Hoje, no Fechamento, tive momentos de carinho. O assistente social disse aos participantes que era meu último dia lá. Senti que meus colegas ficaram genuinamente felizes com isso, e me desejaram muitas coisas boas, assim como eu também desejei a eles.
À tarde, fomos à padaria, como é de tradição na última sexta do mês. Antes, as TOs me deixaram continuar meu cachecol. Porém, quando viram que não haveria tempo hábil para que eu terminasse, decidiram deixar que eu levasse o tear para casa, para concluir o projeto; na próxima consulta que terei com o psiquiatra, no ambulatório agora, devolverei o tear.
Foi tudo bem na padaria, conversei bastante. Ao retornarmos ao HD, havia chegado o momento da despedida. É claro que chorei ao me despedir de meus amigos e das terapeutas, que tanto me ajudaram, e das copeiras, auxiliares de limpeza, técnicas de enfermagem e enfermeira que nos cuidam com tanto carinho e profissionalismo. Até meu médico estava por ali naquele momento, e ganhei um abraço dele também.
Esse tempo no hospital foi muito bom, muito intenso. Nunca imaginei que viveria tanta coisa em tão pouco tempo, e nem o quanto de transformações isso o que vivi me traria.
No HD, reaprendi, mais uma vez, e é sempre bom lembrar, que nunca se deve julgar ninguém, muito menos pela aparência. Lá, conheci pessoas respeitáveis e maduras que haviam tentado o suicídio diversas vezes; outras, inteligentes e aparentemente bem resolvidas, que se cortavam para ter a atenção dos amigos e família, e pelo prazer de ver o sangue escorrendo. Pessoas tranquilas, alegres e falantes, mas que entravam em uma crise de pânico extremo ao se depararem com a palavra ou alguma história alheia sobre a morte. Jovens que se vestiam com roupas alegres e descoladas, planejando a festa de aniversário em um dia e, no outro, aparecendo no hospital, pálidos, fracos após uma noite na UTI, e cheios de pontos e curativos para cobrir as curar e cobrir as marcas que eles próprios haviam se infligido em um momento de desespero. Conheci pessoas em idade um pouco avançada, outras de meia idade, jovens adultos e adultos muito jovens, recém saídos da adolescência, quase crianças. Conheci avós e avôs. Conheci pais de um filho, e um pai de onze filhos. Conheci muitas mulheres que lutam para continuar a criar seus filhos, e outras que sonham em se curar para poderem se tornar mães. Conheci uma mãe tão nova, que está crescendo junto com a filha, e outra que batalha diariamente para superar a perda de um filho crescido, adulto, piloto, de cuja morte ela soube pelo noticiário da TV. Conheci pessoas portadoras de demência, esquizofrenia, depressão, transtornos bipolar, borderline, obsessivo compulsivo, de dupla personalidade. Conheci ex-usuários de entorpecentes, mas eternamente dependentes químicos, cujos cérebros as drogas lesaram para sempre. Pessoas que sofreram acidentes gravíssimos e que nunca mais serão como eram, nunca mais andarão como andavam nem escreverão como escreviam. Conheci pessoas que tomaram tantos, tão fortes e tão diversos medicamentos por tantos anos, que já não conseguem falar com desenvoltura, e que, fora de contexto poderiam ser confundidos com ébrios; essas mesmas pessoas, mesmo as mais jovens, já perderam o brilho em seus olhares perdidos. Difícil vislumbrar alguma esperança neles, mas ainda deve existir alguma, bem lá no fundo, ou pelo menos é isso o que desejo de todo meu coração.
Convivi com pessoas que nunca tiveram ou terão condições de trabalhar na vida, e também com desempregados, autônomos, aposentados, estudantes, vestibulandos e interditados. Convivi com diversos bancários e também com vendedores e supervisores de vendas, auxiliares de limpeza, caixas de lanchonete, recepcionistas e secretárias de hospital, técnicas de enfermagem, programadores, estudantes, guardas de trânsito, escritores, auxiliares judiciários, esteticistas, maquiadores, desenvolvedores de videogames, professores, cabeleireiros, farmacêuticos, arquitetos, músicos, técnicos em conserto de elevadores. Mas, acima de tudo, pessoas, com quem, de outra forma, eu jamais teria tido a oportunidade de conviver de modo tão profundo. E quanta coisa eu teria deixado de aprender e sentir...
Quando, meses atrás, pedi a meu antigo psiquiatra que me encaminhasse para a semi-internação, pois essa era a saída mais imediata que eu via naquele momento, ele me disse: "Bem, posso até fazer a carta de encaminhamento, mas não vejo como o hospital dia poderá lhe ajudar. Lá as atividades são muito simples, trabalhos manuais... Não sei se isso irá contribuir muito para sua melhora, não." Pois é, doutor... O senhor só não contava com as pessoas... Com a solidariedade, rede de apoio, ouvidos atentos e interessados, palavras de carinho e incentivo. Com o abraço, com o olhar...
Com o amor. O amor que cura e dá esperança. O amor que resgata e salva. Que compreende mas cala quando não é para falar, e fala quando não é para calar. O amor, desinteressado, que quanto mais a gente dá, mais ainda recebe. O amor, abstrato só no conceito, pois nada pode ser tão forte e tão palpável. Agradeço pelo HD. Pelos amigos. Pela vida. Pelo AMOR.
