terça-feira, 17 de dezembro de 2019

17/12/2019 - Dia 36

De manhã, adiantamos a revista HD Mix; geralmente essa atividade é feita na última terça do mês, mas como o Natal e o Ano Novo cairão nesse dia da semana, a realizamos hoje. Escolhi o tema "Viagens", encontrei rapidamente algumas figuras e escrevi "Wanderlust" no rodapé de minha folha, abaixo das colagens. Essa é uma palavra alemã (que se escreve com a inicial maiúscula mesmo, como ocorre com todos os substantivos desse idioma) que não tem tradução direta para o português (como a nossa "saudade" também não tem. Ela tem que ser explicada em duas ou mais palavras.), e que significa "desejo de viajar".

Após o almoço, tive a consulta semanal com meu médico mesmo, que voltou de férias. Foi uma ótima consulta, pois ele me perguntou sobre tudo o que havia feito e sentido em sua ausência, e ficou feliz ao ver minha evolução. Por isso, combinamos minha alta; ele voltou a dizer que não é bom que eu continue por mais tempo no HD agora. Como eu volto a trabalhar na segunda metade de janeiro, precisaria ser liberada mesmo do hospital, e o doutor adiantou um pouco isso, para que eu possa tirar umas férias, ir para a praia, antes de retornar à rotina normal.

Na TO, achei que fosse finalizar o boneco de neve de barbante, mas... as bexigas onde colei os fios murcharam durante o fim de semana, e o barbante murchou também... Bom, comecei de novo. Vamos ver se vai dar tempo de ficar pronto até quinta-feira, dias do almoço de Natal. Aliás, estou pensando também em meu cachecol de tear... Não terminei ainda, porque interrompi o trabalho várias vezes. Vou pedir às terapeutas para tecê-lo em outros dias da semana, de forma que eu consiga concluí-lo!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

13/12/2019 - Dia 35

O Fechamento trouxe momentos de emoção, como sempre; um das pacientes estava se sentindo rejeitada pela própria psicóloga, pois esta não soube lidar com uma determinada situação que minha colega havia lhe apresentado. A rejeição é algo muito forte entre nós, e é fundamental trabalharmos isso.
Outra colega está em um momento de desespero. Ela não é casada, tem três filhos e mora com a mãe, que sustenta a todos; quatorze anos atrás, ela resolveu pedir demissão de um emprego em que ganhava bem, era concursada e tinha estabilidade. Naquele tempo, ela tinha um projeto pessoal em mente, e também desejava ficar mais tempo com os filhos; entretanto, hoje ela lamenta profundamente sua decisão, pois adoeceu, ficou muito tempo sem trabalhar e por isso não se julga qualificada e não consegue arrumar empregos, mesmo os mais simples e com menor salário. Ela teme a morte da mãe e com isso a cessão de sua fonte de sustento, e acredita que destruiu a vida dos filhos. Tentamos ajudá-la, dizendo que os filhos vão ter sua vida e encontrar seu caminho, que a vida deles não está destruída, e que ela precisa se perdoar pela decisão que tomou no passado. Com base nos elementos, pensamentos e ferramentas que ela possuía na época, era aquilo que ela achava que deveria fazer. Talvez, na hora, não tenha adiantado termos falado isso; mas, quem sabe plantamos uma semente? Por isso eu gosto muito da terapia em grupo: os colegas sempre têm algo a nos ensinar, um colo e uma palavra amorosa a oferecer.

De mim, falei hoje que esta semana foi especial, pois voltei a dirigir (fui de carro até a clínica) e a cozinhar. Fazia meses que não assumia essas tarefas (porque não dava para assumir mesmo... A depressão é muitas vezes incapacitante.), fiquei um pouco apreensiva de sair com o carro (eu não sabia o caminho, o Waze enlouqueceu, estava quase sem combustível e temia não achar vaga na rua), mas deu tudo certo e hoje saí de novo, com muito mais segurança.

À tarde, fomos divididos em equipe e brincamos de "Jogo do Milhão". O grupo tinha que responder a perguntas cujo nível de dificuldade ia aumentando à medida que as rodadas iam progredindo. Bom, eu adoro jogar, foi super divertido (e polêmico, pois não concordamos com algumas respostas) e nossa equipe ainda foi a vencedora.

12/12/2019 - Dia 34

Hoje assistimos a um documentário muito diferente sobre autoestima. Tratava-se da visão de um filósofo do século XVI sobre o assunto:




É muito interessante o filme, porque mesmo para os tempos de hoje, o assunto é moderno e um pouco polêmico; imagine em 1550 e alguma coisa! Acho que ninguém pensava nisso naquela época.

