quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
27/12/2019 - Dia 41
À tarde, fomos à padaria, como é de tradição na última sexta do mês. Antes, as TOs me deixaram continuar meu cachecol. Porém, quando viram que não haveria tempo hábil para que eu terminasse, decidiram deixar que eu levasse o tear para casa, para concluir o projeto; na próxima consulta que terei com o psiquiatra, no ambulatório agora, devolverei o tear.
Foi tudo bem na padaria, conversei bastante. Ao retornarmos ao HD, havia chegado o momento da despedida. É claro que chorei ao me despedir de meus amigos e das terapeutas, que tanto me ajudaram, e das copeiras, auxiliares de limpeza, técnicas de enfermagem e enfermeira que nos cuidam com tanto carinho e profissionalismo. Até meu médico estava por ali naquele momento, e ganhei um abraço dele também.
Esse tempo no hospital foi muito bom, muito intenso. Nunca imaginei que viveria tanta coisa em tão pouco tempo, e nem o quanto de transformações isso o que vivi me traria.
No HD, reaprendi, mais uma vez, e é sempre bom lembrar, que nunca se deve julgar ninguém, muito menos pela aparência. Lá, conheci pessoas respeitáveis e maduras que haviam tentado o suicídio diversas vezes; outras, inteligentes e aparentemente bem resolvidas, que se cortavam para ter a atenção dos amigos e família, e pelo prazer de ver o sangue escorrendo. Pessoas tranquilas, alegres e falantes, mas que entravam em uma crise de pânico extremo ao se depararem com a palavra ou alguma história alheia sobre a morte. Jovens que se vestiam com roupas alegres e descoladas, planejando a festa de aniversário em um dia e, no outro, aparecendo no hospital, pálidos, fracos após uma noite na UTI, e cheios de pontos e curativos para cobrir as curar e cobrir as marcas que eles próprios haviam se infligido em um momento de desespero. Conheci pessoas em idade um pouco avançada, outras de meia idade, jovens adultos e adultos muito jovens, recém saídos da adolescência, quase crianças. Conheci avós e avôs. Conheci pais de um filho, e um pai de onze filhos. Conheci muitas mulheres que lutam para continuar a criar seus filhos, e outras que sonham em se curar para poderem se tornar mães. Conheci uma mãe tão nova, que está crescendo junto com a filha, e outra que batalha diariamente para superar a perda de um filho crescido, adulto, piloto, de cuja morte ela soube pelo noticiário da TV. Conheci pessoas portadoras de demência, esquizofrenia, depressão, transtornos bipolar, borderline, obsessivo compulsivo, de dupla personalidade. Conheci ex-usuários de entorpecentes, mas eternamente dependentes químicos, cujos cérebros as drogas lesaram para sempre. Pessoas que sofreram acidentes gravíssimos e que nunca mais serão como eram, nunca mais andarão como andavam nem escreverão como escreviam. Conheci pessoas que tomaram tantos, tão fortes e tão diversos medicamentos por tantos anos, que já não conseguem falar com desenvoltura, e que, fora de contexto poderiam ser confundidos com ébrios; essas mesmas pessoas, mesmo as mais jovens, já perderam o brilho em seus olhares perdidos. Difícil vislumbrar alguma esperança neles, mas ainda deve existir alguma, bem lá no fundo, ou pelo menos é isso o que desejo de todo meu coração.
Convivi com pessoas que nunca tiveram ou terão condições de trabalhar na vida, e também com desempregados, autônomos, aposentados, estudantes, vestibulandos e interditados. Convivi com diversos bancários e também com vendedores e supervisores de vendas, auxiliares de limpeza, caixas de lanchonete, recepcionistas e secretárias de hospital, técnicas de enfermagem, programadores, estudantes, guardas de trânsito, escritores, auxiliares judiciários, esteticistas, maquiadores, desenvolvedores de videogames, professores, cabeleireiros, farmacêuticos, arquitetos, músicos, técnicos em conserto de elevadores. Mas, acima de tudo, pessoas, com quem, de outra forma, eu jamais teria tido a oportunidade de conviver de modo tão profundo. E quanta coisa eu teria deixado de aprender e sentir...
