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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

01/11/2019 - Dia 17

Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.

Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.

À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

30/10/2019 - Dia 15

De manhã, assistimos a um videozinho bem curto, chamado "Reach - Liberdade Além da Janela":




É a história de um robozinho movido a bateria, que está conectado ao carregador, mas deseja sair pela janela, e ser livre como o pássaro que ele observa pelo lado de dentro do edifício onde se encontra. Trata-se de uma metáfora sobre a busca pela liberdade e os percalços que encontramos na vida para conquistá-la.

Foi interessante observar como cada pessoa interpreta o vídeo de um jeito diferente. Para mim, a falta de liberdade é a depressão; para outro, ficar preso é ser dependente de medicamentos; e um outro acredita que não ser livre é se sentir obrigado a estar conectado o tempo todo a dispositivos tecnológicos e redes sociais. Foi uma conversa bem produtiva, bem conduzida pela psicóloga.

Enquanto isso, outro grupo foi para a atividade de teatro, coordenada por um professor da área. Muitos pacientes preferem o teatro, acho que deve ser bem divertido; eu sempre opto pelas terapias em grupo, creio que surtam um efeito mais rápido, mais direto. Mas isso é uma escolha totalmente individual, pois vejo que pacientes que são quietos e um pouco isolados gostam do teatro, e com certeza isso faz bem a eles, e lhes dá a chance de se expressarem de um modo ao qual talvez não tivessem acesso se não estivessem no HD.

À tarde, para encerrarmos a campanha de conscientização "Outubro Rosa", tivemos uma tarde de beleza (só as mulheres. Os homens ficaram jogando dominó.). Levamos argila para tratar a pele do rosto, maquiagens, cremes e esmaltes. Foi engraçado, ficamos todas com cara de fantasma, mas foi muito bom! A argila branca de fato trata a pele, ativa a circulação, elimina parte da oleosidade e tira manchas (isso com o uso mais prolongado). Também conversamos bastante, contamos histórias e comemos pipoca.

Nossa psicóloga que recentemente voltou de licença (conforme contei em 28/10/2019), foi afastada novamente, por 14 dias; não sabemos o motivo, mas acreditamos que seja pelos fatos que ocorreram no "Dia 13". Fiquei chateada, pois ela é uma ótima profissional, super lúcida, fala com muita clareza e me parece realmente preocupada com os pacientes. Espero que ela volte forte e restabelecida.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

25/10/2019 - Dia 12

Como de costume, às sextas, ocorre o "Fechamento". Todos contam como foi sua semana, mas também acabam desabafando muitas coisas, problemas invariavelmente vinculados, direta ou indiretamente, à doença. Emoções à flor da pele são muito frequentes nesses momentos, mas o bom é que ninguém julga quem chora; pelo contrário: alguém sempre se levanta para pegar alguns lenços de papel e entregar a quem está falando. A psicóloga nos disse hoje que é importantíssimo, durante a terapia em grupo, falar bastante e colocar tudo para fora; essa atitude não vai resolver o problema, mas vai amenizar a intensidade com a qual ele está sendo vivenciado, vai deixar a pessoa mais leve.

Em um dos depoimentos, o INSS foi citado novamente. Uma das colegas está com depressão, teve um membro da família assassinado e está com questões familiares, mas, mesmo assim, teve o benefício negado. Na verdade, o médico perito nem deu chance para que ela colocasse seus problemas; ele perguntou apenas "Sua medicação não está fazendo efeito??", permaneceu digitando algo no computador e a dispensou, com menos de um minuto de consulta. O jeito como alguns médicos tratam pessoas com problemas mentais é absurdo, deveriam ter o diploma cassado por perjúrio às palavras de Hipócrates. Hoje em dia, na formatura, os médicos não utilizam mais o texto original do pai da medicina, pois o texto foi atualizado para o vocabulário e realidade atual. Em Portugal, foi adotado o seguinte (destaquei algumas palavras que guardam relação com a situação da colega):

