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terça-feira, 19 de novembro de 2019

19/11/2019 - Dia 21

  Hoje, minha primeira atividade foi a consulta ao psiquiatra. Gosto tanto desse médico! Relatei como havia sido meu período de ausência, e que eu tinha ficado um pouco triste após a cirurgia, mas depois havia conseguido me reerguer, ele, ao final da consulta, me deu um abraço e me disse que tinha ficado muito feliz com meu progresso.

   Depois, na Oficina de Comunicação, lemos o seguinte artigo da Folha de São Paulo:


   
Tortura Psicológica - Mirian Goldenberg
Tenho entrevistado homens e mulheres com mais de 60 anos.
Eles casaram, tiveram filhos e até netos. Montaram suas casas, compraram seus carros, superaram crises pessoais, familiares e profissionais. Mas será que se tornaram pessoas mais sábias e maduras com o passar do tempo?
Observo que muitos continuam sofrendo pelos mesmos motivos pelos quais sofriam na infância. Ainda hoje choram porque tiveram um pai violento, crítico ou ausente. Também sofrem porque não foram suficientemente reconhecidos, elogiados e amados pelos pais.
Uma professora de 63 anos contou: “Apanhei muito do meu pai e, até ele morrer, nunca recebi um só gesto de carinho, uma palavra de amor, um presente especial. Sofro muito ao ver a relação do meu marido com a filha do primeiro casamento dele. Ele é um pai muito amoroso, o pai que eu sempre quis ter e nunca tive”.
Ela se considera uma “mendiga emocional”. “Testemunho o amor incondicional que meu marido sente pela filha. Tudo é para ela: carinho, atenção, cuidado, tempo, dinheiro. Eu me sinto uma mendiga: só fico com as migalhas. É uma verdadeira tortura psicológica”.
É muito frequente casais se separarem quando o filho nasce porque o marido não consegue suportar a atenção que a esposa dedica ao recém-nascido. É o que aconteceu com um músico de 61 anos: “Eu me separei do grande amor da minha vida depois que o nosso filho nasceu. Eu me senti excluído da vida dela, abandonado, rejeitado. É impossível competir com este tipo de amor”.
Ao ouvir tantas histórias tristes, percebi que é importante aprender a cuidar com amor, atenção e carinho da criança que um dia fomos e que, de certa forma, continuaremos a ser até o fim de nossas vidas.
Quem sabe assim conseguimos minimizar o sofrimento e ainda economizar muitos anos de análise?

O texto mexeu muito com algumas pessoas, a ponto de algumas nem conseguirem falar. A carência é uma característica muito comum entre os pacientes, bem como a baixa autoestima. E não importa a idade. 
Porém, nem tudo é triste. Foi muito bacana ouvir um moço jovem dizer que todos os dias abraçava seus pais e seus irmãos e que sabia que isso era cafona (afirmação que refutamos imediatamente), mas que ele não conhecia o dia de amanhã, e queria deixar tudo resolvido, todos os dias, para nunca haver tristeza e arrependimento. Uma lição para os mais velhos, para todos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

01/11/2019 - Dia 17

Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.

Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.

À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

28/10/2019 - Dia 13

Pela manhã, tivemos terapia em grupo com uma psicóloga que havia estado em licença devido à morte de uma pessoa muito importante havia duas semanas; todos no HD sabiam sobre sua perda. Casualmente, ela foi trabalhar de preto hoje e um paciente, querendo fazer uma brincadeira, disse a ela "Ei, você está toda de preto! Está de luto por acaso??". Ah... às vezes as pessoas só vão pensar no que dizem após as palavras terem saído da boca... Tenho certeza de que não foi por mal, e também alguns colegas não tem certos filtros sociais... Mas a psicóloga deve ter sofrido com o que ouviu. Além disso, nossa terapia em grupo foi um pouco pesada; colegas falando sobre síndrome do pânico e seu medo de morrer e outros falando do mesmo transtorno, mas sobre seus planos (alguns postos em prática) de suicídio; alguns ouvem vozes de outras pessoas em suas mentes, outras escutam a própria voz, todas ordenando ou profetizando coisas ruins. Colegas falando sobre depressão, angústia, tristeza profunda, falta de esperança, ausência de alegria, vontade de morrer e ao mesmo tempo de lutar para sair desse estado... Acredito que todo esse conteúdo deva ter sobrecarregado nossa terapeuta, que precisou ir ao médico no intervalo e não retornou mais para o resto do dia.

Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.

O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.

Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.