Quando, meses atrás, pedi a meu antigo psiquiatra que me encaminhasse para a semi-internação, pois essa era a saída mais imediata que eu via naquele momento, ele me disse: "Bem, posso até fazer a carta de encaminhamento, mas não vejo como o hospital dia poderá lhe ajudar. Lá as atividades são muito simples, trabalhos manuais... Não sei se isso irá contribuir muito para sua melhora, não." Pois é, doutor... O senhor só não contava com as pessoas... Com a solidariedade, rede de apoio, ouvidos atentos e interessados, palavras de carinho e incentivo. Com o abraço, com o olhar...
Com o amor. O amor que cura e dá esperança. O amor que resgata e salva. Que compreende mas cala quando não é para falar, e fala quando não é para calar. O amor, desinteressado, que quanto mais a gente dá, mais ainda recebe. O amor, abstrato só no conceito, pois nada pode ser tão forte e tão palpável. Agradeço pelo HD. Pelos amigos. Pela vida. Pelo AMOR.
domingo, 1 de dezembro de 2019
29/11/2019 - Dia 28
O intervalo foi animado, colegas contando suas histórias de antes da internação, seus trabalhos, sua vida. E depois as internações em regime fechado e o progresso para o HD. Disseram que nossa clínica era diferente antes, ficava em outro local, mais espaçoso, onde era possível até jogar vôlei; havia também mais professores de educação física e psicólogos, e as pessoas que hoje ficam em um canto, sem tomar parte de nada, participavam de tudo naquela época. Era tudo mais bonito e organizado, e até a comida era melhor. É... Contenção de despesas, crise. Afetou a todos.
A atividade da tarde foi um jogo de adivinhar charadas, e depois brincamos de "Stop". Uma coisa legal foi ver as TOs ajudarem os que têm mais dificuldade a escrever durante o Stop; dessa forma, puderam realmente participar, não ficaram à margem. Muito bom.
terça-feira, 26 de novembro de 2019
22/11/2019 - Dia 23
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
21/11/2019 - Dia 22
De manhã assistimos ao filme "Miracle Run - Uma Viagem Inesperada":
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
18/11/2019 - Dia 20
Dia normal, histórias sempre comoventes. Uma colega foi convidada pela irmã para irem fazer compras no fim de semana, e ela foi. Entretanto, as ruas estavam muito cheias, ela começou a ter uma crise de pânico, muito medo das pessoas na rua, e pediu à irmã que fossem embora. O pedido foi atendido, mas de má vontade; a irmã não compreendeu que se tratava de um momento em que a razão deixa de existir, é a doença se manifestando, nada do que se diga pode abrandar o sofrimento. Nossa colega sofreu com essa falta de empatia, ficou muito triste, e nem as desculpas recebidas no final do dia a fizeram sentir-se melhor.
Uma outra colega nos contou uma coisa boa: havia participado de um retiro espiritual durante o fim de semana, e os dias de reflexão lhe trouxeram revelações importantes e emocionantes. Ela saiu de lá uma nova mulher e disse que se sente muito, muito bem. E todos nós também ficamos felizes por ela, primeiro pela amizade, e depois porque a vitória de cada um é a vitória de todos lá no HD; traz esperança, traz alento.
