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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

13/12/2019 - Dia 35

O Fechamento trouxe momentos de emoção, como sempre; um das pacientes estava se sentindo rejeitada pela própria psicóloga, pois esta não soube lidar com uma determinada situação que minha colega havia lhe apresentado. A rejeição é algo muito forte entre nós, e é fundamental trabalharmos isso.
Outra colega está em um momento de desespero. Ela não é casada, tem três filhos e mora com a mãe, que sustenta a todos; quatorze anos atrás, ela resolveu pedir demissão de um emprego em que ganhava bem, era concursada e tinha estabilidade. Naquele tempo, ela tinha um projeto pessoal em mente, e também desejava ficar mais tempo com os filhos; entretanto, hoje ela lamenta profundamente sua decisão, pois adoeceu, ficou muito tempo sem trabalhar e por isso não se julga qualificada e não consegue arrumar empregos, mesmo os mais simples e com menor salário. Ela teme a morte da mãe e com isso a cessão de sua fonte de sustento, e acredita que destruiu a vida dos filhos. Tentamos ajudá-la, dizendo que os filhos vão ter sua vida e encontrar seu caminho, que a vida deles não está destruída, e que ela precisa se perdoar pela decisão que tomou no passado. Com base nos elementos, pensamentos e ferramentas que ela possuía na época, era aquilo que ela achava que deveria fazer. Talvez, na hora, não tenha adiantado termos falado isso; mas, quem sabe plantamos uma semente? Por isso eu gosto muito da terapia em grupo: os colegas sempre têm algo a nos ensinar, um colo e uma palavra amorosa a oferecer.

De mim, falei hoje que esta semana foi especial, pois voltei a dirigir (fui de carro até a clínica) e a cozinhar. Fazia meses que não assumia essas tarefas (porque não dava para assumir mesmo... A depressão é muitas vezes incapacitante.), fiquei um pouco apreensiva de sair com o carro (eu não sabia o caminho, o Waze enlouqueceu, estava quase sem combustível e temia não achar vaga na rua), mas deu tudo certo e hoje saí de novo, com muito mais segurança.

À tarde, fomos divididos em equipe e brincamos de "Jogo do Milhão". O grupo tinha que responder a perguntas cujo nível de dificuldade ia aumentando à medida que as rodadas iam progredindo. Bom, eu adoro jogar, foi super divertido (e polêmico, pois não concordamos com algumas respostas) e nossa equipe ainda foi a vencedora.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

04/12/2019 - Dia 30


Nossa primeira atividade foi assistir a uma animação que falava sobre a diferença entre empatia e simpatia:


Depois, discutimos sobre o tema, e como sempre houve opiniões e visões bem diferentes, mas que sempre enriquecem a conversa.

Após, uma colega nos chamou para falarmos sobre os desdobramentos dos fatos de ontem. Uma paciente acha que talvez a intenção da colega que teve a crise não havia sido ruim, pelo contrário. Talvez ela, a seu modo, quisesse ajudar pessoas que, na visão dela, estivessem muito doentes, a ponto de se matarem. Eu também tenho esse pensamento, pode ser que o propósito tenha sido bom, ela merece o benefício da dúvida. A questão é que tudo foi feito à revelia dos envolvidos; talvez ela devesse ter conversado com eles antes.

Após o intervalo, na TO, voltamos a fazer lembrancinhas de Natal. Enquanto isso, a psicóloga fez algumas atividades com outro grupo. Eu preferia estar na terapia hoje, mas precisava terminar minha lembrança. Consegui concluir a tarefa: uma pequena vela de feltro verde, fechada com manta acrílica e costurada com linha vermelha aparente.


03/12/2019 - Dia 29

Ontem foi meu primeiro dia de redução; foi bom também não precisar ir à clinica, ter o dia livre. O médico falou que eu preciso ir desmamando do HD, e a redução de um dia é o primeiro passo.

