quarta-feira, 23 de outubro de 2019

23/10/2019 - Dia 10

Hoje pela manhã conversamos sobre a música "Não vou me adaptar":

Não vou me adaptar
Nando Reis, Arnaldo Antunes
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que...

Como sempre, a discussão foi interessante, e o tema favoreceu muito. Somos pessoas tentando nos adaptar às nossas realidades, cada qual à sua, e são tantas histórias diferentes... A da pessoa que tinha uma grande alegria de viver quando era mais jovem, e que perdeu toda essa felicidade quando adquiriu sua doença, de modo que mal terminou o ensino médio e não conseguiu fazer faculdade. Ou a da pessoa que trabalhava em uma farmácia e tinha acesso a medicamentos controlados, que um dia ela resolveu ingerir, vários de uma vez. E também a da pessoa que sempre foi diferente e nunca foi aceita em seu meio, e que precisou se adaptar à situação, aceitando que sempre iria passar por esse tipo de situação por não estar dentro dos padrões sociais. A questão é que ela aceitou a situação, mas não a ela própria; ela não se aceita e sofre muito com isso.

O almoço hoje foi muito bom! Virado à Paulista, muito saboroso. Depois do intervalo, tivemos uma palestra com a enfermeira sobre prevenção ao câncer de mama, devido ao Outubro Rosa. Foi boa, ela falou sobre sintomas e sinais, exame e tratamentos. As únicas coisas não tão boas foram as interrupções, colocações fora de hora, de alguns pacientes. Isso é bastante comum no HD, até mesmo pelas enfermidades de alguns colegas, que talvez tenham perdido o filtro. O jeito é ter bastante paciência para lidar com a questão e assim garantir o bom convívio com todos.

Uma coisa triste foi presenciar a reação de uma paciente que iniciou na clínica hoje; estava reclamando com a enfermeira e eu escutei. Ela tem depressão e, quando teve contato com os outros pacientes durante a palestra, ficou um pouco chocada ao verificar que os transtornos eram diversos. Também a incomodou o fato de como os colegas se portaram quando as copeiras levaram a pipoca (quarta-feira é dia de pipoca), pois alguns se levantaram rápido e  "foram para cima" da bandeja onde estavam os saquinhos. Ela ficou assustada ao se ver inserida nessa realidade e ao perceber que não é um hospital exclusivamente voltado ao tratamento da depressão. Pedi licença para falar com ela e contar sobre mim; disse que quando visitei a clínica pela primeira vez, fiquei um pouco mal ao ver alguns pacientes dormindo pelos cantos. No entanto, ao começar o tratamento, percebi que o fato de haver pessoas tão diferentes só enriquece a convivência e ajuda em nossa cura. Falei que podíamos conversar sobre nossas doenças sem nos preocuparmos com preconceito, e que podíamos nos abrir sem medo, desabafando, tirando o que nos incomoda de dentro de nós. Finalizei colocando que os colegas e as terapias em grupo eram a melhor parte de estar no HD e sugeri a ela que não desistisse somente pela primeira impressão, que continuasse indo e desse a si própria uma chance. Não sei se ela se convenceu, mas espero que ao menos vá mais uma vez e possa realizar uma atividade que lhe dê a oportunidade de ver com seus próprios olhos aquilo que tentei expressar em minhas palavras. 


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