Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.
Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.
À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.
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sexta-feira, 1 de novembro de 2019
01/11/2019 - Dia 17
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sexta-feira, 25 de outubro de 2019
25/10/2019 - Dia 12
Como de costume, às sextas, ocorre o "Fechamento". Todos contam como foi sua semana, mas também acabam desabafando muitas coisas, problemas invariavelmente vinculados, direta ou indiretamente, à doença. Emoções à flor da pele são muito frequentes nesses momentos, mas o bom é que ninguém julga quem chora; pelo contrário: alguém sempre se levanta para pegar alguns lenços de papel e entregar a quem está falando. A psicóloga nos disse hoje que é importantíssimo, durante a terapia em grupo, falar bastante e colocar tudo para fora; essa atitude não vai resolver o problema, mas vai amenizar a intensidade com a qual ele está sendo vivenciado, vai deixar a pessoa mais leve.
Em um dos depoimentos, o INSS foi citado novamente. Uma das colegas está com depressão, teve um membro da família assassinado e está com questões familiares, mas, mesmo assim, teve o benefício negado. Na verdade, o médico perito nem deu chance para que ela colocasse seus problemas; ele perguntou apenas "Sua medicação não está fazendo efeito??", permaneceu digitando algo no computador e a dispensou, com menos de um minuto de consulta. O jeito como alguns médicos tratam pessoas com problemas mentais é absurdo, deveriam ter o diploma cassado por perjúrio às palavras de Hipócrates. Hoje em dia, na formatura, os médicos não utilizam mais o texto original do pai da medicina, pois o texto foi atualizado para o vocabulário e realidade atual. Em Portugal, foi adotado o seguinte (destaquei algumas palavras que guardam relação com a situação da colega):
"Compromisso
do Médico
Como membro da profissão
médica:
– PROMETO SOLENEMENTE
consagrar a minha vida ao serviço da humanidade;
– A SAÚDE E O BEM-ESTAR DO
MEU DOENTE serão as minhas primeiras preocupações;
– RESPEITAREI a autonomia e
a dignidade do meu doente;
– GUARDAREI o máximo respeito pela vida humana;
– NÃO PERMITIREI que
considerações sobre idade, doença ou deficiência,
crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça,
orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre
o meu dever e o meu doente;
– RESPEITAREI os segredos
que me forem confiados, mesmo após a morte do doente;
– EXERCEREI a minha
profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;
– FOMENTAREI a honra e as
nobres tradições da profissão médica;
– GUARDAREI respeito e
gratidão aos meus mestres, colegas e alunos pelo que lhes é devido;
– PARTILHAREI os meus
conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de
saúde;
– CUIDAREI da minha saúde,
bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade;
– NÃO USAREI os meus
conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo
sob ameaça;
FAÇO ESTAS PROMESSAS
solenemente, livremente e sob palavra de honra"
Eu fico me perguntando se os peritos do INSS se lembram, mesmo que vagamente, do conteúdo daquilo que prometeram ao receberem seus diplomas. Mesmo que não se lembrem, respeito é algo que todo mundo deve mostrar por qualquer pessoa...
À tarde assistimos a um filme já antigo: "Querida, Encolhi as Crianças!!" de 1989. Às sextas é dia de atividade lúdica, mas eu, sinceramente, prefiro jogar como na semana passada. A interação é muito maior...
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
24/10/2019 - Dia 11
Hoje assistimos ao filme Vida de Menina:
(Aqui é só uma imagem, não é o filme)
É sobre uma mineira de ascendência inglesa, Helena Morley, filha de um minerador de diamantes na época em que as lavras (córregos em que as pedras eram procuradas) estavam escassas. A moça desafiava os costumes da sociedade à época, não era "bem comportada", "recatada", etc. Gostei muito do filme, mas infelizmente houve um atraso no início e não tivemos tempo para realizar a discussão.
No horário do almoço, fiquei na frente de uma colega que nos contou que havia sofrido um acidente de trabalho, cortado um dedo de forma muito profunda, e que sua empresa lhe negara socorro. Ela foi ao hospital com a enfermeira de uma outra empresa, sofrendo de dor. Perdeu muito sangue, precisou de pontos e antibiótico; como a faca havia atingido os nervos, ela perdeu a sensibilidade na ponta do indicador. Precisou ficar bastante tempo afastada, utilizando o INSS e então caiu em depressão; a partir daí, o INSS passou a negar-lhe o benefício, alegando que "depressão não era doença, era frescura". Ela entrou com uma ação contra a instituição e está aguardando o desenrolar. Infelizmente é muito comum o órgão conceder o benefício por um tempo, mas não renová-lo depois, em casos de depressão e outras doenças mentais. Só quem tem problemas assim, ou está próximo de quem os tenha, pode dizer o quanto é sofrido o transtorno em si, o estigma e o fato de que não existem exames de laboratório ou de imagem que possam comprová-lo. Se você quebra o pé, o raio-X vai se encarregar de provar a todos que sim, você tem uma enfermidade que lhe impede de trabalhar; entretanto, se tiver síndrome do pânico, somente o exame clínico (uma conversa com o psiquiatra) não vai ser suficiente para aplacar a desconfiança daqueles que sofrem de uma outra doença: o preconceito.
Depois do intervalo, finalizamos rapidamente a confecção da decoração de Halloween e já fomos em seguida pendurar nossos fantasminhas, morceguinhos, abóboras e correntes de papel crepom pelo pátio. Ficou muito bonito. O vento estava batendo e os morcegos começaram a balançar, parecia que estavam voando mesmo. O Dia das Bruxas pode ser uma celebração importada, mas festa é festa, e um ambiente decorado fica sempre mais alegre e até divertido.
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