Tivemos uma atividade bem interessante na oficina de comunicação: escrever uma carta para nós mesmos daqui a um ano. Então, contamos a nós mesmos como estamos hoje e como esperamos estar na mesma data ano que vem. Lemos nossa carta um para os outros e depois a psicóloga sugeriu que a levássemos para casa e a guardássemos, para ser lida daqui a um ano. Eu quis levar e já marquei em minha agenda o dia em que tenho que ler.

Durante a atividade, aconteceu uma coisa muito chata. Estávamos concentrados quando de repente começou um barulho, de mesas e cadeiras sendo derrubadas; depois, começaram os gritos, que foram ficando cada vez mais altos e transtornados - "Ninguém vai falar mal de mim!! NINGUÉM VAI FALAR MAL DE MIM!!!!. Era uma colega em crise; foram necessárias três pessoas para segurá-la, tamanha sua força naquele momento, enquanto a enfermeira lhe aplicava um calmante. Depois, vim a saber o que havia acontecido.

Ontem, essa paciente, ao sair da consulta com o psiquiatra, foi falar com o pessoal e disse que havia tirado "prints" das telas de conversa de nosso grupo do WhatsApp e mostrado ao médico. Quem estava presente na segunda-feira contou que seu objetivo era mostrar a ele como determinadas pessoas estavam desequilibradas (de acordo com as coisas que postavam, as vezes falando em suicídio) e lhe sugerir que recomendasse a internação dessas no regime fechado (em outro hospital, pois o nosso só funciona durante o dia). Os colegas ficaram super abalados com isso, muitos precisaram de disse extra de medicamento, sentiram que havia sido uma traição da parte dela. Por isso criaram outro grupo no Whatsapp, sem incluí-la.

Porém, hoje, alguém contou a ela sobre o novo grupo e até lhe mostrou as conversas. Então, ela ficou imaginando que o grupo havia sido criado para que ali se falasse mal dela. Isso a fez ficar extremamente nervosa, de tal forma que entrou em crise. Não sabemos (ou pelo menos eu não sei), quem revelou a ela sobre o grupo novo.

Pois é. Hoje vi que o HD também é uma reprodução da sociedade lá fora; nem tudo é amizade e solidariedade, e precisamos ficar atentos, deixar a ingenuidade de lado.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

05/11/2019 - Dia 19

Às terças de manhã acontece a "Oficina de Comunicação". É o momento em que lemos um texto, ouvimos uma música, assistimos a um vídeo curto ou confeccionamos matérias para a HD Mix, a revista do hospital e depois discutimos o tema. Hoje foi dia de ler um poema sobre mudança:


(Infelizmente, a poesia é creditada a Clarice Lispector, quando na verdade o autor é Edson Marques - que está na justiça para reaver direitos autorais.)

A conversa foi produtiva. A maioria falou sobre mudanças que devem, precisam ocorrer; eu escrevi um outro poema, falando que mudar é fácil quando não dói, quando não é obrigatório e nem toca em feridas profundas. É fácil quando a mudança é voluntária, uma nova experimentação; senão, dói demais.

Foi doloroso constatar o quanto a doença, especialmente nas mulheres, maioria no grupo de hoje, afeta a família. Maridos que começaram a beber, a se desequilibrar, a tomar medicamentos depois que suas esposas adoeceram. E essas esposas fazendo seus depoimentos em desespero, chorando, cheias de culpa... Culpa deveria ser uma palavra grafada sempre com letra maiúscula, tamanho o peso que ela impõe, tamanha a infelicidade que ela carrega consigo. E como é difícil se livrar dela... Quanto trabalho, quanto esforço. Você se despoja da culpa quando desenvolve autoestima, quando amadurece; recentemente, uma pessoa sábia me disse: substitua a palavra "culpa" por "responsabilidade". Por exemplo: você quebrou um vaso na casa de alguém; não diga "Aiiiii, foi tudo culpa minha!!!!". Diga "Olha, foi responsabilidade minha. Fique tranquila que foi substituí-lo." Para quem ouve, pode não haver diferença alguma; para quem fala, a conquista é imensa.




segunda-feira, 4 de novembro de 2019

04/11/2019 - Dia 18

Como em todas as segundas, iniciamos o dia com os relatos de nosso fim de semana. Algumas pessoas dizem que está tudo bem, que foi tranquilo; uma outra contou que se superou ao conseguir ligar para uma companhia telefônica e resolver um problema... Eu aprendo muito ao ver o quanto pequenas conquistas significam para alguns pacientes. Outro dia, dois deles relataram estarem muito felizes pois haviam conseguido ir à feira; um deles, com o filho, adulto, com o qual dividiu o clássico pastel com caldo de cana.

