguns médicos tratam pessoas com problemas mentais é absurdo, deveriam ter o diploma cassado por perjúrio às palavras de Hipócrates. Hoje em dia, na formatura, os médicos não utilizam mais o texto original do pai da medicina, pois o texto foi atualizado para o vocabulário e realidade atual. Em Portugal, foi adotado o seguinte (destaquei algumas palavras que guardam relação com a situação da colega):

"Compromisso do Médico
Como membro da profissão médica:
– PROMETO SOLENEMENTE consagrar a minha vida ao serviço da humanidade;
– A SAÚDE E O BEM-ESTAR DO MEU DOENTE serão as minhas primeiras preocupações;
– RESPEITAREI a autonomia e a dignidade do meu doente;
– GUARDAREI o máximo respeito pela vida humana;
– NÃO PERMITIREI que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente;
– RESPEITAREI os segredos que me forem confiados, mesmo após a morte do doente;
– EXERCEREI a minha profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;
– FOMENTAREI a honra e as nobres tradições da profissão médica;
– GUARDAREI respeito e gratidão aos meus mestres, colegas e alunos pelo que lhes é devido;
– PARTILHAREI os meus conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de saúde;
– CUIDAREI da minha saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade;
– NÃO USAREI os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e sob palavra de honra"

Eu fico me perguntando se os peritos do INSS se lembram, mesmo que vagamente, do conteúdo daquilo que prometeram ao receberem seus diplomas. Mesmo que não se lembrem, respeito é algo que todo mundo deve mostrar por qualquer pessoa...

À tarde assistimos a um filme já antigo: "Querida, Encolhi as Crianças!!" de 1989. Às sextas é dia de atividade lúdica, mas eu, sinceramente, prefiro jogar como na semana passada. A interação é muito maior...

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

24/10/2019 - Dia 11


Hoje assistimos ao filme Vida de Menina:


(Aqui é só uma imagem, não é o filme)

É sobre uma mineira de ascendência inglesa, Helena Morley, filha de um minerador de diamantes na época em que as lavras (córregos em que as pedras eram procuradas) estavam escassas. A moça desafiava os costumes da sociedade à época, não era "bem comportada", "recatada", etc. Gostei muito do filme, mas infelizmente houve um atraso no início e não tivemos tempo para realizar a discussão.

No horário do almoço, fiquei na frente de uma colega que nos contou que havia sofrido um acidente de trabalho, cortado um dedo de forma muito profunda, e que sua empresa lhe negara socorro. Ela foi ao hospital com a enfermeira de uma outra empresa, sofrendo de dor. Perdeu muito sangue, precisou de pontos e antibiótico; como a faca havia atingido os nervos, ela perdeu a sensibilidade na ponta do indicador. Precisou ficar bastante tempo afastada, utilizando o INSS e então caiu em depressão; a partir daí, o INSS passou a negar-lhe o benefício, alegando que "depressão não era doença, era frescura". Ela entrou com uma ação contra a instituição e está aguardando o desenrolar. Infelizmente é muito comum o órgão conceder o benefício por um tempo, mas não renová-lo depois, em casos de depressão e outras doenças mentais. Só quem tem problemas assim, ou está próximo de quem os tenha, pode dizer o quanto é sofrido o transtorno em si, o estigma e o fato de que não existem exames de laboratório ou de imagem que possam comprová-lo. Se você quebra o pé, o raio-X vai se encarregar de provar a todos que sim, você tem uma enfermidade que lhe impede de trabalhar; entretanto, se tiver síndrome do pânico, somente o exame clínico (uma conversa com o psiquiatra) não vai ser suficiente para aplacar a desconfiança daqueles que sofrem de uma outra doença: o preconceito.