"Compromisso do Médico
Como membro da profissão médica:
– PROMETO SOLENEMENTE consagrar a minha vida ao serviço da humanidade;
– A SAÚDE E O BEM-ESTAR DO MEU DOENTE serão as minhas primeiras preocupações;
– RESPEITAREI a autonomia e a dignidade do meu doente;
– GUARDAREI o máximo respeito pela vida humana;
– NÃO PERMITIREI que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente;
– RESPEITAREI os segredos que me forem confiados, mesmo após a morte do doente;
– EXERCEREI a minha profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;
– FOMENTAREI a honra e as nobres tradições da profissão médica;
– GUARDAREI respeito e gratidão aos meus mestres, colegas e alunos pelo que lhes é devido;
– PARTILHAREI os meus conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de saúde;
– CUIDAREI da minha saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade;
– NÃO USAREI os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e sob palavra de honra"

Eu fico me perguntando se os peritos do INSS se lembram, mesmo que vagamente, do conteúdo daquilo que prometeram ao receberem seus diplomas. Mesmo que não se lembrem, respeito é algo que todo mundo deve mostrar por qualquer pessoa...

À tarde assistimos a um filme já antigo: "Querida, Encolhi as Crianças!!" de 1989. Às sextas é dia de atividade lúdica, mas eu, sinceramente, prefiro jogar como na semana passada. A interação é muito maior...

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

23/10/2019 - Dia 10

Hoje pela manhã conversamos sobre a música "Não vou me adaptar":

Não vou me adaptar
Nando Reis, Arnaldo Antunes
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que...

Como sempre, a discussão foi interessante, e o tema favoreceu muito. Somos pessoas tentando nos adaptar às nossas realidades, cada qual à sua, e são tantas histórias diferentes... A da pessoa que tinha uma grande alegria de viver quando era mais jovem, e que perdeu toda essa felicidade quando adquiriu sua doença, de modo que mal terminou o ensino médio e não conseguiu fazer faculdade. Ou a da pessoa que trabalhava em uma farmácia e tinha acesso a medicamentos controlados, que um dia ela resolveu ingerir, vários de uma vez. E também a da pessoa que sempre foi diferente e nunca foi aceita em seu meio, e que precisou se adaptar à situação, aceitando que sempre iria passar por esse tipo de situação por não estar dentro dos padrões sociais. A questão é que ela aceitou a situação, mas não a ela própria; ela não se aceita e sofre muito com isso.

O almoço hoje foi muito bom! Virado à Paulista, muito saboroso. Depois do intervalo, tivemos uma palestra com a enfermeira sobre prevenção ao câncer de mama, devido ao Outubro Rosa. Foi boa, ela falou sobre sintomas e sinais, exame e tratamentos. As únicas coisas não tão boas foram as interrupções, colocações fora de hora, de alguns pacientes. Isso é bastante comum no HD, até mesmo pelas enfermidades de alguns colegas, que talvez tenham perdido o filtro. O jeito é ter bastante paciência para lidar com a questão e assim garantir o bom convívio com todos.

Uma coisa triste foi presenciar a reação de uma paciente que iniciou na clínica hoje; estava reclamando com a enfermeira e eu escutei. Ela tem depressão e, quando teve contato com os outros pacientes durante a palestra, ficou um pouco chocada ao verificar que os transtornos eram diversos. Também a incomodou o fato de como os colegas se portaram quando as copeiras levaram a pipoca (quarta-feira é dia de pipoca), pois alguns se levantaram rápido e  "foram para cima" da bandeja onde estavam os saquinhos. Ela ficou assustada ao se ver inserida nessa realidade e ao perceber que não é um hospital exclusivamente voltado ao tratamento da depressão. Pedi licença para falar com ela e contar sobre mim; disse que quando visitei a clínica pela primeira vez, fiquei um pouco mal ao ver alguns pacientes dormindo pelos cantos. No entanto, ao começar o tratamento, percebi que o fato de haver pessoas tão diferentes só enriquece a convivência e ajuda em nossa cura. Falei que podíamos conversar sobre nossas doenças sem nos preocuparmos com preconceito, e que podíamos nos abrir sem medo, desabafando, tirando o que nos incomoda de dentro de nós. Finalizei colocando que os colegas e as terapias em grupo eram a melhor parte de estar no HD e sugeri a ela que não desistisse somente pela primeira impressão, que continuasse indo e desse a si própria uma chance. Não sei se ela se convenceu, mas espero que ao menos vá mais uma vez e possa realizar uma atividade que lhe dê a oportunidade de ver com seus próprios olhos aquilo que tentei expressar em minhas palavras. 