À tarde, iniciamos os trabalhos para a decoração de Natal. Alguns começaram uma lareira e uma chaminé de caixas de papelão, em tamanho quase natural; a mim coube fazer um boneco de neve utilizando bexigas, cola com farinha e barbante:


A colega que sugeriu (e queria muito) que ele fosse feito foi uma pessoa que sofreu demais na vida. Perdeu um filho em um acidente de avião (ele era o copiloto) e ficou sabendo da notícia pela TV; o fato fez com que adoecesse de forma drástica. Ela também foi a pessoa que eu tirei de Amigo Secreto. Quando ela viu que eu havia me empenhado em fazer o boneco, ela me agradeceu muito! Confesso que prefiro fazer outros tipos de trabalhos manuais, como tear, bordado e costura, mas foi muito, muito gratificante ver a gratidão nos olhos dela.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

11/12/2019 - Dia 33

De manhã, lemos fragmentos de textos sobre liberdade e autoconhecimento, escrevemos nossas impressões aplicando-as à nossa própria história de vida e conversamos. Creio que o aspecto mais forte da discussão foi a opinião de várias pessoas sobre autoconhecimento: elas disseram que não se conhecem tão bem assim, pois adoeceram de uma forma que jamais imaginavam, têm crises que não conseguem controlar e não possuem autonomia para tomarem suas próprias decisões. Perderam sua liberdade, não se reconhecem mais.

Uma moça recém chegada participou do grupo. Ela nos contou um pouco de sua história: esteve de hospital em hospital este ano inteiro, e passou sete meses em regime fechado. Está desiludida, disse que perdeu a autonomia sobre sua vida, que a família toma todas as decisões por ela; também está revoltada, pois tomou eletrochoques nesse período. Não acredita em nada, "largou mão" de si mesma; o problema é que ela tem apenas 25 anos.
Quando a gente se depara com uma história assim, tem muita vontade de conversar com a pessoa, mostrar que ainda há esperança, há caminhos. Que a internação, principalmente em um hospital dia, não é um instrumento de punição, mas sim de auxílio, de cuidado. No entanto, às vezes, pessoas muito jovens não acreditam em nada disso... Têm muita firmeza em suas opiniões e são resistentes a pensar de outra forma; por isso, não adianta dizer muita coisa... O que podemos fazer é ser solidários, acolher à medida em que sentimos necessidade e abertura do colega; é o que há de melhor a ser feito.

À tarde, fizemos nosso Amigo Secreto. Sorteamos os nomes na hora, e cada um presentearia seu amigo com a lembrancinha feita nas sessões de TO. Nossa, foi muito legal. Eu sempre me preocupo com Amigos Secretos, porque a pessoa que nos tira precisa nos descrever para que os outros adivinhem quem é, e fico com medo de usarem meu pior atributo físico como descrição de mim. No entanto, isso não aconteceu em absoluto! Todos usaram palavras carinhosas e de estímulo para descreverem seus Amigos. Por exemplo, um paciente disse sobre uma colega: "Minha Amiga Secreta é uma pessoa muito expansiva, está sempre conversando e ajudando os outros. Ela tem uma preocupação muito específica que está lhe prejudicando no momento, mas eu tenho certeza de que logo vai sair dessa, porque a vida tem muito a oferecer a ela." Foi tão lindo, a gente chorou até. E a maioria das descrições foi por essa linha; o clima foi de muita paz, acho que foi o melhor Amigo Secreto do qual já participei. Isso nos faz constatar o quanto o que se vai ganhar não é importante; ouvir as palavras de carinho que foram usadas para nos descrever foi o melhor presente.

10/12/2019 - Dia 32

Na Oficina de Comunicação de hoje fizemos uma atividade diferente. A psicóloga nos apresentou cinco desenhos com situações distintas envolvendo o Papai Noel; tínhamos que escolher uma das imagens e escrever uma história utilizando seus elementos e os aplicando à nossa vida, e à forma como vemos o Natal. Foi interessante ver como cada pessoa encara as festas: alguns gostariam de fechar os olhos e acordar só em 3 de janeiro. Uns estão pesarosos pois não poderão se reunir com a família toda por doença ou algum problema pessoal; outros estão felizes justamente porque não têm quase ninguém com quem se reunir e assim ficarão mais sossegados. Uns estão mais animados neste ano do que nos anteriores; outros não se animaram nem para enfeitar a casa. É... pessoas diferentes, visões diferentes.