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
26/12/2019 - Dia 40
Hoje foi um dia estranho, hospital quase vazio... Peguei um filme começado, cujo nome nem fiquei sabendo. Depois cada um falou sobre como havia sido seu Natal. Vários tiveram um dia triste, com lágrimas e angústia; outros disseram que havia sido ok, ou melhor do que haviam esperado. Mesmo que achemos que estamos prontos para encarar a data, o Natal é um dia que traz muitas emoções e nos surpreendemos quando essas vem à tona, com força total.
Não tive apetite para almoçar muito bem. No intervalo fiquei conversando com um amigo, a maior parte do tempo sobre amenidades, e a hora passou bem rápido. As enfermeiras, após o intervalo, me entregaram a carta de alta.
As TOs se juntaram com o professor de música. A atividade era continuar cantando a letra após o volume da canção ser diminuído. Eu ia continuar meu cachecol, mas acabei ganhando uma sessão de terapia particular, ao ficar mais de uma hora na sala do atelier conversando com minha TO. Foi bom, desabafei muitas coisas, ela me ajudou bastante.
Não tive apetite para almoçar muito bem. No intervalo fiquei conversando com um amigo, a maior parte do tempo sobre amenidades, e a hora passou bem rápido. As enfermeiras, após o intervalo, me entregaram a carta de alta.
As TOs se juntaram com o professor de música. A atividade era continuar cantando a letra após o volume da canção ser diminuído. Eu ia continuar meu cachecol, mas acabei ganhando uma sessão de terapia particular, ao ficar mais de uma hora na sala do atelier conversando com minha TO. Foi bom, desabafei muitas coisas, ela me ajudou bastante.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
20/12/2019 - Dia 39
No Fechamento, aquela colega que abandonou um emprego estável e passa necessidade com três filhos nos contou que o mais velho, usuário de maconha, tivera um surto havia pouco menos de uma semana e havia sido internado. Na última visita, porém, ele pediu desculpas para a mãe, disse que seguiria o tratamento, que queria trabalhar... Fiquei muito feliz com isso, e achamos que a colega estava com um semblante mais aliviado.
Conversamos um pouco sobre a maconha e a falsa impressão que os jovens têm de que essa droga é inofensiva. Eu não acho que seja, pois se ela faz você ter algum tipo de alucinação, não é algo natural. Além disso, para quem já tem doenças psicológicas, essas alucinações podem ser extremamente prejudiciais, e mexerem com problemas com os quais o usuário talvez não esteja em condições de lidar. O assistente social mencionou para nós uma pesquisa feita em hospitais públicos em Portugal, país no qual a maconha não é criminalizada. No estudo, foi verificado que as internações por surto psicótico ligado à Cannabis cresceu 30 vezes em 15 anos. Não há nada de inofensivo naquela plantinha simpática. O link para a pesquisa, publicada na Folha, é A Maconha em Portugal .
À tarde foi um pouco estranho... As TOs haviam programado uma atividade, "Qual é a Música", mas os pacientes não quiseram, pediram um filme. No entanto, a internet não funcionava e não conseguiam acessar a Netflix para buscar algum. Até o técnico chegar e corrigir o problema, faltava menos de uma hora para irmos embora, e então só assistimos a uma parte do primeiro episódio de uma série.
Como vou ter alta semana que vem e muitos colegas saem para o Natal e só voltam depois do Ano Novo, despedi-me de alguns. O mais difícil, para mim, foi dizer "até breve" para um de meus amigos, que é técnico em conserto de elevadores. Foi muito emocionante. Ele é uma pessoa maravilhosa, sensível, com um coração de ouro. Está internado há anos. Merece muito, muito mesmo, sair de lá e voltar à vida real. Torço muito por todas as pessoas, mas por ele em especial, pois eu percebo que ele ama a vida, tem planos e um potencial muito grande.
Conversamos um pouco sobre a maconha e a falsa impressão que os jovens têm de que essa droga é inofensiva. Eu não acho que seja, pois se ela faz você ter algum tipo de alucinação, não é algo natural. Além disso, para quem já tem doenças psicológicas, essas alucinações podem ser extremamente prejudiciais, e mexerem com problemas com os quais o usuário talvez não esteja em condições de lidar. O assistente social mencionou para nós uma pesquisa feita em hospitais públicos em Portugal, país no qual a maconha não é criminalizada. No estudo, foi verificado que as internações por surto psicótico ligado à Cannabis cresceu 30 vezes em 15 anos. Não há nada de inofensivo naquela plantinha simpática. O link para a pesquisa, publicada na Folha, é A Maconha em Portugal .
À tarde foi um pouco estranho... As TOs haviam programado uma atividade, "Qual é a Música", mas os pacientes não quiseram, pediram um filme. No entanto, a internet não funcionava e não conseguiam acessar a Netflix para buscar algum. Até o técnico chegar e corrigir o problema, faltava menos de uma hora para irmos embora, e então só assistimos a uma parte do primeiro episódio de uma série.