Depois do intervalo, finalizamos rapidamente a confecção da decoração de Halloween e já fomos em seguida pendurar nossos fantasminhas, morceguinhos, abóboras e correntes de papel crepom pelo pátio. Ficou muito bonito. O vento estava batendo e os morcegos começaram a balançar, parecia que estavam voando mesmo. O Dia das Bruxas pode ser uma celebração importada, mas festa é festa, e um ambiente decorado fica sempre mais alegre e até divertido.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

23/10/2019 - Dia 10

Hoje pela manhã conversamos sobre a música "Não vou me adaptar":

Não vou me adaptar
Nando Reis, Arnaldo Antunes
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que...

Como sempre, a discussão foi interessante, e o tema favoreceu muito. Somos pessoas tentando nos adaptar às nossas realidades, cada qual à sua, e são tantas histórias diferentes... A da pessoa que tinha uma grande alegria de viver quando era mais jovem, e que perdeu toda essa felicidade quando adquiriu sua doença, de modo que mal terminou o ensino médio e não conseguiu fazer faculdade. Ou a da pessoa que trabalhava em uma farmácia e tinha acesso a medicamentos controlados, que um dia ela resolveu ingerir, vários de uma vez. E também a da pessoa que sempre foi diferente e nunca foi aceita em seu meio, e que precisou se adaptar à situação, aceitando que sempre iria passar por esse tipo de situação por não estar dentro dos padrões sociais. A questão é que ela aceitou a situação, mas não a ela própria; ela não se aceita e sofre muito com isso.

O almoço hoje foi muito bom! Virado à Paulista, muito saboroso. Depois do intervalo, tivemos uma palestra com a enfermeira sobre prevenção ao câncer de mama, devido ao Outubro Rosa. Foi boa, ela falou sobre sintomas e sinais, exame e tratamentos. As únicas coisas não tão boas foram as interrupções, colocações fora de hora, de alguns pacientes. Isso é bastante comum no HD, até mesmo pelas enfermidades de alguns colegas, que talvez tenham perdido o filtro. O jeito é ter bastante paciência para lidar com a questão e assim garantir o bom convívio com todos.

Uma coisa triste foi presenciar a reação de uma paciente que iniciou na clínica hoje; estava reclamando com a enfermeira e eu escutei. Ela tem depressão e, quando teve contato com os outros pacientes durante a palestra, ficou um pouco chocada ao verificar que os transtornos eram diversos. Também a incomodou o fato de como os colegas se portaram quando as copeiras levaram a pipoca (quarta-feira é dia de pipoca), pois alguns se levantaram rápido e  "foram para cima" da bandeja onde estavam os saquinhos. Ela ficou assustada ao se ver inserida nessa realidade e ao perceber que não é um hospital exclusivamente voltado ao tratamento da depressão. Pedi licença para falar com ela e contar sobre mim; disse que quando visitei a clínica pela primeira vez, fiquei um pouco mal ao ver alguns pacientes dormindo pelos cantos. No entanto, ao começar o tratamento, percebi que o fato de haver pessoas tão diferentes só enriquece a convivência e ajuda em nossa cura. Falei que podíamos conversar sobre nossas doenças sem nos preocuparmos com preconceito, e que podíamos nos abrir sem medo, desabafando, tirando o que nos incomoda de dentro de nós. Finalizei colocando que os colegas e as terapias em grupo eram a melhor parte de estar no HD e sugeri a ela que não desistisse somente pela primeira impressão, que continuasse indo e desse a si própria uma chance. Não sei se ela se convenceu, mas espero que ao menos vá mais uma vez e possa realizar uma atividade que lhe dê a oportunidade de ver com seus próprios olhos aquilo que tentei expressar em minhas palavras. 


22/10/2019 - Dia 9

Pela manhã, discutimos o curta-metragem "Engano":


O filme fala sobre encontros e desencontros, e gerou uma conversa emocionante. A que mais me marcou foi a de uma moça que, todos os dias, ao ir para a escola, passava por um traficante. Ele se achava o tal, e ela não podia nem vê-lo na frente. Um dia, encontrou-o em uma balada e ele lhe ofereceu uma garrafa de vinho, que ela, obviamente, recusou. Um tempo depois, foi a outra balada, e ele estava com outra pessoa; ela então sentiu ciúmes dele. Passaram a namorar, mas ela impôs uma condição a ele: se quiser ficar comigo e constituir uma família, vai ter de largar o tráfico. Ele pediu a ela uma semana, para acertar tudo e, cinco dias depois, largou a vida de bandido, arrumou um emprego e nunca mais traficou. Mudou por ela, por amor a ela. Foi uma história linda de se ouvir e eu, para variar, chorei.