A tarde transcorreu sem novidades. Continuei a fazer uma lembrancinha de amigo secreto que já havia começado semana passada; ficou bonitinha, era uma estrela azul. Logo terminei e dei continuidade ao cachecol no tear. Espero conseguir terminá-lo logo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

05/12/2019 - Dia 31

Hoje resolvi ir caminhar no parque em vez de ficar vendo o filme, que é a outra opção de atividade das quintas. Depois da caminhada, lá no parque mesmo, fizemos duas atividades de socialização. Na primeira, uma pessoa ia conduzindo uma bola com os pés até o cone de marcação, e depois voltava, dava a mão para o companheiro de equipe e os dois iam conduzindo a bola; e assim continuava até que todos os componentes do grupo estivessem de mãos dadas em uma grande corrente. Vencia quem chegasse primeiro à linha de largada.

A segunda atividade era em trios, em que os componentes tinham que ser dar as mãos e formar um círculo, se locomovendo e tocando a bola um para o outro. Estava indo tudo bem, até que precisamos renovar os trios e um dos membros precisava sair. O moço que estava em nosso grupo se ofereceu para sair, mas o professor não deixou, disse que ele precisava ficar, pois seria o homem daquela equipe, assim como ele, o professor, seria o homem da outra. Sendo assim, eu saí do grupo; entretanto, achei a atitude do profissional machista. A equipe poderia perfeitamente ter sido formada só com mulheres, pois a atividade não requeria força ou brutalidade, mas apenas noções de lateralidade e coordenação motora.

Ao final, enquanto descansávamos um pouco, a psicóloga pediu para que falássemos um pouco da atividade, e nós fomos sinceras e dissemos ao professor que havíamos entendido a atitude dele como machista. Ele disse que não havia sido sua intenção mas aceitou a crítica.

À tarde continuamos a fazer nossas lembrancinhas de Natal durante a TO. Eu terminei uma (a vela) e comecei a fazer outra (uma estrela). Mas as terapeutas nós dispensaram mais cedo, porque ameaçava chover forte ( e realmente choveu).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

04/12/2019 - Dia 30


Nossa primeira atividade foi assistir a uma animação que falava sobre a diferença entre empatia e simpatia:


Depois, discutimos sobre o tema, e como sempre houve opiniões e visões bem diferentes, mas que sempre enriquecem a conversa.

Após, uma colega nos chamou para falarmos sobre os desdobramentos dos fatos de ontem. Uma paciente acha que talvez a intenção da colega que teve a crise não havia sido ruim, pelo contrário. Talvez ela, a seu modo, quisesse ajudar pessoas que, na visão dela, estivessem muito doentes, a ponto de se matarem. Eu também tenho esse pensamento, pode ser que o propósito tenha sido bom, ela merece o benefício da dúvida. A questão é que tudo foi feito à revelia dos envolvidos; talvez ela devesse ter conversado com eles antes.

Após o intervalo, na TO, voltamos a fazer lembrancinhas de Natal. Enquanto isso, a psicóloga fez algumas atividades com outro grupo. Eu preferia estar na terapia hoje, mas precisava terminar minha lembrança. Consegui concluir a tarefa: uma pequena vela de feltro verde, fechada com manta acrílica e costurada com linha vermelha aparente.


03/12/2019 - Dia 29

Ontem foi meu primeiro dia de redução; foi bom também não precisar ir à clinica, ter o dia livre. O médico falou que eu preciso ir desmamando do HD, e a redução de um dia é o primeiro passo.

Tivemos uma atividade bem interessante na oficina de comunicação: escrever uma carta para nós mesmos daqui a um ano. Então, contamos a nós mesmos como estamos hoje e como esperamos estar na mesma data ano que vem. Lemos nossa carta um para os outros e depois a psicóloga sugeriu que a levássemos para casa e a guardássemos, para ser lida daqui a um ano. Eu quis levar e já marquei em minha agenda o dia em que tenho que ler.

Durante a atividade, aconteceu uma coisa muito chata. Estávamos concentrados quando de repente começou um barulho, de mesas e cadeiras sendo derrubadas; depois, começaram os gritos, que foram ficando cada vez mais altos e transtornados - "Ninguém vai falar mal de mim!! NINGUÉM VAI FALAR MAL DE MIM!!!!. Era uma colega em crise; foram necessárias três pessoas para segurá-la, tamanha sua força naquele momento, enquanto a enfermeira lhe aplicava um calmante. Depois, vim a saber o que havia acontecido.

Ontem, essa paciente, ao sair da consulta com o psiquiatra, foi falar com o pessoal e disse que havia tirado "prints" das telas de conversa de nosso grupo do WhatsApp e mostrado ao médico. Quem estava presente na segunda-feira contou que seu objetivo era mostrar a ele como determinadas pessoas estavam desequilibradas (de acordo com as coisas que postavam, as vezes falando em suicídio) e lhe sugerir que recomendasse a internação dessas no regime fechado (em outro hospital, pois o nosso só funciona durante o dia). Os colegas ficaram super abalados com isso, muitos precisaram de disse extra de medicamento, sentiram que havia sido uma traição da parte dela. Por isso criaram outro grupo no Whatsapp, sem incluí-la.