Havia três novos colegas, que entraram semana passada e hoje. É estranho, pois quando alguém novo chega, a gente observa a pessoa e fica se perguntando qual será o problema, a doença dela. A gente sempre acha que parece que o paciente em questão não tem nada. Claro, sempre nos enganamos; ninguém fica internado à toa. Mas também, cada dia mais, constatamos a imprecisão do ditado "as aparências enganam"... Não, elas não enganam! Elas simplesmente não dizem nada sobre ninguém. Absolutamente nada. E vamos aprendendo aos poucos a não julgar ninguém.
sexta-feira, 15 de novembro de 2019
05/11/2019 - Dia 19
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
04/11/2019 - Dia 18
Eu não estava muito bem, chorei... Mas recebi a solidariedade e carinho de colegas que normalmente são fechados, que sofrem de problemas sérios, e que dividiram um pouco de sua história comigo para me ajudar a encontrar o meu caminho. Foi muito importante e significou muito para mim.
Durante meu relato, um paciente fez perguntas íntimas, inconvenientes. Nossa... vários colegas e o assistente social vieram em meu socorro, pedindo que o colega não falasse coisas que me constrangessem. Eu fiquei com pena dele até, mas ele realmente foi muito invasivo.
No intervalo, uma das colegas que me ajudou na terapia em grupo cuidou do meu cabelo, penteou, passou óleos hidratantes. Depois me deu um dos óleos! Essa pessoa é muito sofrida, isso não a impediu de desenvolver vários talentos em diversas áreas; ela é extremamente inteligente.
No atelier de hoje, teci só um pouquinho de meu cachecol, pois queria fazer um turbante que outras meninas estavam fazendo. São tiras de tecido que temos que costurar; eu adoro dar pontos, me relaxa. Acho que amanhã mesmo eu consigo terminar e usar.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
01/11/2019 - Dia 17
Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.
À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.
terça-feira, 29 de outubro de 2019
29/10/2019 - Dia 14
Durante a atividade, fui chamada pela técnica em enfermagem para ir à minha consulta semanal. O psiquiatra ficou feliz em ver que estou melhor e me deu parabéns pela visível evolução. Disse que, mais para frente, vai verificar a possibilidade de me conceder uma redução (que é a retirada de um dia de tratamento na semana. Por exemplo: algumas pessoas têm redução às segundas-feiras, e então não precisam ir ao HD nesse dia). Só espero, muito, que o médico não resolva me deixar no hospital até janeiro, que é quando se encerra meu benefício no INSS; quero ter alta antes, para poder fazer outras coisas antes de voltar a trabalhar. Mas... o mais importante é eu estar bem, não importa quanto tempo isso vai levar. Não é bom ter pressa, em se tratando de saúde.
Hoje entrou uma nova colega na clínica; entretanto, alguns pacientes comentaram que ela havia dito que não ficaria internada lá de jeito nenhum, que tinha obrigações e precisava voltar a elas. E, de fato, após o almoço ela foi conversar com o psiquiatra, faltou de seu desejo e não teve como convencê-la do contrário; o médico lhe deu alta e ela nem iniciou um projeto de artesanato na terapia ocupacional. É engraçado como ficamos chateados com essas coisas... Sabemos que o HD poderia ajudá-la a melhorar, seja qual for seu transtorno e, ao virmos sua desistência, ficamos tristes por ela não ter dado uma chance a si mesma.
Na hora do almoço, colegas presenciaram uma discussão entre dois outros pacientes; o desentendimento foi devido ao lugar na fila para ser servido. Cada um clamava pela dianteira, até que um deles deu um basta e assumiu a posição que julgava ser sua, e foi o primeiro a almoçar. Nota-se que é comum no HD alguns internos brigarem por posse de coisas simples, como o controle da televisão, determinada poltrona, etc. Acredito que faça parte das características de certos transtornos (TOC, por exemplo), mas sendo doença ou não, essas histórias já geraram até suspensões de pacientes.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
28/10/2019 - Dia 13
Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.
O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.
Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
25/10/2019 - Dia 12
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
23/10/2019 - Dia 10
22/10/2019 - Dia 9
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
18/10/2019 - Dia 7
Após o grupo, tive um momento singular, muito bacana. Um dos colegas é escritor infanto-juvenil e quando ele nos disse o título do livro, comprei-o pela internet. Chegou esses dias, e hoje levei-o para o autor autografar; ele ficou feliz, disse que meu gesto tinha sido muito delicado e fez uma bonita dedicatória para mim. Nossa, eu, que amo tanto ler, me senti privilegiada por conviver com um escritor e poder conversar sobre a obra dele! Muito bom.
Alguns dias atrás, mencionei sobre uma paciente portadora de TOC, que fazia faxina o dia todo, colocava os espelhos de molho e tinha muito medo de germes. Pois bem, hoje soube mais sobre essa pessoa: o motivo que a havia levado aos extremos do transtorno foi uma infecção generalizada que ela adquirira por contato com fungos, e que a levou a muitos dias de internação com risco de vida. Essa mesma pessoa tem uma filha diagnosticada com borderline, que tentou se matar e ficou internada por bastante tempo, em regime fechado.
A parte da tarde foi muito legal: às sextas, para fechar a semana com mais leveza, as TOs levam jogos, para serem jogados em grupo. Hoje foi o "Perfil", que adoro, e em que precisamos adivinhar o nome de uma pessoa, coisa, lugar ou um determinado ano, com base em dicas lidas para cada grupo. Quanto menos dicas se usa para acertar, mais casas se avança no tabuleiro. Foi super divertido; meu grupo ganhou a primeira rodada, perdeu a segunda e não houve tempo de terminar a terceira. Mas não importa; o que vale é que foi um momento feliz para mim e, pelo que pude sentir, para a maioria dos meus colegas.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
17/10/2019 - Dia 6
Após o almoço, no intervalo, conversamos bastante e jogamos pingue-pongue. Foi divertido e cansativo (correr atrás da bolinha, abaixar...). Depois, como é quinta, continuamos a fazer a decoração para o Halloween; havia também a alternativa da musicoterapia, mas o artesanato me deixa mais focada, me relaxa mais. Só havia mulher no atelier hoje, então pudemos conversar à vontade sobre assuntos femininos, especialmente sobre corpo, peso e autoestima.
Estou gostando muito de trocar experiências com os colegas do HD. Todas as discussões são enriquecedoras, ensinam muito e nos fazem ver que estamos todos no mesmo barco, não importa qual seja o diagnóstico de cada um.
Uma das coisas tristes de hoje foi ter visto os cortes que uma paciente fez intencionamente no corpo. Não somente nos pulsos, mas também nos braços e, segundo eu soube, na barriga também. Sinto vontade de fazer algo por ela, mas percebo ser impotente ante o desespero e a falta de perspectiva da pessoa. No máximo, podemos conversar, acolher... Mas creio que isso já seja alguma coisa.
Noto que vários colegas continuam não participando de nenhuma atividade. Ficam sentados no pátio, fumando ou no refeitório, lendo... Pergunto-me se terão condições de sair do hospital algum dia, pois na verdade não estão tomando parte no tratamento - estão lá, apenas, comparecendo diariamente à clínica, mas sem se envolver em nada. Sinto pesar por eles, quero que todo mundo possa ter uma vida normal um dia. Por melhor que seja o HD, não podemos deixar de lutar pela meta de ter alta.
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
16/10/2019 - Dia 5
Pela manhã, assistimos o vídeo abaixo, bem bonitinho por sinal, sobre ansiedade:
Depois, discutimos sobre o tema. Fiquei feliz ao ver que um dos colegas, que nunca participa das atividades, entrou na sala e compartilhou sua visão sobre ansiedade. A parte triste é que, para que seu depoimento fizesse sentido, ele nos contou que fora viciado em drogas por 20 anos, da adolescência à quase meia idade e que a adicção o fizera perder tudo o que tinha: casa, carro, dinheiro e, obviamente, saúde.