Após o almoço, tive minha consulta semanal. Foi muito boa, recebi os parabéns por estar participando de tudo, estar melhorando meu estado. Fiquei feliz. Ele manteve a medicação, mas suspendeu o desmame do Latuda; quando eu disse que o medicamento me deixava muito ansiosa e agitada ele falou para eu parar de toma-lo imediatamente. 

À tarde continuei meu cachecol no tear; ou melhor, comecei de novo. Estava cheio de defeitos que me incomodavam, e como ainda estava no começo, tinha apenas uns 7cm, resolvi desmanchar tudo e recomeçar. Meus colegas disseram que eu corajosa de fazer isso, mas que era como na vida, em que você às vezes precisar dar um passo para trás para poder continuar caminhando para a frente. Eu concordei: ultimamente minha vida tem sido dar muitos passos para trás para poder então melhorar e evoluir. Há muito sofrimento nisso, mas creio que sofrer é sinônimo de se fortalecer; só que o sofrimento demora a passar, e o fortalecimentos anda a passos de tartaruga. Mas tenho fé e creio que vou sair dessa; só não sei quando.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

21/10/2019 - Dia 8

Hoje de manhã, não fui à clínica; era dia de perícia no INSS. Representantes de advogados na entrada do prédio; filas, apesar do horário estar marcado - muita gente requerendo o benefício; seguranças que não levam desaforo para casa; cidadãos inconformados lutando por seus direitos; muletas, cadeiras de rodas, bengalas.

Estava receosa em ser atendida por algum médico seco e desconfiado, ainda mais que não existe exame de imagem, sangue, etc. que comprove a doença. O diagnóstico é apenas clínico, e o perito, com o relatório em mãos, tem que acreditar no colega que o emitiu e na pessoa que está enferma. Graças a Deus, fui atendida por uma médica muito gentil, que se solidarizou com meu problema e me concedeu o benefício.

Cheguei ao HD a tempo de almoçar. Notei que algumas pessoas faltaram... Engraçado como a gente se apega e sente falta das pessoas.

Segunda é dia de atelier na TO. Optei pelo tear, que eu nunca tinha usado; quem me ensinou a manejar a tábua retangular vazada no meio e cravejada com duas fileiras paralelas de pregos foi meu amigo escritor! Pacientemente, foi me mostrando como passar a lã pelos pregos, para depois retirar o ponto com uma agulha própria ou de crochê. É bem gostoso e calmante tecer; estou fazendo um cachecol verde mescla, mas acho que amanhã vou desmanchar tudo e começar de novo... É que, como boa marinheira de primeira viagem, pulei alguns pontos, deu nó na linha e estão bem claros os defeitos... Mas tudo bem, porque o objetivo da atividade é terapêutico, não artístico!


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

18/10/2019 - Dia 7

Sexta-feira, dia de "Fechamento". É sempre bom ouvir o que os colegas fizeram e sentiram durante a semana; às vezes é triste também: uma pessoa que anda atormentada com acontecimentos do passado; outra que se se sente um fardo para os pais em casa; outra que sofre abuso emocional da mãe. Mas vários pacientes estão se sentindo melhor, pelo tempo que já passaram na clínica, pela troca de medicamentos, pela terapia...

Após o grupo, tive um momento singular, muito bacana. Um dos colegas é escritor infanto-juvenil e quando ele nos disse o título do livro, comprei-o pela internet. Chegou esses dias, e hoje levei-o para o autor autografar; ele ficou feliz, disse que meu gesto tinha sido muito delicado e fez uma bonita dedicatória para mim. Nossa, eu, que amo tanto ler, me senti privilegiada por conviver com um escritor e poder conversar sobre a obra dele! Muito bom.