Eu não estava muito bem, chorei... Mas recebi a solidariedade e carinho de colegas que normalmente são fechados, que sofrem de problemas sérios, e que dividiram um pouco de sua história comigo para me ajudar a encontrar o meu caminho. Foi muito importante e significou muito para mim.

Durante meu relato, um paciente fez perguntas íntimas, inconvenientes. Nossa... vários colegas e o assistente social vieram em meu socorro, pedindo que o colega não falasse coisas que me constrangessem. Eu fiquei com pena dele até, mas ele realmente foi muito invasivo.

No intervalo, uma das colegas que me ajudou na terapia em grupo cuidou do meu cabelo, penteou, passou óleos hidratantes. Depois me deu um dos óleos! Essa pessoa é muito sofrida, isso não a impediu de desenvolver vários talentos em diversas áreas; ela é extremamente inteligente.

No atelier de hoje, teci só um pouquinho de meu cachecol, pois queria fazer um turbante que outras meninas estavam fazendo. São tiras de tecido que temos que costurar; eu adoro dar pontos, me relaxa. Acho que amanhã mesmo eu consigo terminar e usar.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

01/11/2019 - Dia 17

Pela manhã, tivemos o "Fechamento". Uma das colegas chorou muito, pois ela estava bem até então, mas havia tido uma crise de pânico no dia anterior. Ela tem muito medo de morrer, e quando acontecem as crises, não consegue pensar de forma racional, fica extremamente ansiosa e passa a ter sintomas físicos: o coração dispara, a cabeça começa a esquentar, desde a nuca. É muito difícil ser portador de Síndrome do Pânico, porque falta também a empatia dos outros; todos veem que a pessoa está bem, que é saudável, e que ficar tão nervosa por medo de morrer (no caso dela) é bobagem. Alguns dizem até mesmo que é frescura. Já não existe muita solidariedade com os portadores de qualquer transtorno mental ou de personalidade, mas acho que no caso do pânico isso fica ainda mais exacerbado e a pessoa portadora da doença deve se sentir muito sozinha, o que piora o quadro.

Estou notando um aspecto ruim no HD, que preciso trabalhar em mim. É que há pacientes internados há dois, seis, dez anos e até mais, fazem terapia, tem consulta semanal com o psiquiatra, tomam medicamentos mas não veem perspectiva de alta... Seus quadros não se estabilizam... É como se o hospital fosse um trabalho ou uma segunda casa. Uma rotina quase perpétua da qual não há escapatória; a gente se envolve emocionalmente com essas pessoas, fica muito penalizada com a situação delas. O problema é que passa pela minha cabeça que eu também posso passar muito tempo naquele lugar, e que, apesar de todo o progresso que venho observando, posso ter outra crise e regredir. Isso não é uma ideia fixa e pessimista, mas sim um pensamento que procuro expulsar logo, pois tenho muita fé em minha cura. Venho fazendo tudo o que posso, dentro e fora da clínica, para me fortalecer, melhorar meu autoconhecimento e autoestima, e voltar à minha vida normal. De qualquer forma, nunca vou me esquecer de tudo o que estou vivendo e aprendendo no hospital.