Observei que há muitos fumantes no hospital dia (na verdade, ninguém se refere à clínica por esse nome. Todos dizem "HD".), alguns muito novos e que fumam o dia inteiro. Hoje mesmo, testemunhei um desses colegas acendendo um cigarro no outro; foram três ou quatro em sequência, em um intervalo de menos de meia hora. Talvez a própria doença leve ao vício, para suprir algo ou aplacar a ansiedade.
À tarde, alguns de nós iriam para a TO, confeccionar suportes para panos de prato, mas a psicóloga nos chamou para um grupo de conversa. A dinâmica foi assim: cada um escreveu uma palavra/frase curta relacionada a algum sentimento (por exemplo, aceitação, amor, insegurança, sede de viver) em um pedaço de papel. Então, alguém sorteou um dos papéis e conversamos sobre o tema nele escrito (aceitação, no caso). Foi uma boa discussão, eu falei bastante e aprendi mais sobre um dos transtornos que eu julgo menos conhecidos: o borderline. A doença se caracteriza "por um padrão generalizado de instabilidade em relacionamentos, autoimagem, humor e comportamento, bem como hipersensibilidade à possibilidade de rejeição e abandono (...) A pessoa com transtorno de personalidade limítrofe não tolera ficar sozinha e pode recorrer a ações autodestrutivas para conseguir lidar com o fato de que está sozinha ou para evitar que isso ocorra. Ela realiza esforços frenéticos para evitar o abandono, incluindo criar crises. Por exemplo, a pessoa pode cometer uma tentativa de suicídio para conseguir comunicar sua angústia e fazer com que outras pessoas a resgatem e cuidem dela.(...)" (Manual MSD - Transtorno de Personalidade Borderline).
Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto o quanto tenho que aprender com meus colegas e com os profissionais do HD.
terça-feira, 15 de outubro de 2019
15/10/2019 - Dia 4
Ao terminar a consulta, voltei à atividade com a psicóloga, que se tratava de ler e comentar o seguinte texto, chamado "Vende-se um sítio"
Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade, de fato, um sítio que lhe dava muito trabalho e despesa. Reclamava que era um homem sem sorte, pois as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio, pois acreditava que, se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la.
E assim Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:
"Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda."
Meses depois, o poeta encontrou o seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.
"Nem pensei mais nisso", respondeu ele. "Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía."
Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.
As opiniões foram diversas. Desde "sim, temos que valorizar o que temos e não querer mais nada" até "sim, temos que valorizar o que temos, mas temos o direito de fazer outras escolhas". O texto é simples, mas o tema é complexo de certa forma. Eu vejo assim.
Na sala onde fizemos essa atividade havia um banquinho azul, pintado com motivos do mar: peixes, algas, bolhas, etc. Achei muito bonito e comentei em voz alta; um colega veterano então contou que ele havia ajudado a pintar, mas que a maior parte havia sido feita por uma antiga paciente, falecida. Fiquei me perguntando qual teria sido a causa da morte, mas não perguntei nada. À tarde, durante a TO, uma pessoa indagou sobre aquela paciente e um outro colega disse que ela havia morrido; com alguma resistência, contou que ela havia cometido suicídio por overdose de medicamentos. Inclusive, uma semana antes, o havia avisado de que estava esperando tais remédios chegarem em sua casa; o infelizmente, os conselhos do colega para ela foram em vão.
Essas histórias me entristecem muito, sugam minha energia. Espero que amanhã o dia traga mais alegria.
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
14/10/2019 - Dia 3
Hoje não acordei muito bem, acho que é efeito da dosagem mais alta de um dos remédios. Ainda bem que só preciso tomá-lo por mais sete dias...