Alguns dias atrás, mencionei sobre uma paciente portadora de TOC, que fazia faxina o dia todo, colocava os espelhos de molho e tinha muito medo de germes. Pois bem, hoje soube mais sobre essa pessoa: o motivo que a havia levado aos extremos do transtorno foi uma infecção generalizada que ela adquirira por contato com fungos, e que a levou a muitos dias de internação com risco de vida. Essa mesma pessoa tem uma filha diagnosticada com borderline, que tentou se matar e ficou internada por bastante tempo, em regime fechado.

A parte da tarde foi muito legal: às sextas, para fechar a semana com mais leveza, as TOs levam jogos, para serem jogados em grupo. Hoje foi o "Perfil", que adoro, e em que precisamos adivinhar o nome de uma pessoa, coisa, lugar ou um determinado ano, com base em dicas lidas para cada grupo. Quanto menos dicas se usa para acertar, mais casas se avança no tabuleiro. Foi super divertido; meu grupo ganhou a primeira rodada, perdeu a segunda e não houve tempo de terminar a terceira. Mas não importa; o que vale é que foi um momento feliz para mim e, pelo que pude sentir, para a maioria dos meus colegas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

17/10/2019 - Dia 6

Hoje de manhã havia duas opções de atividade: caminhada ou filme (com posterior discussão). Fiquei para o filme que, curiosamente, era "Angry Birds". Eu digo "curiosamente" porque não imaginava que um desenho animado baseado em um joguinho de celular pudesse ter conteúdo para gerar uma conversa entre os pacientes. Mas teve! O filme apresentou diversos elementos com os quais vários de nós se identificaram: a jornada do herói, a superação, a persistência, o preconceito, a luta. Foi bem rica a discussão.

Após o almoço, no intervalo, conversamos bastante e jogamos pingue-pongue. Foi divertido e cansativo (correr atrás da bolinha, abaixar...). Depois, como é quinta, continuamos a fazer a decoração para o Halloween; havia também a alternativa da musicoterapia, mas o artesanato me deixa mais focada, me relaxa mais. Só havia mulher no atelier hoje, então pudemos conversar à vontade sobre assuntos femininos, especialmente sobre corpo, peso e autoestima.

Estou gostando muito de trocar experiências com os colegas do HD. Todas as discussões são enriquecedoras, ensinam muito e nos fazem ver que estamos todos no mesmo barco, não importa qual seja o diagnóstico de cada um.

Uma das coisas tristes de hoje foi ter visto os cortes que uma paciente fez intencionamente no corpo. Não somente nos pulsos, mas também nos braços e, segundo eu soube, na barriga também. Sinto vontade de fazer algo por ela, mas percebo ser impotente ante o desespero e a falta de perspectiva da pessoa. No máximo, podemos conversar, acolher... Mas creio que isso já seja alguma coisa.

Noto que vários colegas continuam não participando de nenhuma atividade. Ficam sentados no pátio, fumando ou no refeitório, lendo... Pergunto-me se terão condições de sair do hospital algum dia, pois na verdade não estão tomando parte no tratamento - estão lá, apenas, comparecendo diariamente à clínica, mas sem se envolver em nada. Sinto pesar por eles, quero que todo mundo possa ter uma vida normal um dia. Por melhor que seja o HD, não podemos deixar de lutar pela meta de ter alta.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

16/10/2019 - Dia 5

Hoje tivemos uma "overdose" de terapia em grupo. Mas foi bom, é ótimo trocar experiências e ver o quanto não estamos sozinhos nessa jornada de sofrimento e cura.

Pela manhã, assistimos o vídeo abaixo, bem bonitinho por sinal, sobre ansiedade:


Depois, discutimos sobre o tema. Fiquei feliz ao ver que um dos colegas, que nunca participa das atividades, entrou na sala e compartilhou sua visão sobre ansiedade. A parte triste é que, para que seu depoimento fizesse sentido, ele nos contou que fora viciado em drogas por 20 anos, da adolescência à quase meia idade e que a adicção o fizera perder tudo o que tinha: casa, carro, dinheiro e, obviamente, saúde.