À tarde foi dia de atividade lúdica: jogamos "Imagem & Ação", com mímica. Foi muito divertido, rimos bastante. Havia algumas palavras ou frases bem difíceis para serem traduzidas em gestos (por exemplo: saiu "Rio Amazonas" para mim. Consegui apenas fazer os colegas adivinharem o estado, Amazonas, mas não deu tempo de sacarem que a outra palavra era "rio") e outras fáceis demais ("rir"). E ninguém liga muito de ganhar ou perder. O importante é a alegria de participar; isso é o melhor de tudo, olhar ao redor e ver que todos estão com um sorriso no rosto.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

30/10/2019 - Dia 15

De manhã, assistimos a um videozinho bem curto, chamado "Reach - Liberdade Além da Janela":




É a história de um robozinho movido a bateria, que está conectado ao carregador, mas deseja sair pela janela, e ser livre como o pássaro que ele observa pelo lado de dentro do edifício onde se encontra. Trata-se de uma metáfora sobre a busca pela liberdade e os percalços que encontramos na vida para conquistá-la.

Foi interessante observar como cada pessoa interpreta o vídeo de um jeito diferente. Para mim, a falta de liberdade é a depressão; para outro, ficar preso é ser dependente de medicamentos; e um outro acredita que não ser livre é se sentir obrigado a estar conectado o tempo todo a dispositivos tecnológicos e redes sociais. Foi uma conversa bem produtiva, bem conduzida pela psicóloga.

Enquanto isso, outro grupo foi para a atividade de teatro, coordenada por um professor da área. Muitos pacientes preferem o teatro, acho que deve ser bem divertido; eu sempre opto pelas terapias em grupo, creio que surtam um efeito mais rápido, mais direto. Mas isso é uma escolha totalmente individual, pois vejo que pacientes que são quietos e um pouco isolados gostam do teatro, e com certeza isso faz bem a eles, e lhes dá a chance de se expressarem de um modo ao qual talvez não tivessem acesso se não estivessem no HD.

À tarde, para encerrarmos a campanha de conscientização "Outubro Rosa", tivemos uma tarde de beleza (só as mulheres. Os homens ficaram jogando dominó.). Levamos argila para tratar a pele do rosto, maquiagens, cremes e esmaltes. Foi engraçado, ficamos todas com cara de fantasma, mas foi muito bom! A argila branca de fato trata a pele, ativa a circulação, elimina parte da oleosidade e tira manchas (isso com o uso mais prolongado). Também conversamos bastante, contamos histórias e comemos pipoca.

Nossa psicóloga que recentemente voltou de licença (conforme contei em 28/10/2019), foi afastada novamente, por 14 dias; não sabemos o motivo, mas acreditamos que seja pelos fatos que ocorreram no "Dia 13". Fiquei chateada, pois ela é uma ótima profissional, super lúcida, fala com muita clareza e me parece realmente preocupada com os pacientes. Espero que ela volte forte e restabelecida.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

28/10/2019 - Dia 13

Pela manhã, tivemos terapia em grupo com uma psicóloga que havia estado em licença devido à morte de uma pessoa muito importante havia duas semanas; todos no HD sabiam sobre sua perda. Casualmente, ela foi trabalhar de preto hoje e um paciente, querendo fazer uma brincadeira, disse a ela "Ei, você está toda de preto! Está de luto por acaso??". Ah... às vezes as pessoas só vão pensar no que dizem após as palavras terem saído da boca... Tenho certeza de que não foi por mal, e também alguns colegas não tem certos filtros sociais... Mas a psicóloga deve ter sofrido com o que ouviu. Além disso, nossa terapia em grupo foi um pouco pesada; colegas falando sobre síndrome do pânico e seu medo de morrer e outros falando do mesmo transtorno, mas sobre seus planos (alguns postos em prática) de suicídio; alguns ouvem vozes de outras pessoas em suas mentes, outras escutam a própria voz, todas ordenando ou profetizando coisas ruins. Colegas falando sobre depressão, angústia, tristeza profunda, falta de esperança, ausência de alegria, vontade de morrer e ao mesmo tempo de lutar para sair desse estado... Acredito que todo esse conteúdo deva ter sobrecarregado nossa terapeuta, que precisou ir ao médico no intervalo e não retornou mais para o resto do dia.