Como vou ter alta semana que vem e muitos colegas saem para o Natal e só voltam depois do Ano Novo, despedi-me de alguns. O mais difícil, para mim, foi dizer "até breve" para um de meus amigos, que é técnico em conserto de elevadores. Foi muito emocionante. Ele é uma pessoa maravilhosa, sensível, com um coração de ouro. Está internado há anos. Merece muito, muito mesmo, sair de lá e voltar à vida real. Torço muito por todas as pessoas, mas por ele em especial, pois eu percebo que ele ama a vida, tem planos e um potencial muito grande.
18/12/2019 - Dia 37
Hoje de manhã, me atrasei. O carro ficou sem gasolina, precisei desviar do caminho para passar no posto e depois peguei muito trânsito. Quando cheguei ao hospital, estava acontecendo um amigo secreto ladrão; os membros do grupo de teatro haviam combinado de trocar presentes (chocolates), mas aí o grupo da terapia se juntou a ele e as pessoas improvisaram presentes. Virou um amigo secreto de chocolates/amigo da onça/amigo ladrão. Como cheguei tarde, não participei. E a atividade foi acontecendo, até que alguém ganhou de presente um carregador portátil de celular; ele prontamente foi "roubado" por uma moça muito nova, que havia tentado o suicídio no dia anterior e passado a noite toda na UTI. Além disso, era aniversário dela. Entretanto, o professor de teatro, ao chegar sua vez, "roubou" o carregador dela. Eu achei muita falta de sensibilidade, mas não podia fazer nada, pois não estava participando. Porém, quando iam encerrar a brincadeira, vimos que havia sobrado um pacote na mesa; então, sugeriram que eu ficasse com ele, e entrasse no amigo ladrão. Quando abri o embrulho, era um botão; fui então até o professor e disse a ele que queria roubar-lhe o carregador portátil, mas ele disse "não, de jeito nenhum. Você tem chance zero de tirar isso de mim. Você não está participando, nem tem sequer um número." Insisti, mas não teve como. Foi um pouco humilhante, e foi a primeira vez nesses meses que passei por uma situação constrangedora no HD.
Um pouco depois, encontrei o professor no pátio, e ele me deu um sorrisinho. Fui falar com ele, e o diálogo foi assim:
- Olha só, você me fez passar a maior vergonha na frente de todo mundo.
- Mas por quê??
- Porque eu já tenho um carregador, melhor do que esse aí, mas queria roubá-lo para devolvê-lo à menina de que você o tirou. A moça está mal, toda cortada, e ainda por cima é aniversário dela hoje, e mesmo assim você teve coragem de roubar o presente dela??
- Mas você não estava participando! Não estava no jogo.
- Sim, eu estava. Eu fui colocada no jogo quando viram que havia sobrado um pacote. Por isso, eu passei a participar sim.
E, em seguida, saí. Achei a atitude desse profissional extremamente mesquinha e imatura, e eu não podia deixar de falar o que falei.
Durante a TO, tentei mais uma forma de fazer o boneco de barbante. Não deu certo. Tentei de papel machê, e só amanhã vou ver se vai dar certo.
Um pouco depois, encontrei o professor no pátio, e ele me deu um sorrisinho. Fui falar com ele, e o diálogo foi assim:
- Olha só, você me fez passar a maior vergonha na frente de todo mundo.
- Mas por quê??
- Porque eu já tenho um carregador, melhor do que esse aí, mas queria roubá-lo para devolvê-lo à menina de que você o tirou. A moça está mal, toda cortada, e ainda por cima é aniversário dela hoje, e mesmo assim você teve coragem de roubar o presente dela??
- Mas você não estava participando! Não estava no jogo.
- Sim, eu estava. Eu fui colocada no jogo quando viram que havia sobrado um pacote. Por isso, eu passei a participar sim.
E, em seguida, saí. Achei a atitude desse profissional extremamente mesquinha e imatura, e eu não podia deixar de falar o que falei.
Durante a TO, tentei mais uma forma de fazer o boneco de barbante. Não deu certo. Tentei de papel machê, e só amanhã vou ver se vai dar certo.
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
17/12/2019 - Dia 36
De manhã, adiantamos a revista HD Mix; geralmente essa atividade é feita na última terça do mês, mas como o Natal e o Ano Novo cairão nesse dia da semana, a realizamos hoje. Escolhi o tema "Viagens", encontrei rapidamente algumas figuras e escrevi "Wanderlust" no rodapé de minha folha, abaixo das colagens. Essa é uma palavra alemã (que se escreve com a inicial maiúscula mesmo, como ocorre com todos os substantivos desse idioma) que não tem tradução direta para o português (como a nossa "saudade" também não tem. Ela tem que ser explicada em duas ou mais palavras.), e que significa "desejo de viajar".
Após o almoço, tive a consulta semanal com meu médico mesmo, que voltou de férias. Foi uma ótima consulta, pois ele me perguntou sobre tudo o que havia feito e sentido em sua ausência, e ficou feliz ao ver minha evolução. Por isso, combinamos minha alta; ele voltou a dizer que não é bom que eu continue por mais tempo no HD agora. Como eu volto a trabalhar na segunda metade de janeiro, precisaria ser liberada mesmo do hospital, e o doutor adiantou um pouco isso, para que eu possa tirar umas férias, ir para a praia, antes de retornar à rotina normal.