Observei que há muitos fumantes no hospital dia (na verdade, ninguém se refere à clínica por esse nome. Todos dizem "HD".), alguns muito novos e que fumam o dia inteiro. Hoje mesmo, testemunhei um desses colegas acendendo um cigarro no outro; foram três ou quatro em sequência, em um intervalo de menos de meia hora. Talvez a própria doença leve ao vício, para suprir algo ou aplacar a ansiedade.

À tarde, alguns de nós iriam para a TO, confeccionar suportes para panos de prato, mas a psicóloga nos chamou para um grupo de conversa. A dinâmica foi assim: cada um escreveu uma palavra/frase curta relacionada a algum sentimento (por exemplo, aceitação, amor, insegurança, sede de viver) em um pedaço de papel. Então, alguém sorteou um dos papéis e conversamos sobre o tema nele escrito (aceitação, no caso). Foi uma boa discussão, eu falei bastante e aprendi mais sobre um dos transtornos que eu julgo menos conhecidos: o borderline. A doença se caracteriza "por um padrão generalizado de instabilidade em relacionamentos, autoimagem, humor e comportamento, bem como hipersensibilidade à possibilidade de rejeição e abandono (...) A pessoa com transtorno de personalidade limítrofe não tolera ficar sozinha e pode recorrer a ações autodestrutivas para conseguir lidar com o fato de que está sozinha ou para evitar que isso ocorra. Ela realiza esforços frenéticos para evitar o abandono, incluindo criar crises. Por exemplo, a pessoa pode cometer uma tentativa de suicídio para conseguir comunicar sua angústia e fazer com que outras pessoas a resgatem e cuidem dela.(...)" (Manual MSD - Transtorno de Personalidade Borderline).

Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto o quanto tenho que aprender com meus colegas e com os profissionais do HD.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

15/10/2019 - Dia 4

Hoje de manhã, quando estávamos prestes a iniciar uma atividade com a psicóloga, fui chamada para a primeira consulta com o psiquiatra. Falei sobre todo o meu tratamento, desde o início, passando pelas interrupções e retomadas, e também sobre a saúde física, cirurgias e medicamentos; ele alterou um pouco minha medicação e horários. Gostei muito dele, achei-o bastante atencioso e cuidadoso com os remédios.

Ao terminar a consulta, voltei à atividade com a psicóloga, que se tratava de ler e comentar o seguinte texto, chamado "Vende-se um sítio"

Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade, de fato, um sítio que lhe dava muito trabalho e despesa. Reclamava que era um homem sem sorte, pois as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio, pois acreditava que, se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la.
E assim Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:
"Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda."
Meses depois, o poeta encontrou o seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.
"Nem pensei mais nisso", respondeu ele. "Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía."
Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.


As opiniões foram diversas. Desde "sim, temos que valorizar o que temos e não querer mais nada" até "sim, temos que valorizar o que temos, mas temos o direito de fazer outras escolhas". O texto é simples, mas o tema é complexo de certa forma. Eu vejo assim.

Na sala onde fizemos essa atividade havia um banquinho azul, pintado com motivos do mar: peixes, algas, bolhas, etc. Achei muito bonito e comentei em voz alta; um colega veterano então contou que ele havia ajudado a pintar, mas que a maior parte havia sido feita por uma antiga paciente, falecida. Fiquei me perguntando qual teria sido a causa da morte, mas não perguntei nada. À tarde, durante a TO, uma pessoa indagou sobre aquela paciente e um outro colega disse que ela havia morrido; com alguma resistência, contou que ela havia cometido suicídio por overdose de medicamentos. Inclusive, uma semana antes, o havia avisado de que estava esperando tais remédios chegarem em sua casa; o infelizmente, os conselhos do colega para ela foram em vão.

Essas histórias me entristecem muito, sugam minha energia. Espero que amanhã o dia traga mais alegria.