22/10/2019 - Dia 9

Pela manhã, discutimos o curta-metragem "Engano":


O filme fala sobre encontros e desencontros, e gerou uma conversa emocionante. A que mais me marcou foi a de uma moça que, todos os dias, ao ir para a escola, passava por um traficante. Ele se achava o tal, e ela não podia nem vê-lo na frente. Um dia, encontrou-o em uma balada e ele lhe ofereceu uma garrafa de vinho, que ela, obviamente, recusou. Um tempo depois, foi a outra balada, e ele estava com outra pessoa; ela então sentiu ciúmes dele. Passaram a namorar, mas ela impôs uma condição a ele: se quiser ficar comigo e constituir uma família, vai ter de largar o tráfico. Ele pediu a ela uma semana, para acertar tudo e, cinco dias depois, largou a vida de bandido, arrumou um emprego e nunca mais traficou. Mudou por ela, por amor a ela. Foi uma história linda de se ouvir e eu, para variar, chorei.

Após o almoço, tive minha consulta semanal. Foi muito boa, recebi os parabéns por estar participando de tudo, estar melhorando meu estado. Fiquei feliz. Ele manteve a medicação, mas suspendeu o desmame do Latuda; quando eu disse que o medicamento me deixava muito ansiosa e agitada ele falou para eu parar de toma-lo imediatamente. 

À tarde continuei meu cachecol no tear; ou melhor, comecei de novo. Estava cheio de defeitos que me incomodavam, e como ainda estava no começo, tinha apenas uns 7cm, resolvi desmanchar tudo e recomeçar. Meus colegas disseram que eu corajosa de fazer isso, mas que era como na vida, em que você às vezes precisar dar um passo para trás para poder continuar caminhando para a frente. Eu concordei: ultimamente minha vida tem sido dar muitos passos para trás para poder então melhorar e evoluir. Há muito sofrimento nisso, mas creio que sofrer é sinônimo de se fortalecer; só que o sofrimento demora a passar, e o fortalecimentos anda a passos de tartaruga. Mas tenho fé e creio que vou sair dessa; só não sei quando.



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

18/10/2019 - Dia 7

Sexta-feira, dia de "Fechamento". É sempre bom ouvir o que os colegas fizeram e sentiram durante a semana; às vezes é triste também: uma pessoa que anda atormentada com acontecimentos do passado; outra que se se sente um fardo para os pais em casa; outra que sofre abuso emocional da mãe. Mas vários pacientes estão se sentindo melhor, pelo tempo que já passaram na clínica, pela troca de medicamentos, pela terapia...

Após o grupo, tive um momento singular, muito bacana. Um dos colegas é escritor infanto-juvenil e quando ele nos disse o título do livro, comprei-o pela internet. Chegou esses dias, e hoje levei-o para o autor autografar; ele ficou feliz, disse que meu gesto tinha sido muito delicado e fez uma bonita dedicatória para mim. Nossa, eu, que amo tanto ler, me senti privilegiada por conviver com um escritor e poder conversar sobre a obra dele! Muito bom.

Alguns dias atrás, mencionei sobre uma paciente portadora de TOC, que fazia faxina o dia todo, colocava os espelhos de molho e tinha muito medo de germes. Pois bem, hoje soube mais sobre essa pessoa: o motivo que a havia levado aos extremos do transtorno foi uma infecção generalizada que ela adquirira por contato com fungos, e que a levou a muitos dias de internação com risco de vida. Essa mesma pessoa tem uma filha diagnosticada com borderline, que tentou se matar e ficou internada por bastante tempo, em regime fechado.