Na TO, achei que fosse finalizar o boneco de neve de barbante, mas... as bexigas onde colei os fios murcharam durante o fim de semana, e o barbante murchou também... Bom, comecei de novo. Vamos ver se vai dar tempo de ficar pronto até quinta-feira, dias do almoço de Natal. Aliás, estou pensando também em meu cachecol de tear... Não terminei ainda, porque interrompi o trabalho várias vezes. Vou pedir às terapeutas para tecê-lo em outros dias da semana, de forma que eu consiga concluí-lo!
Após o almoço, tive a consulta semanal com meu médico mesmo, que voltou de férias. Foi uma ótima consulta, pois ele me perguntou sobre tudo o que havia feito e sentido em sua ausência, e ficou feliz ao ver minha evolução. Por isso, combinamos minha alta; ele voltou a dizer que não é bom que eu continue por mais tempo no HD agora. Como eu volto a trabalhar na segunda metade de janeiro, precisaria ser liberada mesmo do hospital, e o doutor adiantou um pouco isso, para que eu possa tirar umas férias, ir para a praia, antes de retornar à rotina normal.
Na TO, achei que fosse finalizar o boneco de neve de barbante, mas... as bexigas onde colei os fios murcharam durante o fim de semana, e o barbante murchou também... Bom, comecei de novo. Vamos ver se vai dar tempo de ficar pronto até quinta-feira, dias do almoço de Natal. Aliás, estou pensando também em meu cachecol de tear... Não terminei ainda, porque interrompi o trabalho várias vezes. Vou pedir às terapeutas para tecê-lo em outros dias da semana, de forma que eu consiga concluí-lo!
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
13/12/2019 - Dia 35
O Fechamento trouxe momentos de emoção, como sempre; um das pacientes estava se sentindo rejeitada pela própria psicóloga, pois esta não soube lidar com uma determinada situação que minha colega havia lhe apresentado. A rejeição é algo muito forte entre nós, e é fundamental trabalharmos isso.
Outra colega está em um momento de desespero. Ela não é casada, tem três filhos e mora com a mãe, que sustenta a todos; quatorze anos atrás, ela resolveu pedir demissão de um emprego em que ganhava bem, era concursada e tinha estabilidade. Naquele tempo, ela tinha um projeto pessoal em mente, e também desejava ficar mais tempo com os filhos; entretanto, hoje ela lamenta profundamente sua decisão, pois adoeceu, ficou muito tempo sem trabalhar e por isso não se julga qualificada e não consegue arrumar empregos, mesmo os mais simples e com menor salário. Ela teme a morte da mãe e com isso a cessão de sua fonte de sustento, e acredita que destruiu a vida dos filhos. Tentamos ajudá-la, dizendo que os filhos vão ter sua vida e encontrar seu caminho, que a vida deles não está destruída, e que ela precisa se perdoar pela decisão que tomou no passado. Com base nos elementos, pensamentos e ferramentas que ela possuía na época, era aquilo que ela achava que deveria fazer. Talvez, na hora, não tenha adiantado termos falado isso; mas, quem sabe plantamos uma semente? Por isso eu gosto muito da terapia em grupo: os colegas sempre têm algo a nos ensinar, um colo e uma palavra amorosa a oferecer.
De mim, falei hoje que esta semana foi especial, pois voltei a dirigir (fui de carro até a clínica) e a cozinhar. Fazia meses que não assumia essas tarefas (porque não dava para assumir mesmo... A depressão é muitas vezes incapacitante.), fiquei um pouco apreensiva de sair com o carro (eu não sabia o caminho, o Waze enlouqueceu, estava quase sem combustível e temia não achar vaga na rua), mas deu tudo certo e hoje saí de novo, com muito mais segurança.
À tarde, fomos divididos em equipe e brincamos de "Jogo do Milhão". O grupo tinha que responder a perguntas cujo nível de dificuldade ia aumentando à medida que as rodadas iam progredindo. Bom, eu adoro jogar, foi super divertido (e polêmico, pois não concordamos com algumas respostas) e nossa equipe ainda foi a vencedora.
Outra colega está em um momento de desespero. Ela não é casada, tem três filhos e mora com a mãe, que sustenta a todos; quatorze anos atrás, ela resolveu pedir demissão de um emprego em que ganhava bem, era concursada e tinha estabilidade. Naquele tempo, ela tinha um projeto pessoal em mente, e também desejava ficar mais tempo com os filhos; entretanto, hoje ela lamenta profundamente sua decisão, pois adoeceu, ficou muito tempo sem trabalhar e por isso não se julga qualificada e não consegue arrumar empregos, mesmo os mais simples e com menor salário. Ela teme a morte da mãe e com isso a cessão de sua fonte de sustento, e acredita que destruiu a vida dos filhos. Tentamos ajudá-la, dizendo que os filhos vão ter sua vida e encontrar seu caminho, que a vida deles não está destruída, e que ela precisa se perdoar pela decisão que tomou no passado. Com base nos elementos, pensamentos e ferramentas que ela possuía na época, era aquilo que ela achava que deveria fazer. Talvez, na hora, não tenha adiantado termos falado isso; mas, quem sabe plantamos uma semente? Por isso eu gosto muito da terapia em grupo: os colegas sempre têm algo a nos ensinar, um colo e uma palavra amorosa a oferecer.