No hospital, pela manhã, foi um pouco pesado. Tivemos que contar em grupo como havia sido o fim de semana, e para algumas pessoas não foi nada agradável. Uma não conseguiu ir visitar a família porque o cônjuge não quis sair; outra, bem solitária, foi para a cama às oito da noite; outra brigou com os pais, que a chamaram de mentirosa por ter faltado ao hospital na sexta por motivo de gripe. Essa briga resultou em severa autopunição: a pessoa em questão fez vários cortes no pulso, pois se sentia culpada por ter brigado com os pais. Após compartilhar o fato conosco, uma outra pessoa, que nunca se coloca, falou; ela tinha muitas experiências de corte e automutilação, havia encontrado uma forma de contornar isso e recomendou-a à colega: ao sentir vontade de se cortar, faça isso no cabelo. De acordo com essa pessoa, ver mechas de cabelo caindo traziam a mesma sensação de êxtase que a de ver o sangue escorrendo. Isso tudo é muito triste... Uma outra pessoa disse que tinha um determinado pensamento repetitivo que a dominava; solidarizei-me com ela e disse que eu sentia a mesma coisa. Essa mesma pessoa iniciou recentemente um novo tratamento, que é uma opção à eletroconvulsoterapia - ECT - o famoso "choque". Trata-se da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) - um tipo de capacete que emite impulsos eletromagnéticos por meia hora (15 minutos nas primeiras sessões, para adaptação); é menos agressivo que a ECT, mas causa dores de cabeça.
É doído ver, nesses grupos, quantas pessoas infelizes há por aí... Quantos adultos, alguns bem maduros, vivem com os pais, não conseguiram desenvolver uma vida independente. Quantos problemas, terapias, tratamentos, remédios... Quanto sofrimento...
Após o almoço, descansamos conversando debaixo da jabuticabeira (que está carregadinha, frutos um pouco verdes, mas até quarta acho que estarão no ponto); em seguida, TO. Foi dia de atelier, e escolhi pintar um pano de prato e, enquanto trabalhava, fiquei ouvindo as histórias dos outros pacientes. Em especial, uma me chamou a atenção: apesar de não ter dado nome à sua doença e de não parecer muito satisfeita em estar na clínica, estava claro que era TOC. A pessoa fazia faxina o dia todo, colocava inclusive os espelhos de molho, andava na rua de máscara e luva com medo de germes. Existe um termo, misofobia, usado para definir o medo de sujeira e contaminação. É muito difícil a vida de um portador de transtorno obsessivo-compulsivos mas, assim como no caso das demais doenças mentais, somente quem sofre na pele é que sabe dessa dificuldade.
Espero que o dia seja mais leve amanhã, apesar de eu ter a consciência de que não estou em uma colônia de férias.
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
11/10/2019 - Dia 2
A parte da manhã foi muito interessante hoje. Às sextas é realizada a atividade "Fechamento da Semana", em que os pacientes escrevem o que ocorreu, como se sentiram, etc. durante os sete dias anteriores; em seguida, cada um lê o que escreveu e os outros fazem observações e comentários. O trabalho é normalmente acompanhado por uma psicóloga, mas como ela está afastada por alguns dias, foi conduzido pelo assistente social.
Foi um momento em que pudemos saber mais da doença, do tratamento, das medicações e da vida de cada um. É incrível como todos se tornam especialistas em medicamentos psicotrópicos e trocam experiências sobre seus efeitos. Por exemplo, um moço muito deprimido não está se adaptando à fluoxetina, tem sintomas horríveis como palpitação, falta de ar, entre outros e, além de tudo, a depressão piorou. Ele está persistindo, mas sem muita esperança. Nós o aconselhamos a conversar com a psiquiatra, colocar tudo o que havia dito no grupo, para que ela talvez alterasse o remédio.
Aliás, eu ainda não disse: toda semana passamos em consulta com o(a) psiquiatra. A cada paciente é atribuído um médico, então eu sempre vou passar com o mesmo, para haver uma sequência no acompanhamento. Esse profissional vai verificar se a medicação está funcionando e fazer os devidos ajustes; acho que agora meus remédios estão bem sincronizados, e espero não precisar mudar. Entretanto, se eu realmente não estiver apenas deprimida, mas sim com transtorno bipolar, dependendo da fase da doença (depressão ou mania) é que vou comprovar se os medicamentos estão realmente ajustados.