A parte da tarde foi muito legal: às sextas, para fechar a semana com mais leveza, as TOs levam jogos, para serem jogados em grupo. Hoje foi o "Perfil", que adoro, e em que precisamos adivinhar o nome de uma pessoa, coisa, lugar ou um determinado ano, com base em dicas lidas para cada grupo. Quanto menos dicas se usa para acertar, mais casas se avança no tabuleiro. Foi super divertido; meu grupo ganhou a primeira rodada, perdeu a segunda e não houve tempo de terminar a terceira. Mas não importa; o que vale é que foi um momento feliz para mim e, pelo que pude sentir, para a maioria dos meus colegas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

17/10/2019 - Dia 6

Hoje de manhã havia duas opções de atividade: caminhada ou filme (com posterior discussão). Fiquei para o filme que, curiosamente, era "Angry Birds". Eu digo "curiosamente" porque não imaginava que um desenho animado baseado em um joguinho de celular pudesse ter conteúdo para gerar uma conversa entre os pacientes. Mas teve! O filme apresentou diversos elementos com os quais vários de nós se identificaram: a jornada do herói, a superação, a persistência, o preconceito, a luta. Foi bem rica a discussão.

Após o almoço, no intervalo, conversamos bastante e jogamos pingue-pongue. Foi divertido e cansativo (correr atrás da bolinha, abaixar...). Depois, como é quinta, continuamos a fazer a decoração para o Halloween; havia também a alternativa da musicoterapia, mas o artesanato me deixa mais focada, me relaxa mais. Só havia mulher no atelier hoje, então pudemos conversar à vontade sobre assuntos femininos, especialmente sobre corpo, peso e autoestima.

Estou gostando muito de trocar experiências com os colegas do HD. Todas as discussões são enriquecedoras, ensinam muito e nos fazem ver que estamos todos no mesmo barco, não importa qual seja o diagnóstico de cada um.

Uma das coisas tristes de hoje foi ter visto os cortes que uma paciente fez intencionamente no corpo. Não somente nos pulsos, mas também nos braços e, segundo eu soube, na barriga também. Sinto vontade de fazer algo por ela, mas percebo ser impotente ante o desespero e a falta de perspectiva da pessoa. No máximo, podemos conversar, acolher... Mas creio que isso já seja alguma coisa.

Noto que vários colegas continuam não participando de nenhuma atividade. Ficam sentados no pátio, fumando ou no refeitório, lendo... Pergunto-me se terão condições de sair do hospital algum dia, pois na verdade não estão tomando parte no tratamento - estão lá, apenas, comparecendo diariamente à clínica, mas sem se envolver em nada. Sinto pesar por eles, quero que todo mundo possa ter uma vida normal um dia. Por melhor que seja o HD, não podemos deixar de lutar pela meta de ter alta.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

16/10/2019 - Dia 5

Hoje tivemos uma "overdose" de terapia em grupo. Mas foi bom, é ótimo trocar experiências e ver o quanto não estamos sozinhos nessa jornada de sofrimento e cura.

Pela manhã, assistimos o vídeo abaixo, bem bonitinho por sinal, sobre ansiedade:


Depois, discutimos sobre o tema. Fiquei feliz ao ver que um dos colegas, que nunca participa das atividades, entrou na sala e compartilhou sua visão sobre ansiedade. A parte triste é que, para que seu depoimento fizesse sentido, ele nos contou que fora viciado em drogas por 20 anos, da adolescência à quase meia idade e que a adicção o fizera perder tudo o que tinha: casa, carro, dinheiro e, obviamente, saúde.

Observei que há muitos fumantes no hospital dia (na verdade, ninguém se refere à clínica por esse nome. Todos dizem "HD".), alguns muito novos e que fumam o dia inteiro. Hoje mesmo, testemunhei um desses colegas acendendo um cigarro no outro; foram três ou quatro em sequência, em um intervalo de menos de meia hora. Talvez a própria doença leve ao vício, para suprir algo ou aplacar a ansiedade.