De mim, falei hoje que esta semana foi especial, pois voltei a dirigir (fui de carro até a clínica) e a cozinhar. Fazia meses que não assumia essas tarefas (porque não dava para assumir mesmo... A depressão é muitas vezes incapacitante.), fiquei um pouco apreensiva de sair com o carro (eu não sabia o caminho, o Waze enlouqueceu, estava quase sem combustível e temia não achar vaga na rua), mas deu tudo certo e hoje saí de novo, com muito mais segurança.
À tarde, fomos divididos em equipe e brincamos de "Jogo do Milhão". O grupo tinha que responder a perguntas cujo nível de dificuldade ia aumentando à medida que as rodadas iam progredindo. Bom, eu adoro jogar, foi super divertido (e polêmico, pois não concordamos com algumas respostas) e nossa equipe ainda foi a vencedora.
12/12/2019 - Dia 34
Hoje assistimos a um documentário muito diferente sobre autoestima. Tratava-se da visão de um filósofo do século XVI sobre o assunto:
É muito interessante o filme, porque mesmo para os tempos de hoje, o assunto é moderno e um pouco polêmico; imagine em 1550 e alguma coisa! Acho que ninguém pensava nisso naquela época.
À tarde, iniciamos os trabalhos para a decoração de Natal. Alguns começaram uma lareira e uma chaminé de caixas de papelão, em tamanho quase natural; a mim coube fazer um boneco de neve utilizando bexigas, cola com farinha e barbante:
A colega que sugeriu (e queria muito) que ele fosse feito foi uma pessoa que sofreu demais na vida. Perdeu um filho em um acidente de avião (ele era o copiloto) e ficou sabendo da notícia pela TV; o fato fez com que adoecesse de forma drástica. Ela também foi a pessoa que eu tirei de Amigo Secreto. Quando ela viu que eu havia me empenhado em fazer o boneco, ela me agradeceu muito! Confesso que prefiro fazer outros tipos de trabalhos manuais, como tear, bordado e costura, mas foi muito, muito gratificante ver a gratidão nos olhos dela.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
11/12/2019 - Dia 33
De manhã, lemos fragmentos de textos sobre liberdade e autoconhecimento, escrevemos nossas impressões aplicando-as à nossa própria história de vida e conversamos. Creio que o aspecto mais forte da discussão foi a opinião de várias pessoas sobre autoconhecimento: elas disseram que não se conhecem tão bem assim, pois adoeceram de uma forma que jamais imaginavam, têm crises que não conseguem controlar e não possuem autonomia para tomarem suas próprias decisões. Perderam sua liberdade, não se reconhecem mais.
Uma moça recém chegada participou do grupo. Ela nos contou um pouco de sua história: esteve de hospital em hospital este ano inteiro, e passou sete meses em regime fechado. Está desiludida, disse que perdeu a autonomia sobre sua vida, que a família toma todas as decisões por ela; também está revoltada, pois tomou eletrochoques nesse período. Não acredita em nada, "largou mão" de si mesma; o problema é que ela tem apenas 25 anos.
Quando a gente se depara com uma história assim, tem muita vontade de conversar com a pessoa, mostrar que ainda há esperança, há caminhos. Que a internação, principalmente em um hospital dia, não é um instrumento de punição, mas sim de auxílio, de cuidado. No entanto, às vezes, pessoas muito jovens não acreditam em nada disso... Têm muita firmeza em suas opiniões e são resistentes a pensar de outra forma; por isso, não adianta dizer muita coisa... O que podemos fazer é ser solidários, acolher à medida em que sentimos necessidade e abertura do colega; é o que há de melhor a ser feito.
À tarde, fizemos nosso Amigo Secreto. Sorteamos os nomes na hora, e cada um presentearia seu amigo com a lembrancinha feita nas sessões de TO. Nossa, foi muito legal. Eu sempre me preocupo com Amigos Secretos, porque a pessoa que nos tira precisa nos descrever para que os outros adivinhem quem é, e fico com medo de usarem meu pior atributo físico como descrição de mim. No entanto, isso não aconteceu em absoluto! Todos usaram palavras carinhosas e de estímulo para descreverem seus Amigos. Por exemplo, um paciente disse sobre uma colega: "Minha Amiga Secreta é uma pessoa muito expansiva, está sempre conversando e ajudando os outros. Ela tem uma preocupação muito específica que está lhe prejudicando no momento, mas eu tenho certeza de que logo vai sair dessa, porque a vida tem muito a oferecer a ela." Foi tão lindo, a gente chorou até. E a maioria das descrições foi por essa linha; o clima foi de muita paz, acho que foi o melhor Amigo Secreto do qual já participei. Isso nos faz constatar o quanto o que se vai ganhar não é importante; ouvir as palavras de carinho que foram usadas para nos descrever foi o melhor presente.
Uma moça recém chegada participou do grupo. Ela nos contou um pouco de sua história: esteve de hospital em hospital este ano inteiro, e passou sete meses em regime fechado. Está desiludida, disse que perdeu a autonomia sobre sua vida, que a família toma todas as decisões por ela; também está revoltada, pois tomou eletrochoques nesse período. Não acredita em nada, "largou mão" de si mesma; o problema é que ela tem apenas 25 anos.