Hoje o almoço foi muito gostoso: arroz, feijão, bife à milanesa, purê, salsicha com molho, batata palha, salada, brigadeiro e pirulito. Acho que às sextas eles devem fazer essas concessões de guloseimas, porque ontem a sobremesa foi radicamente diferente: maçã.
A atividade da tarde não contribuiu muito. Fizemos um "happy hour" (entre aspas porque foi às duas da tarde) em uma padaria. Eu preferia ter ficado na clínica e feito TO (pintura, artesanato...) tranquila, mas os pacientes mais antigos se sentem muito presos. Então, uma vez por mês, há essa saída para a padaria. Foi bom para conversar, mas nosso assunto sempre gira em torno de nossas doenças. Porém, é sempre importante saber mais sobre os problemas dos colegas pois há muita coisa em comum entre nós.
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
10/10/2019 - Dia 1
Cheguei ao hospital um pouco antes das 10h00 e fui super bem recebida. Não sei se é cedo para dizer, mas creio que o sofrimento psíquico de quem possui uma doença mental é tamanho que as pessoas então acabam se unindo e se solidarizando. Encontrei muito carinho e gentileza.
Havia duas opções de atividade pela manhã: assistir a um documentário, e participar de uma discussão sobre o tema em seguida, ou fazer uma caminhada. Optei por caminhar, mas na quinta-feira que vem vou ficar para o filme. Quero experimentar o máximo de atividades e ver qual delas irá trazer maior benefício.
Depois da caminhada, aguardamos o almoço, que é servido das 12h15 às 13h00. As refeições são trazidas por um restaurante terceirizado, não são preparadas no local. Ficamos todos em uma fila e somos servidos pelas funcionárias. Enquanto aguardava, fiquei escutando a conversa de um grupo de moças, duas delas recém chegadas, como eu; a veterana, portadora de TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo, perguntava a elas qual doença as havia levado à internação. Uma delas tinha síndrome do pânico e ansiedade; a outra, borderline. Ao indagarem a esta última o que era borderline, ela respondeu, simplesmente "Basicamente, sou uma pessoa insuportável.". É que esse transtorno é caracterizado pela instabilidade emotiva e nos relacionamentos.
Após ser servida, procurei um lugar para me sentar e escolhi uma mesa em que já havia várias pessoas; assim, teria a oportunidade de conhecê-las. Foi muito interessante, ouvi várias histórias, uma muito triste, que contarei em outra ocasião, mas outras engraçadas. Quando contei que estava internada por depressão, eles me disseram "Fique tranquila. Aqui, todo mundo se acolhe. E você vai rir muito com a gente, você vai ver."
Das 13h00 às 14h00 é o horário de descanso; aproveitei para ler um pouco. Em seguida, as atividades terapêuticas: musicoterapia ou TO - Terapia Ocupacional (tema de hoje: confeccionar a decoração para a festa de Halloween). Em dúvida, pedi permissão para fazer um pouco de cada. Gostei muito da TO porque manteve minha mente concentrada, e também porque a terapeuta veio conversar comigo, saber mais de minha história. Foi um momento para desabafar, chorar e ouvir bons conselhos. A profissional demonstrava amar o que fazia, e me tratou de uma forma super solidária e carinhosa.
Às 16h00, todos já ficam prontos para sair, e precisamente às 16h15 a técnica de enfermagem abre o portão. Todos se despedem e cada um vai para o seu lado.
OBSERVAÇÕES: Notei que alguns pacientes não participam de nada... Ficam fumando, ou sentados simplesmente, sem tomar parte em qualquer das atividades. Fiquei me perguntando se não caberia ao hospital estimulá-los a participar, mas não tenho conhecimento suficiente para entender cada um... Talvez estejam em uma situação em que não possa haver qualquer tipo de pressão. Não sei...
