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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

13/12/2019 - Dia 35

O Fechamento trouxe momentos de emoção, como sempre; um das pacientes estava se sentindo rejeitada pela própria psicóloga, pois esta não soube lidar com uma determinada situação que minha colega havia lhe apresentado. A rejeição é algo muito forte entre nós, e é fundamental trabalharmos isso.
Outra colega está em um momento de desespero. Ela não é casada, tem três filhos e mora com a mãe, que sustenta a todos; quatorze anos atrás, ela resolveu pedir demissão de um emprego em que ganhava bem, era concursada e tinha estabilidade. Naquele tempo, ela tinha um projeto pessoal em mente, e também desejava ficar mais tempo com os filhos; entretanto, hoje ela lamenta profundamente sua decisão, pois adoeceu, ficou muito tempo sem trabalhar e por isso não se julga qualificada e não consegue arrumar empregos, mesmo os mais simples e com menor salário. Ela teme a morte da mãe e com isso a cessão de sua fonte de sustento, e acredita que destruiu a vida dos filhos. Tentamos ajudá-la, dizendo que os filhos vão ter sua vida e encontrar seu caminho, que a vida deles não está destruída, e que ela precisa se perdoar pela decisão que tomou no passado. Com base nos elementos, pensamentos e ferramentas que ela possuía na época, era aquilo que ela achava que deveria fazer. Talvez, na hora, não tenha adiantado termos falado isso; mas, quem sabe plantamos uma semente? Por isso eu gosto muito da terapia em grupo: os colegas sempre têm algo a nos ensinar, um colo e uma palavra amorosa a oferecer.

De mim, falei hoje que esta semana foi especial, pois voltei a dirigir (fui de carro até a clínica) e a cozinhar. Fazia meses que não assumia essas tarefas (porque não dava para assumir mesmo... A depressão é muitas vezes incapacitante.), fiquei um pouco apreensiva de sair com o carro (eu não sabia o caminho, o Waze enlouqueceu, estava quase sem combustível e temia não achar vaga na rua), mas deu tudo certo e hoje saí de novo, com muito mais segurança.

À tarde, fomos divididos em equipe e brincamos de "Jogo do Milhão". O grupo tinha que responder a perguntas cujo nível de dificuldade ia aumentando à medida que as rodadas iam progredindo. Bom, eu adoro jogar, foi super divertido (e polêmico, pois não concordamos com algumas respostas) e nossa equipe ainda foi a vencedora.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

25/11/2019 - Dia 24

Segunda-feira, dia de contar como foi o fim de semana. Cheguei atrasada, pois fui fazer alguns exames de sangue, e por isso não consegui falar; entretanto, ouvi muitas coisas, e muito tristes.
Uma nova colega, muito jovem, que engravidou cedo do namorado e apanhou a gravidez inteira; deixou o namorado após o nascimento da filha, mas as marcas do relacionamento nunca a deixaram. Ele telefona diariamente a ela, ameaçando tirar-lhe a menina - não por amor à filha, como ele mesmo deixa claro, mas apenas para atormentar a ex-namorada, que caiu em depressão e tem pânico. As doenças não são compreendidas pela mãe, que não foi quem criou nossa colega e por quem não desenvolveu o típico amor incondicional. O irmão também não entende seus problemas de saúde, os quais julga serem "frescura". Toda essa carga emocional fez nossa colega tentar o suicídio sete vezes.
O lado bom desse depoimento foi ela dizer, ao final, que estava se sentindo melhor e mais leve por ter compartilhado sua história conosco, e nós lhe dissemos que lá era um lugar em que todos se compreendiam e se ajudavam, todos estávamos no mesmo barco.

Uma outra colega, que semana passada havia ido a um retiro espiritual e estava super bem, voltou a ficar depressiva por conta de ter sido humilhada pela sogra. A falta de compreensão de doenças mentais pelos próprios familiares leva a situações como essa; no caso, a sogra a havia acusado de estar prejudicando o filho dela (marido de nossa colega) com a doença, que não era mulher de verdade, que não tinha nível. Nossa colega, que é uma baita mulher de fibra, ficou arrasada e, nós, muito chateados, pois todos nos envolvemos uns com os outros.

O intervalo do almoço foi muito divertido. Estávamos ao redor da mesa conversando, e alguém reclamou de nosso barulho; aí, fomos lá para cima, para a sala da terapia ocupacional. Uma das colegas subiu com duas grandes sacolas, com os produtos que vendia (ela não está recebendo o benefício do INSS e então se vira com as vendas): brinquedos eróticos, acessórios, cremes, lingeries, etc. Lá na clínica não é permitido o comércio, então pode-se imaginar como foi nossa tarde: além de estarmos apoiando o "comércio ilegal", os produtos eram de sex shop (rsrsrsrsrsrsrs) - imagine se entra uma enfermeira ou um médico na sala!! E nossa colega é uma ótima vendedora, conhece todos os artigos e fala deles com a maior segurança e desenvoltura. Na sala, havia umas oito mulheres e dois homens - que estavam se divertindo à beça e não queriam sair de lá por nada neste mundo, descobrindo os segredos do universo feminino. Depois de uma manhã de depoimentos tão sofridos, esse momento foi um oásis.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

05/11/2019 - Dia 19

Às terças de manhã acontece a "Oficina de Comunicação". É o momento em que lemos um texto, ouvimos uma música, assistimos a um vídeo curto ou confeccionamos matérias para a HD Mix, a revista do hospital e depois discutimos o tema. Hoje foi dia de ler um poema sobre mudança:


(Infelizmente, a poesia é creditada a Clarice Lispector, quando na verdade o autor é Edson Marques - que está na justiça para reaver direitos autorais.)

A conversa foi produtiva. A maioria falou sobre mudanças que devem, precisam ocorrer; eu escrevi um outro poema, falando que mudar é fácil quando não dói, quando não é obrigatório e nem toca em feridas profundas. É fácil quando a mudança é voluntária, uma nova experimentação; senão, dói demais.

Foi doloroso constatar o quanto a doença, especialmente nas mulheres, maioria no grupo de hoje, afeta a família. Maridos que começaram a beber, a se desequilibrar, a tomar medicamentos depois que suas esposas adoeceram. E essas esposas fazendo seus depoimentos em desespero, chorando, cheias de culpa... Culpa deveria ser uma palavra grafada sempre com letra maiúscula, tamanho o peso que ela impõe, tamanha a infelicidade que ela carrega consigo. E como é difícil se livrar dela... Quanto trabalho, quanto esforço. Você se despoja da culpa quando desenvolve autoestima, quando amadurece; recentemente, uma pessoa sábia me disse: substitua a palavra "culpa" por "responsabilidade". Por exemplo: você quebrou um vaso na casa de alguém; não diga "Aiiiii, foi tudo culpa minha!!!!". Diga "Olha, foi responsabilidade minha. Fique tranquila que foi substituí-lo." Para quem ouve, pode não haver diferença alguma; para quem fala, a conquista é imensa.