Quando a gente se depara com uma história assim, tem muita vontade de conversar com a pessoa, mostrar que ainda há esperança, há caminhos. Que a internação, principalmente em um hospital dia, não é um instrumento de punição, mas sim de auxílio, de cuidado. No entanto, às vezes, pessoas muito jovens não acreditam em nada disso... Têm muita firmeza em suas opiniões e são resistentes a pensar de outra forma; por isso, não adianta dizer muita coisa... O que podemos fazer é ser solidários, acolher à medida em que sentimos necessidade e abertura do colega; é o que há de melhor a ser feito.
À tarde, fizemos nosso Amigo Secreto. Sorteamos os nomes na hora, e cada um presentearia seu amigo com a lembrancinha feita nas sessões de TO. Nossa, foi muito legal. Eu sempre me preocupo com Amigos Secretos, porque a pessoa que nos tira precisa nos descrever para que os outros adivinhem quem é, e fico com medo de usarem meu pior atributo físico como descrição de mim. No entanto, isso não aconteceu em absoluto! Todos usaram palavras carinhosas e de estímulo para descreverem seus Amigos. Por exemplo, um paciente disse sobre uma colega: "Minha Amiga Secreta é uma pessoa muito expansiva, está sempre conversando e ajudando os outros. Ela tem uma preocupação muito específica que está lhe prejudicando no momento, mas eu tenho certeza de que logo vai sair dessa, porque a vida tem muito a oferecer a ela." Foi tão lindo, a gente chorou até. E a maioria das descrições foi por essa linha; o clima foi de muita paz, acho que foi o melhor Amigo Secreto do qual já participei. Isso nos faz constatar o quanto o que se vai ganhar não é importante; ouvir as palavras de carinho que foram usadas para nos descrever foi o melhor presente.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
05/12/2019 - Dia 31
Hoje resolvi ir caminhar no parque em vez de ficar vendo o filme, que é a outra opção de atividade das quintas. Depois da caminhada, lá no parque mesmo, fizemos duas atividades de socialização. Na primeira, uma pessoa ia conduzindo uma bola com os pés até o cone de marcação, e depois voltava, dava a mão para o companheiro de equipe e os dois iam conduzindo a bola; e assim continuava até que todos os componentes do grupo estivessem de mãos dadas em uma grande corrente. Vencia quem chegasse primeiro à linha de largada.
A segunda atividade era em trios, em que os componentes tinham que ser dar as mãos e formar um círculo, se locomovendo e tocando a bola um para o outro. Estava indo tudo bem, até que precisamos renovar os trios e um dos membros precisava sair. O moço que estava em nosso grupo se ofereceu para sair, mas o professor não deixou, disse que ele precisava ficar, pois seria o homem daquela equipe, assim como ele, o professor, seria o homem da outra. Sendo assim, eu saí do grupo; entretanto, achei a atitude do profissional machista. A equipe poderia perfeitamente ter sido formada só com mulheres, pois a atividade não requeria força ou brutalidade, mas apenas noções de lateralidade e coordenação motora.
Ao final, enquanto descansávamos um pouco, a psicóloga pediu para que falássemos um pouco da atividade, e nós fomos sinceras e dissemos ao professor que havíamos entendido a atitude dele como machista. Ele disse que não havia sido sua intenção mas aceitou a crítica.
À tarde continuamos a fazer nossas lembrancinhas de Natal durante a TO. Eu terminei uma (a vela) e comecei a fazer outra (uma estrela). Mas as terapeutas nós dispensaram mais cedo, porque ameaçava chover forte ( e realmente choveu).
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
04/12/2019 - Dia 30
Nossa primeira atividade foi assistir a uma animação que falava sobre a diferença entre empatia e simpatia:
Depois, discutimos sobre o tema, e como sempre houve opiniões e visões bem diferentes, mas que sempre enriquecem a conversa.
Após, uma colega nos chamou para falarmos sobre os desdobramentos dos fatos de ontem. Uma paciente acha que talvez a intenção da colega que teve a crise não havia sido ruim, pelo contrário. Talvez ela, a seu modo, quisesse ajudar pessoas que, na visão dela, estivessem muito doentes, a ponto de se matarem. Eu também tenho esse pensamento, pode ser que o propósito tenha sido bom, ela merece o benefício da dúvida. A questão é que tudo foi feito à revelia dos envolvidos; talvez ela devesse ter conversado com eles antes.
Após o intervalo, na TO, voltamos a fazer lembrancinhas de Natal. Enquanto isso, a psicóloga fez algumas atividades com outro grupo. Eu preferia estar na terapia hoje, mas precisava terminar minha lembrança. Consegui concluir a tarefa: uma pequena vela de feltro verde, fechada com manta acrílica e costurada com linha vermelha aparente.
terça-feira, 26 de novembro de 2019
22/11/2019 - Dia 23
No "Fechamento da Semana" havia poucas pessoas hoje. Às sextas, em geral, o número de pacientes que vão à clínica diminui bastante, por causa da "Redução". Escrevo em letra maiúscula isso é objeto de desejo de vários colegas; funciona assim: se o psiquiatra percebe um progresso considerável, a ponto de acreditar que o paciente não precisa ir ao HD todos os dias, ele lhe concede a tal "Redução". O colega então escolhe o melhor dia para ficar em casa. Alguns tem duas reduções, e só vão à clínica três vezes por semana.