Apesar de todo o peso, creio que essas conversas e essa troca entre os pacientes, e também as orientações das psicólogas e assistente social, são o que mais me ajudam a ganhar força. Na verdade, um ajuda o outro, pois o intercâmbio faz que que descubramos novas alternativas, terapias, caminhos... Se alguém melhora, é como se todos melhorassem, pois percebe-se que há luz no fim do túnel, que a superação é possível. Também, muitos problemas, sentimentos e atitudes são parecidos, o que faz com que nos sintamos acolhidos e até protegidos. O trabalho em grupo é fundamental, e lamento muito pelas pessoas que se negam a participar ou pelas que tomam parte mas se recusam a falar.

O almoço foi muito gostoso, pois tinha creme de milho, que eu adoro. Depois do intervalo, foi dia de atelier na TO; continuei meu cachecol no tear, e está ficando bonito! Até aprendi a corrigir pequenos defeitos sem ter de desmanchar a peça. Estou pensando em comprar um tear e usar em casa, para relaxar a mente; acho que não deve custar muito caro, afinal é um pedaço de madeira cheio de preguinhos.

Infelizmente, a paciente que começou na clínica dia 23/10 acabou desistindo mesmo. Eu não a vi hoje e nem na sexta; perguntei às técnicas de enfermagem, e elas confirmaram: desistência. Sei que não devia me preocupar tanto com as pessoas, mas às vezes é inevitável... A colega não se deu uma chance, não participou das terapias em grupo, talvez tenha tomado parte em atividades que eram inadequadas para seu quadro depressivo (na quinta, ela optou pela musicoterapia, não sei se por desconhecimento das opções ou por escolha consciente mesmo. Entretanto, a terapia com música é muitas vezes barulhenta, quase insuportável para quem está com depressão, enquanto que a TO é tranquila, fazemos artesanato, conversamos...). É uma pena, pois tenho certeza de que ela poderia melhor; tanto eu quanto vários outros colegas estamos com depressão também, e juntos poderíamos ajudá-la com nossos depoimentos, pequenas e grandes vitórias, caminhos trilhados... Porém, não posso sofrer, a decisão sobre a própria vida cabe a cada um. Se for para ser, ela irá voltar, assim como aconteceu com outros pacientes.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

25/10/2019 - Dia 12

Como de costume, às sextas, ocorre o "Fechamento". Todos contam como foi sua semana, mas também acabam desabafando muitas coisas, problemas invariavelmente vinculados, direta ou indiretamente, à doença. Emoções à flor da pele são muito frequentes nesses momentos, mas o bom é que ninguém julga quem chora; pelo contrário: alguém sempre se levanta para pegar alguns lenços de papel e entregar a quem está falando. A psicóloga nos disse hoje que é importantíssimo, durante a terapia em grupo, falar bastante e colocar tudo para fora; essa atitude não vai resolver o problema, mas vai amenizar a intensidade com a qual ele está sendo vivenciado, vai deixar a pessoa mais leve.

Em um dos depoimentos, o INSS foi citado novamente. Uma das colegas está com depressão, teve um membro da família assassinado e está com questões familiares, mas, mesmo assim, teve o benefício negado. Na verdade, o médico perito nem deu chance para que ela colocasse seus problemas; ele perguntou apenas "Sua medicação não está fazendo efeito??", permaneceu digitando algo no computador e a dispensou, com menos de um minuto de consulta. O jeito como alguns médicos tratam pessoas com problemas mentais é absurdo, deveriam ter o diploma cassado por perjúrio às palavras de Hipócrates. Hoje em dia, na formatura, os médicos não utilizam mais o texto original do pai da medicina, pois o texto foi atualizado para o vocabulário e realidade atual. Em Portugal, foi adotado o seguinte (destaquei algumas palavras que guardam relação com a situação da colega):

"Compromisso do Médico
Como membro da profissão médica:
– PROMETO SOLENEMENTE consagrar a minha vida ao serviço da humanidade;
– A SAÚDE E O BEM-ESTAR DO MEU DOENTE serão as minhas primeiras preocupações;
– RESPEITAREI a autonomia e a dignidade do meu doente;
– GUARDAREI o máximo respeito pela vida humana;
– NÃO PERMITIREI que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente;
– RESPEITAREI os segredos que me forem confiados, mesmo após a morte do doente;
– EXERCEREI a minha profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;
– FOMENTAREI a honra e as nobres tradições da profissão médica;
– GUARDAREI respeito e gratidão aos meus mestres, colegas e alunos pelo que lhes é devido;
– PARTILHAREI os meus conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de saúde;
– CUIDAREI da minha saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade;
– NÃO USAREI os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e sob palavra de honra"

Eu fico me perguntando se os peritos do INSS se lembram, mesmo que vagamente, do conteúdo daquilo que prometeram ao receberem seus diplomas. Mesmo que não se lembrem, respeito é algo que todo mundo deve mostrar por qualquer pessoa...