À tarde, alguns de nós iriam para a TO, confeccionar suportes para panos de prato, mas a psicóloga nos chamou para um grupo de conversa. A dinâmica foi assim: cada um escreveu uma palavra/frase curta relacionada a algum sentimento (por exemplo, aceitação, amor, insegurança, sede de viver) em um pedaço de papel. Então, alguém sorteou um dos papéis e conversamos sobre o tema nele escrito (aceitação, no caso). Foi uma boa discussão, eu falei bastante e aprendi mais sobre um dos transtornos que eu julgo menos conhecidos: o borderline. A doença se caracteriza "por um padrão generalizado de instabilidade em relacionamentos, autoimagem, humor e comportamento, bem como hipersensibilidade à possibilidade de rejeição e abandono (...) A pessoa com transtorno de personalidade limítrofe não tolera ficar sozinha e pode recorrer a ações autodestrutivas para conseguir lidar com o fato de que está sozinha ou para evitar que isso ocorra. Ela realiza esforços frenéticos para evitar o abandono, incluindo criar crises. Por exemplo, a pessoa pode cometer uma tentativa de suicídio para conseguir comunicar sua angústia e fazer com que outras pessoas a resgatem e cuidem dela.(...)" (Manual MSD - Transtorno de Personalidade Borderline).

Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto o quanto tenho que aprender com meus colegas e com os profissionais do HD.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

15/10/2019 - Dia 4

Hoje de manhã, quando estávamos prestes a iniciar uma atividade com a psicóloga, fui chamada para a primeira consulta com o psiquiatra. Falei sobre todo o meu tratamento, desde o início, passando pelas interrupções e retomadas, e também sobre a saúde física, cirurgias e medicamentos; ele alterou um pouco minha medicação e horários. Gostei muito dele, achei-o bastante atencioso e cuidadoso com os remédios.

Ao terminar a consulta, voltei à atividade com a psicóloga, que se tratava de ler e comentar o seguinte texto, chamado "Vende-se um sítio"

Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade, de fato, um sítio que lhe dava muito trabalho e despesa. Reclamava que era um homem sem sorte, pois as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio, pois acreditava que, se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la.
E assim Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:
"Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda."
Meses depois, o poeta encontrou o seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.
"Nem pensei mais nisso", respondeu ele. "Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía."
Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.


As opiniões foram diversas. Desde "sim, temos que valorizar o que temos e não querer mais nada" até "sim, temos que valorizar o que temos, mas temos o direito de fazer outras escolhas". O texto é simples, mas o tema é complexo de certa forma. Eu vejo assim.

Na sala onde fizemos essa atividade havia um banquinho azul, pintado com motivos do mar: peixes, algas, bolhas, etc. Achei muito bonito e comentei em voz alta; um colega veterano então contou que ele havia ajudado a pintar, mas que a maior parte havia sido feita por uma antiga paciente, falecida. Fiquei me perguntando qual teria sido a causa da morte, mas não perguntei nada. À tarde, durante a TO, uma pessoa indagou sobre aquela paciente e um outro colega disse que ela havia morrido; com alguma resistência, contou que ela havia cometido suicídio por overdose de medicamentos. Inclusive, uma semana antes, o havia avisado de que estava esperando tais remédios chegarem em sua casa; o infelizmente, os conselhos do colega para ela foram em vão.

Essas histórias me entristecem muito, sugam minha energia. Espero que amanhã o dia traga mais alegria.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

14/10/2019 - Dia 3

Hoje não acordei muito bem, acho que é efeito da dosagem mais alta de um dos remédios. Ainda bem que só preciso tomá-lo por mais sete dias...

No hospital, pela manhã, foi um pouco pesado. Tivemos que contar em grupo como havia sido o fim de semana, e para algumas pessoas não foi nada agradável. Uma não conseguiu ir visitar a família porque o cônjuge não quis sair; outra, bem solitária, foi para a cama às oito da noite; outra brigou com os pais, que a chamaram de mentirosa por ter faltado ao hospital na sexta por motivo de gripe. Essa briga resultou em severa autopunição: a pessoa em questão fez vários cortes no pulso, pois se sentia culpada por ter brigado com os pais. Após compartilhar o fato conosco, uma outra pessoa, que nunca se coloca, falou; ela tinha muitas experiências de corte e automutilação, havia encontrado uma forma de contornar isso e recomendou-a à colega: ao sentir vontade de se cortar, faça isso no cabelo. De acordo com essa pessoa, ver mechas de cabelo caindo traziam a mesma sensação de êxtase que a de ver o sangue escorrendo. Isso tudo é muito triste...  Uma outra pessoa disse que tinha um determinado pensamento repetitivo que a dominava; solidarizei-me com ela e disse que eu sentia a mesma coisa. Essa mesma pessoa iniciou recentemente um novo tratamento, que é uma opção à eletroconvulsoterapia - ECT - o famoso "choque". Trata-se da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) - um tipo de capacete que emite impulsos eletromagnéticos por meia hora (15 minutos nas primeiras sessões, para adaptação); é menos agressivo que a ECT, mas causa dores de cabeça.