Já falei anteriormente que não tenho me sentido bem, e então hoje resolvi mencionar isso no "Fechamento", ao assistente social. Não sei se fiz o correto, mas como não sou só eu que tenho tido esses problemas digestivos, talvez o assistente possa ao menos verificar com a empresa de alimentação se está tudo de acordo.
À tarde, na TO, brincamos de "Piu-Piu". A proposta é bem divertida: uma pessoa sai da sala e os demais combinam qual objeto deverá ser adivinhado por quem saiu. Por exemplo: todos combinam que será "brinco"; então, a pessoa que saiu volta para a sala e deve fazer perguntas ao grupo, substituindo a palavra que definiria o objeto (que ela ainda não sabe qual é) por "Piu-Piu". Essa parte, a de perguntar, é engraçada, pois fica assim "Fulano tem Piu-Piu?" e o grupo responde sim ou não. Outra: "O Piu-Piu do Fulano é vermelho?", e assim por diante. Obviamente, o duplo sentido que pode haver nas perguntas devido à senha "Piu-Piu" muitas vezes nos fazia cair na risada. O único problema é que, como havia pouca gente por ser sexta, o objeto era logo adivinhado e a graça acabava logo. Mas, mesmo assim, foi muito bom - como em todas as sextas.
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
04/11/2019 - Dia 18
Como em todas as segundas, iniciamos o dia com os relatos de nosso fim de semana. Algumas pessoas dizem que está tudo bem, que foi tranquilo; uma outra contou que se superou ao conseguir ligar para uma companhia telefônica e resolver um problema... Eu aprendo muito ao ver o quanto pequenas conquistas significam para alguns pacientes. Outro dia, dois deles relataram estarem muito felizes pois haviam conseguido ir à feira; um deles, com o filho, adulto, com o qual dividiu o clássico pastel com caldo de cana.
Eu não estava muito bem, chorei... Mas recebi a solidariedade e carinho de colegas que normalmente são fechados, que sofrem de problemas sérios, e que dividiram um pouco de sua história comigo para me ajudar a encontrar o meu caminho. Foi muito importante e significou muito para mim.
Durante meu relato, um paciente fez perguntas íntimas, inconvenientes. Nossa... vários colegas e o assistente social vieram em meu socorro, pedindo que o colega não falasse coisas que me constrangessem. Eu fiquei com pena dele até, mas ele realmente foi muito invasivo.
No intervalo, uma das colegas que me ajudou na terapia em grupo cuidou do meu cabelo, penteou, passou óleos hidratantes. Depois me deu um dos óleos! Essa pessoa é muito sofrida, isso não a impediu de desenvolver vários talentos em diversas áreas; ela é extremamente inteligente.
No atelier de hoje, teci só um pouquinho de meu cachecol, pois queria fazer um turbante que outras meninas estavam fazendo. São tiras de tecido que temos que costurar; eu adoro dar pontos, me relaxa. Acho que amanhã mesmo eu consigo terminar e usar.
Eu não estava muito bem, chorei... Mas recebi a solidariedade e carinho de colegas que normalmente são fechados, que sofrem de problemas sérios, e que dividiram um pouco de sua história comigo para me ajudar a encontrar o meu caminho. Foi muito importante e significou muito para mim.
Durante meu relato, um paciente fez perguntas íntimas, inconvenientes. Nossa... vários colegas e o assistente social vieram em meu socorro, pedindo que o colega não falasse coisas que me constrangessem. Eu fiquei com pena dele até, mas ele realmente foi muito invasivo.
No intervalo, uma das colegas que me ajudou na terapia em grupo cuidou do meu cabelo, penteou, passou óleos hidratantes. Depois me deu um dos óleos! Essa pessoa é muito sofrida, isso não a impediu de desenvolver vários talentos em diversas áreas; ela é extremamente inteligente.
No atelier de hoje, teci só um pouquinho de meu cachecol, pois queria fazer um turbante que outras meninas estavam fazendo. São tiras de tecido que temos que costurar; eu adoro dar pontos, me relaxa. Acho que amanhã mesmo eu consigo terminar e usar.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
01/11/2019 - Dia 17
Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.
Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.
À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.
Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.
À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
29/10/2019 - Dia 14
Pela manhã, tivemos uma atividade diferente (para mim): a confecção da HD Mix, a revista do hospital. É assim: cada um escolhe o tema que quiser e folheia as revista em busca de imagens correspondentes; em seguida, recorta e cola as fotos em folhas de A3, de A4 ou de flip chart (aquele cavalete de madeira que tem um suporte para fixação de papel na parte superior, muito utilizado em cursos e apresentações), escreve e decora como desejar e depois fala sobre sua ideia. Foi interessante, percebem-se muitos dotes artísticos nessas oficinas.
