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terça-feira, 26 de novembro de 2019

25/11/2019 - Dia 24

Segunda-feira, dia de contar como foi o fim de semana. Cheguei atrasada, pois fui fazer alguns exames de sangue, e por isso não consegui falar; entretanto, ouvi muitas coisas, e muito tristes.
Uma nova colega, muito jovem, que engravidou cedo do namorado e apanhou a gravidez inteira; deixou o namorado após o nascimento da filha, mas as marcas do relacionamento nunca a deixaram. Ele telefona diariamente a ela, ameaçando tirar-lhe a menina - não por amor à filha, como ele mesmo deixa claro, mas apenas para atormentar a ex-namorada, que caiu em depressão e tem pânico. As doenças não são compreendidas pela mãe, que não foi quem criou nossa colega e por quem não desenvolveu o típico amor incondicional. O irmão também não entende seus problemas de saúde, os quais julga serem "frescura". Toda essa carga emocional fez nossa colega tentar o suicídio sete vezes.
O lado bom desse depoimento foi ela dizer, ao final, que estava se sentindo melhor e mais leve por ter compartilhado sua história conosco, e nós lhe dissemos que lá era um lugar em que todos se compreendiam e se ajudavam, todos estávamos no mesmo barco.

Uma outra colega, que semana passada havia ido a um retiro espiritual e estava super bem, voltou a ficar depressiva por conta de ter sido humilhada pela sogra. A falta de compreensão de doenças mentais pelos próprios familiares leva a situações como essa; no caso, a sogra a havia acusado de estar prejudicando o filho dela (marido de nossa colega) com a doença, que não era mulher de verdade, que não tinha nível. Nossa colega, que é uma baita mulher de fibra, ficou arrasada e, nós, muito chateados, pois todos nos envolvemos uns com os outros.

O intervalo do almoço foi muito divertido. Estávamos ao redor da mesa conversando, e alguém reclamou de nosso barulho; aí, fomos lá para cima, para a sala da terapia ocupacional. Uma das colegas subiu com duas grandes sacolas, com os produtos que vendia (ela não está recebendo o benefício do INSS e então se vira com as vendas): brinquedos eróticos, acessórios, cremes, lingeries, etc. Lá na clínica não é permitido o comércio, então pode-se imaginar como foi nossa tarde: além de estarmos apoiando o "comércio ilegal", os produtos eram de sex shop (rsrsrsrsrsrsrs) - imagine se entra uma enfermeira ou um médico na sala!! E nossa colega é uma ótima vendedora, conhece todos os artigos e fala deles com a maior segurança e desenvoltura. Na sala, havia umas oito mulheres e dois homens - que estavam se divertindo à beça e não queriam sair de lá por nada neste mundo, descobrindo os segredos do universo feminino. Depois de uma manhã de depoimentos tão sofridos, esse momento foi um oásis.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

18/11/2019 - Dia 20

Depois de quase duas semanas de ausência, voltei ao HD. Dia 5, fui ao oftalmo investigar uma mancha que estava prejudicando minha visão do olho direito, e ele descobriu que era descolamento de retina. Precisei operar com urgência e ficar em repouso, e por isso só retornei à clínica hoje.

Dia normal, histórias sempre comoventes. Uma colega foi convidada pela irmã para irem fazer compras no fim de semana, e ela foi. Entretanto, as ruas estavam muito cheias, ela começou a ter uma crise de pânico, muito medo das pessoas na rua, e pediu à irmã que fossem embora. O pedido foi atendido, mas de má vontade; a irmã não compreendeu que se tratava de um momento em que a razão deixa de existir, é a doença se manifestando, nada do que se diga pode abrandar o sofrimento. Nossa colega sofreu com essa falta de empatia, ficou muito triste, e nem as desculpas recebidas no final do dia a fizeram sentir-se melhor.

Uma outra colega nos contou uma coisa boa: havia participado de um retiro espiritual durante o fim de semana, e os dias de reflexão lhe trouxeram revelações importantes e emocionantes. Ela saiu de lá uma nova mulher e disse que se sente muito, muito bem. E todos nós também ficamos felizes por ela, primeiro pela amizade, e depois porque a vitória de cada um é a vitória de todos lá no HD; traz esperança, traz alento.

Havia três novos colegas, que entraram semana passada e hoje. É estranho, pois quando alguém novo chega, a gente observa a pessoa e fica se perguntando qual será o problema, a doença dela. A gente sempre acha que parece que o paciente em questão não tem nada. Claro, sempre nos enganamos; ninguém fica internado à toa. Mas também, cada dia mais, constatamos a imprecisão do ditado "as aparências enganam"... Não, elas não enganam! Elas simplesmente não dizem nada sobre ninguém. Absolutamente nada. E vamos aprendendo aos poucos a não julgar ninguém.