É doído ver, nesses grupos, quantas pessoas infelizes há por aí... Quantos adultos, alguns bem maduros, vivem com os pais, não conseguiram desenvolver uma vida independente. Quantos problemas, terapias, tratamentos, remédios... Quanto sofrimento...

Após o almoço, descansamos conversando debaixo da jabuticabeira (que está carregadinha, frutos um pouco verdes, mas até quarta acho que estarão no ponto); em seguida, TO. Foi dia de atelier, e escolhi pintar um pano de prato e, enquanto trabalhava, fiquei ouvindo as histórias dos outros pacientes. Em especial, uma me chamou a atenção: apesar de não ter dado nome à sua doença e de não parecer muito satisfeita em estar na clínica, estava claro que era TOC. A pessoa fazia faxina o dia todo, colocava inclusive os espelhos de molho, andava na rua de máscara e luva com medo de germes. Existe um termo, misofobia, usado para definir o medo de sujeira e contaminação. É muito difícil a vida de um portador de transtorno obsessivo-compulsivos mas, assim como no caso das demais doenças mentais, somente quem sofre na pele é que sabe dessa dificuldade.

Espero que o dia seja mais leve amanhã, apesar de eu ter a consciência de que não estou em uma colônia de férias.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

11/10/2019 - Dia 2


A parte da manhã foi muito interessante hoje. Às sextas é realizada a atividade "Fechamento da Semana", em que os pacientes escrevem o que ocorreu, como se sentiram, etc. durante os sete dias anteriores; em seguida, cada um lê o que escreveu e os outros fazem observações e comentários. O trabalho é normalmente acompanhado por uma psicóloga, mas como ela está afastada por alguns dias, foi conduzido pelo assistente social.

Foi um momento em que pudemos saber mais da doença, do tratamento, das medicações e da vida de cada um. É incrível como todos se tornam especialistas em medicamentos psicotrópicos e trocam experiências sobre seus efeitos. Por exemplo, um moço muito deprimido não está se adaptando à fluoxetina, tem sintomas horríveis como palpitação, falta de ar, entre outros e, além de tudo, a depressão piorou. Ele está persistindo, mas sem muita esperança. Nós o aconselhamos a conversar com a psiquiatra, colocar tudo o que havia dito no grupo, para que ela talvez alterasse o remédio.

Aliás, eu ainda não disse: toda semana passamos em consulta com o(a) psiquiatra. A cada paciente é atribuído um médico, então eu sempre vou passar com o mesmo, para haver uma sequência no acompanhamento. Esse profissional vai verificar se a medicação está funcionando e fazer os devidos ajustes; acho que agora meus remédios estão bem sincronizados, e espero não precisar mudar. Entretanto, se eu realmente não estiver apenas deprimida, mas sim com transtorno bipolar, dependendo da fase da doença (depressão ou mania) é que vou comprovar se os medicamentos estão realmente ajustados.

Hoje o almoço foi muito gostoso: arroz, feijão, bife à milanesa, purê, salsicha com molho, batata palha, salada, brigadeiro e pirulito. Acho que às sextas eles devem fazer essas concessões de guloseimas, porque ontem a sobremesa foi radicamente diferente: maçã.

A atividade da tarde não contribuiu muito. Fizemos um "happy hour" (entre aspas porque foi às duas da tarde) em uma padaria. Eu preferia ter ficado na clínica e feito TO (pintura, artesanato...)  tranquila, mas os pacientes mais antigos se sentem muito presos. Então, uma vez por mês, há essa saída para a padaria. Foi bom para conversar, mas nosso assunto sempre gira em torno de nossas doenças. Porém, é sempre importante saber mais sobre os problemas dos colegas pois há muita coisa em comum entre nós.