À tarde assistimos a um filme já antigo: "Querida, Encolhi as Crianças!!" de 1989. Às sextas é dia de atividade lúdica, mas eu, sinceramente, prefiro jogar como na semana passada. A interação é muito maior...

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

23/10/2019 - Dia 10

Hoje pela manhã conversamos sobre a música "Não vou me adaptar":

Não vou me adaptar
Nando Reis, Arnaldo Antunes
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que...

Como sempre, a discussão foi interessante, e o tema favoreceu muito. Somos pessoas tentando nos adaptar às nossas realidades, cada qual à sua, e são tantas histórias diferentes... A da pessoa que tinha uma grande alegria de viver quando era mais jovem, e que perdeu toda essa felicidade quando adquiriu sua doença, de modo que mal terminou o ensino médio e não conseguiu fazer faculdade. Ou a da pessoa que trabalhava em uma farmácia e tinha acesso a medicamentos controlados, que um dia ela resolveu ingerir, vários de uma vez. E também a da pessoa que sempre foi diferente e nunca foi aceita em seu meio, e que precisou se adaptar à situação, aceitando que sempre iria passar por esse tipo de situação por não estar dentro dos padrões sociais. A questão é que ela aceitou a situação, mas não a ela própria; ela não se aceita e sofre muito com isso.

O almoço hoje foi muito bom! Virado à Paulista, muito saboroso. Depois do intervalo, tivemos uma palestra com a enfermeira sobre prevenção ao câncer de mama, devido ao Outubro Rosa. Foi boa, ela falou sobre sintomas e sinais, exame e tratamentos. As únicas coisas não tão boas foram as interrupções, colocações fora de hora, de alguns pacientes. Isso é bastante comum no HD, até mesmo pelas enfermidades de alguns colegas, que talvez tenham perdido o filtro. O jeito é ter bastante paciência para lidar com a questão e assim garantir o bom convívio com todos.

Uma coisa triste foi presenciar a reação de uma paciente que iniciou na clínica hoje; estava reclamando com a enfermeira e eu escutei. Ela tem depressão e, quando teve contato com os outros pacientes durante a palestra, ficou um pouco chocada ao verificar que os transtornos eram diversos. Também a incomodou o fato de como os colegas se portaram quando as copeiras levaram a pipoca (quarta-feira é dia de pipoca), pois alguns se levantaram rápido e  "foram para cima" da bandeja onde estavam os saquinhos. Ela ficou assustada ao se ver inserida nessa realidade e ao perceber que não é um hospital exclusivamente voltado ao tratamento da depressão. Pedi licença para falar com ela e contar sobre mim; disse que quando visitei a clínica pela primeira vez, fiquei um pouco mal ao ver alguns pacientes dormindo pelos cantos. No entanto, ao começar o tratamento, percebi que o fato de haver pessoas tão diferentes só enriquece a convivência e ajuda em nossa cura. Falei que podíamos conversar sobre nossas doenças sem nos preocuparmos com preconceito, e que podíamos nos abrir sem medo, desabafando, tirando o que nos incomoda de dentro de nós. Finalizei colocando que os colegas e as terapias em grupo eram a melhor parte de estar no HD e sugeri a ela que não desistisse somente pela primeira impressão, que continuasse indo e desse a si própria uma chance. Não sei se ela se convenceu, mas espero que ao menos vá mais uma vez e possa realizar uma atividade que lhe dê a oportunidade de ver com seus próprios olhos aquilo que tentei expressar em minhas palavras.