Durante a atividade, fui chamada pela técnica em enfermagem para ir à minha consulta semanal. O psiquiatra ficou feliz em ver que estou melhor e me deu parabéns pela visível evolução. Disse que, mais para frente, vai verificar a possibilidade de me conceder uma redução (que é a retirada de um dia de tratamento na semana. Por exemplo: algumas pessoas têm redução às segundas-feiras, e então não precisam ir ao HD nesse dia). Só espero, muito, que o médico não resolva me deixar no hospital até janeiro, que é quando se encerra meu benefício no INSS; quero ter alta antes, para poder fazer outras coisas antes de voltar a trabalhar. Mas... o mais importante é eu estar bem, não importa quanto tempo isso vai levar. Não é bom ter pressa, em se tratando de saúde.
Hoje entrou uma nova colega na clínica; entretanto, alguns pacientes comentaram que ela havia dito que não ficaria internada lá de jeito nenhum, que tinha obrigações e precisava voltar a elas. E, de fato, após o almoço ela foi conversar com o psiquiatra, faltou de seu desejo e não teve como convencê-la do contrário; o médico lhe deu alta e ela nem iniciou um projeto de artesanato na terapia ocupacional. É engraçado como ficamos chateados com essas coisas... Sabemos que o HD poderia ajudá-la a melhorar, seja qual for seu transtorno e, ao virmos sua desistência, ficamos tristes por ela não ter dado uma chance a si mesma.
Na hora do almoço, colegas presenciaram uma discussão entre dois outros pacientes; o desentendimento foi devido ao lugar na fila para ser servido. Cada um clamava pela dianteira, até que um deles deu um basta e assumiu a posição que julgava ser sua, e foi o primeiro a almoçar. Nota-se que é comum no HD alguns internos brigarem por posse de coisas simples, como o controle da televisão, determinada poltrona, etc. Acredito que faça parte das características de certos transtornos (TOC, por exemplo), mas sendo doença ou não, essas histórias já geraram até suspensões de pacientes.
Durante a atividade, fui chamada pela técnica em enfermagem para ir à minha consulta semanal. O psiquiatra ficou feliz em ver que estou melhor e me deu parabéns pela visível evolução. Disse que, mais para frente, vai verificar a possibilidade de me conceder uma redução (que é a retirada de um dia de tratamento na semana. Por exemplo: algumas pessoas têm redução às segundas-feiras, e então não precisam ir ao HD nesse dia). Só espero, muito, que o médico não resolva me deixar no hospital até janeiro, que é quando se encerra meu benefício no INSS; quero ter alta antes, para poder fazer outras coisas antes de voltar a trabalhar. Mas... o mais importante é eu estar bem, não importa quanto tempo isso vai levar. Não é bom ter pressa, em se tratando de saúde.
Hoje entrou uma nova colega na clínica; entretanto, alguns pacientes comentaram que ela havia dito que não ficaria internada lá de jeito nenhum, que tinha obrigações e precisava voltar a elas. E, de fato, após o almoço ela foi conversar com o psiquiatra, faltou de seu desejo e não teve como convencê-la do contrário; o médico lhe deu alta e ela nem iniciou um projeto de artesanato na terapia ocupacional. É engraçado como ficamos chateados com essas coisas... Sabemos que o HD poderia ajudá-la a melhorar, seja qual for seu transtorno e, ao virmos sua desistência, ficamos tristes por ela não ter dado uma chance a si mesma.
Na hora do almoço, colegas presenciaram uma discussão entre dois outros pacientes; o desentendimento foi devido ao lugar na fila para ser servido. Cada um clamava pela dianteira, até que um deles deu um basta e assumiu a posição que julgava ser sua, e foi o primeiro a almoçar. Nota-se que é comum no HD alguns internos brigarem por posse de coisas simples, como o controle da televisão, determinada poltrona, etc. Acredito que faça parte das características de certos transtornos (TOC, por exemplo), mas sendo doença ou não, essas histórias já geraram até suspensões de pacientes.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
28/10/2019 - Dia 13
Pela manhã, tivemos terapia em grupo com uma psicóloga que havia estado em licença devido à morte de uma pessoa muito importante havia duas semanas; todos no HD sabiam sobre sua perda. Casualmente, ela foi trabalhar de preto hoje e um paciente, querendo fazer uma brincadeira, disse a ela "Ei, você está toda de preto! Está de luto por acaso??". Ah... às vezes as pessoas só vão pensar no que dizem após as palavras terem saído da boca... Tenho certeza de que não foi por mal, e também alguns colegas não tem certos filtros sociais... Mas a psicóloga deve ter sofrido com o que ouviu. Além disso, nossa terapia em grupo foi um pouco pesada; colegas falando sobre síndrome do pânico e seu medo de morrer e outros falando do mesmo transtorno, mas sobre seus planos (alguns postos em prática) de suicídio; alguns ouvem vozes de outras pessoas em suas mentes, outras escutam a própria voz, todas ordenando ou profetizando coisas ruins. Colegas falando sobre depressão, angústia, tristeza profunda, falta de esperança, ausência de alegria, vontade de morrer e ao mesmo tempo de lutar para sair desse estado... Acredito que todo esse conteúdo deva ter sobrecarregado nossa terapeuta, que precisou ir ao médico no intervalo e não retornou mais para o resto do dia.
Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.
O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.
Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.
Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.
O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.
Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.
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