Porém, hoje, alguém contou a ela sobre o novo grupo e até lhe mostrou as conversas. Então, ela ficou imaginando que o grupo havia sido criado para que ali se falasse mal dela. Isso a fez ficar extremamente nervosa, de tal forma que entrou em crise. Não sabemos (ou pelo menos eu não sei), quem revelou a ela sobre o grupo novo.

Pois é. Hoje vi que o HD também é uma reprodução da sociedade lá fora; nem tudo é amizade e solidariedade, e precisamos ficar atentos, deixar a ingenuidade de lado.

domingo, 1 de dezembro de 2019

29/11/2019 - Dia 28

No "Fechamento" de hoje, tivemos, como sempre, momentos de emoção. Temos uma nova colega, que está bem mal; ela tem quatro filhos, entre ele um bebezinho, e não está conseguindo fazer as coisas em casa, assim como muitos outros pacientes. E as filhas mais velhas, já adolescentes, é quem estão fazendo as tarefas, cozinhando, arrumando, cuidando dos irmãos menores; nossa colega está se sentindo muito mal com isso, ela não quer essa vida para as filhas. Além de tudo, uma das meninas disse para ela algo como "Por quê você está aqui em casa, se não faz nada??" Nossa, eu imagino como isso deve ter doído... Ninguém fica doente porque quer... Tentamos consolar nossas colega, dizendo que os filhos são assim, não cuidam dos pais como os pais cuidam deles, e que adolescentes são cruéis no jeito de falar, mas que no fundo as filhas devem estar sofrendo muito com a doença dela. Mas é muito difícil... A doença não é só do paciente, atinge também sua família e isso deixa quem está doente pior ainda, por se ver um fardo para todos, se achar inútil.

O intervalo foi animado, colegas contando suas histórias de antes da internação, seus trabalhos, sua vida. E depois as internações em regime fechado e o progresso para o HD. Disseram que nossa clínica era diferente antes, ficava em outro local, mais espaçoso, onde era possível até jogar vôlei; havia também mais professores de educação física e psicólogos, e as pessoas que hoje ficam em um canto, sem tomar parte de nada, participavam de tudo naquela época. Era tudo mais bonito e organizado, e até a comida era melhor. É... Contenção de despesas, crise. Afetou a todos.

A atividade da tarde foi um jogo de adivinhar charadas, e depois brincamos de "Stop". Uma coisa legal foi ver as TOs ajudarem os que têm mais dificuldade a escrever durante o Stop; dessa forma, puderam realmente participar, não ficaram à margem. Muito bom.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

28/11/2019 - Dia 27

De manhã, assistimos ao documentário "Tarja Branca":


O filme fala sobre o brincar, sobre o quanto os adultos se esqueceram de sua criança interior e se levam a sério demais, sobre como é importante permanecer com o espírito da brincadeira até mesmo no trabalho. A tal "Tarja Branca" se refere ao brincar, e seria uma alusão à cor da faixa que define um medicamento e, sendo branca (não vermelha e muito menos preta), não apresenta contraindicações; pelo contrário, faz bem à saúde.

Percebi que muitas pessoas não gostaram do documentário. Creio que seja porque havia muitos depoimentos e reflexões entremeados por músicas regionais. Ao final, fizemos uma dinâmica em que tínhamos que definir, em uma palavra, nosso sentimento com relação ao filme e duas palavras que saíram foram "chato" e "incompreensível". Eu achei um pouco arrastado em algumas partes, mas me identifiquei demais em outras, principalmente quando disseram que você tem que fazer o que gosta em sua profissão; é necessário, pois assim você trabalha "brincando" e é mais feliz.

No intervalo, claro, conversamos sobre INSS, perícia e remédios. Aí fomos ler a bula de um medicamento que só um dos colegas usa, aparentemente, pois ninguém mais conhecia; um remédio contra a narcolepsia ou sonolência excessiva. Havia tantos, mas tantos possíveis efeitos colaterais que o pessoal começou a brincar dizendo que a medicação tirava o sono porque o paciente ficava com medo do que lia na bula e não conseguia dormir.

À tarde foi dia de celebração dos aniversariantes do mês, e teve videokê novamente. Aí, chamei meu colega escritor, que tem a voz grave, para cantar "Não Se Vá", da Jane e Herondy comigo, em um dueto. Ah, ele mergulhou fundo na música, foi muito divertido.